"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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terça-feira, 31 de julho de 2012

Efésios 1.21 - O Poder Soberano de Cristo - Exposição em Efésios - Sermão pregado dia 29.07.2012



Efésios 1.21 - O Poder Soberano de Cristo
Exposição em Efésios - 
Sermão pregado dia 29.07.2012

"Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro" (Ef 1.21).

Cada declaração de Paulo nos soa de modo semelhante e sempre intenta nos fornecer basicamente três coisas: Deus é soberano, o homem é pecador, mas Deus enviou seu Filho para morrer por Seus escolhidos. Esta tríade é praticamente repetida (com mais ou menos intensidade) por toda a Escritura, afinal, os cristãos precisam reconhecer como o salmista: "Portanto está alegre o meu coração e se regozija a minha glória; também a minha carne repousará segura" (Sl 16.9). Contudo, um homem só pode ficar realmente alegre e jubiloso após passar por dificuldades e reconhecer sua extrema miséria. A própria natureza vivencial nos ensina isto, pois quantas são as vezes que precisamos perder alguma quantia de dinheiro, bater o carro, ter um ente querido da família adoecido ou até mesmo se ver sem esperança na própria vida, para, então, reconhecermos que "não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece" (Rm 9.16)?

É neste prisma da necessidade de reconhecermos nossas debilidades para repousarmos seguros, que o apóstolo Paulo (dirigido pelo Senhor) escreve as palavras do presente versículo. Observemos, com a bênção do Senhor, a grande exaltação da soberania divina sobre absolutamente tudo que existe.

Após termos analisado no versículo anterior que Cristo foi ressuscitado e posto "à sua direita nos céus" (Ef 1.20), agora temos o início de uma grande declaração e mais do que poderosa atuação do Senhor. Notemos como a palavra que inicia o presente versículo tenciona forçar nossas mentes para que imaginemos algo superior, mais elevado, maior e mais poderoso do que a normalidade das coisas. Paulo faz eco às palavras anteriores e escreve para completar a declaração, pois se Cristo foi posto "à sua direita nos céus", então necessariamente Ele está "Acima" de todas as coisas que existem.

Entretanto, as Escrituras nos fornecem sobre quais coisas Cristo foi posto como por cabeça ("E estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade" - Cl 2.10): "Acima de todo o principado" (grifo meu).

Infelizmente muitos têm lido a palavra principado e entendido que o Senhor está apenas acima dos demônios e anjos da esfera celestial. É verdade que a palavra pode denotar também estes seres, no entanto, principado possui a conotação de ser acima de toda a origem, de todo magistrado, líder e qualquer regra. O Senhor deseja nos ensinar que por mais poderoso que seja um juiz, desembargador, ministro do Supremo Tribunal Federal ou o próprio presidente (e ainda toda sorte de homens com riquezas e poderes), todos eles estão "abaixo" em comparação com Cristo que está "Acima". Relembremos do grandioso Salmo: "Eu, porém, ungi o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião. Proclamarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei. Pede-me, e eu te darei os gentios por herança, e os fins da terra por tua possessão. Tu os esmigalharás com uma vara de ferro; tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro. Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos instruir, juízes da terra. Servi ao SENHOR com temor, e alegrai-vos com tremor. Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira; bem-aventurados todos aqueles que nele confiam" (Sl 2:6-12).

O salmista afirma que o Rei (Cristo, o Senhor) está "sobre o meu santo monte de Sião", isto é, reina poderosamente sobre todos os filhos do Senhor. Mas Deus não somente constituiu a Cristo como superior sobre os judeus, e sim disse: "Pede-me, e eu te darei os gentios por herança, e os fins da terra por tua possessão". Os próprios não cristãos também estão sob o cetro de justiça do Senhor; para estes diz a palavra, terríveis coisas acontecerão: "Tu os esmigalharás com uma vara de ferro; tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro". Todavia, em Sua grande misericórdia, o Eterno conclama para que os poderosos nesta terra ponderem consigo mesmos se, à vista da poderosa "vara de ferro" que não deixará "pedra sobre pedra" (Mt 24.2; Mc 13.2; Lc 21.6), não lhes é melhor ser prudentes e se dobrarem diante do Altíssimo: "Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos instruir, juízes da terra. Servi ao SENHOR com temor, e alegrai-vos com tremor". Mas não basta que os poderosos simplesmente digam que servirão ao Senhor, pois eles precisavam fazer como nos tempos antigos donde o salmista escreve: ir e beijar a mão do Rei, como sinônimo de submissão - "Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira".

A palavra do Senhor é por demais evidente e dever-nos-ia causar grande temor ao lermos estas palavras: "quando em breve se acender a sua ira". Outro versículo corrobora com este entendimento: "Minha é a vingança e a recompensa, ao tempo que resvalar o seu pé; porque o dia da sua ruína está próximo, e as coisas que lhes hão de suceder, se apressam a chegar" (Dt 32.35). Naquele momento sublime descrito por Moisés em Deuteronômio, não precisaria haver muita coisa para que o Senhor se irasse, tão somente bastaria "resvalar o seu pé" e "o dia da sua ruína está próximo". Para os homens que não se dobram diante do Senhor e de Seu poder, daqueles que negam Sua soberania e acham que podem alcançar a salvação por si mesmos, o Eterno lhes decreta que a Sua ira e justiça "se apressam a chegar". O apóstolo Pedro compreendeu bem isto quando disse: "O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia" (2Pe 3.9).

Homens e mulheres neste mundo estão brincando com Aquele que é "Acima de todo o principado". Homens, mulheres, adultos, jovens e crianças têm temido e venerado mais a homens ímpios do que ao Senhor dos Exércitos. O mundo inteiro teme receber uma citação judicial em casa para ir perante o juiz e ter de responder por seus atos; teme que seja pego na "malha fina" do imposto de renda; teme que o professor não lhe ajude a passar de ano na faculdade; teme o próprio chefe do emprego e suplica para que não o mande embora... Mas poucos, muitos poucos, são aqueles que temem o Senhor Todo Poderoso e que tem poder mais do que suficiente para reduzir o homem ao pó da terra - "No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás" (Gn 3.19). Assim como Ele prometeu que esmigalharia todos os gentios (naquele tempo quando eles ainda não tinham acesso ao Senhor), hoje a Sua ira se aproxima e também reduzirá ao pó da terra todos que pervertem os Seus caminhos.

Os homens têm sua curta vida de prazeres e delícias nesta terra, mas sequer compreendem que o seu destino é a morada de todos os viventes, conforme lemos abundantemente em Eclesiastes. Precisamos resgatar estar lembrança de que o Senhor é acima tudo aquilo que julgamos ser mais poderoso do que nós. Estas palavras de Jesus Cristo deveriam estar diariamente em nossa fronte, colada em nossas paredes da casa e no vidro de nossos carros: "E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo" (Mt 10.28). Temer ao Senhor é princípio da sabedoria (Pv 9.10).

Como o salmista ficou quando percebeu que sua fé se enfraquecia diante do avanço e prosperidade dos ímpios? "Quanto a mim, os meus pés quase que se desviaram; pouco faltou para que escorregassem os meus passos" (Sl 73.2). Ele não brincou, mas sim ele temeu ser tragado. Este santo homem registrou que diante de tão grande crescimento dos ímpios ele foi tentado a imaginar que o Senhor não estava com ele e por isto "os meus pés quase que se desviaram"; acrescenta ainda que "pouco faltou para que escorregassem os meus passos". O salmista, demonstrando sua extrema fraqueza, nos diz que porque tinha "inveja dos néscios, quando via a prosperidade dos ímpios" (Sl 73.3), seus "pés quase que se desviaram". Devemos, então, fazer a pergunta: o que foi que deteve aquele homem de cair em suas misérias e abandonar o Senhor e Poderoso Criador? Eis a resposta fornecida por ele mesmo: "Até que entrei no santuário de Deus; então entendi eu o fim deles. Certamente tu os puseste em lugares escorregadios; tu os lanças em destruição" (Sl 73.17-18).

A glória, o poder, a soberania e a repentina destruição que estão sobre os ímpios ("tu os puseste em lugares escorregadios; tu os lanças em destruição") levou o salmista a exclamar e dizer que havia entendido o porquê dos ímpios florescerem nesta terra, terem muitas vezes do bom e do melhor - "Como caem na desolação, quase num momento! Ficam totalmente consumidos de terrores" (Sl 73.19). Contudo, que grande tristeza, na verdade, é o que estes homens possuem. Possuem ouro e prata nesta terra, mas colherão esterco e vermes por todo o corpo no porvir. Seus pagamentos se restringem a esta terra, suas alegrias suas passageiras, suas emoções são falsas e suas afeições inclinadas somente para as trevas. A inconstância dos ímpios é certa e em breve seus pés vacilarão e não haverá quem possa salvá-lo; nem mesmo a mais farta conta bancária poderá livrá-los da repentina destruição.

Amados irmãos, é desta mesma forma que precisamos olhar para "a sobreexcelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos" (Ef 1.19). É necessário que tenhamos esta convicção de que o poder do Senhor é acima de todo principado, mas não somente deste, mas até mesmo sobre todo o "poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia". Outro salmo se mostra grandioso para nós: "Adorai ao SENHOR na beleza da santidade; tremei diante dele toda a terra" (Sl 96.9). O que o salmista está explicitando é que devemos adorar o Senhor segunda a Sua santidade, Sua determinação e isto deve nos levar a tremer diante d'Ele! Ora, como poderemos tremer diante do Senhor se não O tivermos como Soberano e "Acima de todo o principado"?

Muito antes de Jesus nascer, o Senhor já havia tocado na vida do profeta Isaías para que dissesse: "Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz" (Is 9.6). É mister que olhemos e percebamos que Isaías é idêntico ao que Paulo nos disse: "o principado está sobre os seus ombros". Cristo é o menino que nasceu e que possui sobre seus ombros o poder, a primogenitura e domínio sobre os "séculos dos séculos e para sempre" (Sl 145.1). Talvez, que outro versículo poderia ser citado para demonstrar este grandioso poder, do que "No princípio criou Deus os céus e a terra" (Gn 1.1)? Cristo reina soberanamente sobre tudo e todos, de modo que antes de todas as coisas existirem, Ele já existia - "E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós" (Êx 3.14). Diferentemente do homem vil e que é levado como a onda no mar (Tg 1.6), o Senhor sempre é em si mesmo e não depende de outrem para deter o controle sobre todas as coisas.

Qual de nós poderia ser igual a esta grandeza? Olhemos o contraste entre um ser soberano, eterno, imutável, invisível (mas real!) e nós - "Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece" (Tg 4.14). Entre o Senhor cujo poder é tão grande e é chamado de o Senhor dos Exércitos, denotando poder, justiça e plena capacidade para arquitetar o seu poderia militar, e nós - "Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer" (Lc 17.10). Enquanto o Senhor é tudo, nós somos nada. Enquanto Ele reina "de eternidade em eternidade" (Sl 106.48), não somos melhores e mais duradouros nesta terra do que a neblina "que aparece por um pouco, e depois se desvanece".

O homem que crê possuir certa bondade em si mesmo, certamente nunca recorreu às Escrituras para ler: "Que te farei, ó Efraim? Que te farei, ó Judá? Porque a vossa benignidade é como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada, que cedo passa" (Os 6.4). Assim como os pés do salmista quase haviam resvalado, mostrando o quão frágil e debilitado era diante do Altíssimo, assim também nossa bondade "cedo passa". O Senhor que é eterno, diz a respeito de nós: "E, quando vós estáveis mortos nos pecados, e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas" (Cl 2.13). A grandeza do Criador é tão sublime, que Ele traz pessoas da morte para vida. Enquanto diante de um cadáver nos vemos completamente incapazes e nem mesmo todo o dinheiro deste mundo poderia trazer a pessoa amada de volta, para o Senhor, todas as coisas são possíveis - "Porque para Deus nada é impossível" (Lc 1.37). Ele é quem traz o morto em seus pecados para a vida com Seu Filho e isto só é possível graças à Sua excelsa grandeza e soberania.

E para que ninguém pensasse que o reino de Deus é somente deste mundo e que fosse limitado a esta esfera terrena, o apóstolo afirma que Ele está acima de todas as coisas, "não só neste século, mas também no vindouro". Aqui se evidencia o porquê de Paulo ter afirmado no versículo 3 que nossas bênçãos são "espirituais" e estão "nos lugares celestiais em Cristo". Cristo precisa ser onipotente sobre todas as coisas que existem por Sua criação, caso contrário não poderíamos esperar uma firme recompensa nos céus; afinal, se Ele fosse tão somente soberano sobre este mundo (ou o no porvir), então não haveria motivos para vivermos uma verdadeira vida cristã, pois se de um momento para o outro, Cristo, supostamente, poderia perder Seu trono nos céus, todos nós seríamos perdidos de Sua mão - o que contrariaria o próprio dito do Messias: "E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão" (Jo 10.28). O Senhor também só poderia ter dito, "Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar" (Jo 14.2) se verdadeiramente fosse o dominador e guardador de toda a Sua criação.

Tentemos também olhar para a grandiosa afirmação que Jesus faz: "se não fosse assim, eu vo-lo teria dito". Quer dizer, Cristo afirmou que de fato há muitas moradas e existe um lugar preparado para todos os Seus filhos adotados por Ele mesmo (Ef 1.5). "E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também. Mesmo vós sabeis para onde vou, e conheceis o caminho" (Jo 14.3-4). Graciosamente o Senhor declara que virá "outra vez... para que onde eu estiver estejais vós também". O grandioso Senhor sobre todas as coisas, mais do que maravilhosamente declara a todos os seus filhos: porque Eu estou acima de todas as coisas, de todos os principados e dominadores deste mundo, virei novamente e buscarei todos aqueles que estiverem marcados com o Meu sangue.

Que hoje possamos exclamar com contrição e alegria em nosso coração: "A ele seja a glória e o poderio para todo o sempre. Amém" (1Pe 5.11).

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Série: Homem e Mulher os criou - parte 18 - Homem e Mulher após a Queda – A Modéstia no Vestir - (Estabelecendo a questão) - Sermão pregado dia 29.07.2012


Série: Homem e Mulher os criou - parte 18 -
Homem e Mulher após a Queda – A Modéstia no Vestir 
(Estabelecendo a questão)
Sermão pregado dia 29.07.2012

Vivemos em dias onde as palavras "modéstia", "honra", "pureza" e "simplicidade" acarretam todo tipo de entendimento errôneo e sempre se diz que tais palavras são similares às utilizadas por aqueles fariseus e legalistas no tempo de Jesus. No entanto, já nos é claro que apesar de toda ignomínia que sofremos do mundo, a Bíblia sempre continuará a ser nosso padrão de fé e verdade para nossos dias. Porém, ponho-me a pensar sobre os porquês de haver tão pouca abordagem em nossas igrejas acerca desse assunto deveras vital para os crentes em Cristo Jesus. Nos causa espanto que as mesmas palavras que suscitam ódio nos ímpios (relacionadas à pureza e modéstia), por muitas vezes instiguem uma reação bastante similar na vida dos professos do cristianismo, ou seja, poucas são as congregações que "resistem" a um firme ensinamento bíblico sobre a modéstia em todas as áreas da vida. Contudo, todas as nossas atividades deverão passar pelo crivo bíblico caso queiramos viver de maneira digna de nossa vocação (Ef 4.1).

Tenho certeza de que muitos de nós (senão, todos) jamais conversaram, ouviram ou leram algum material realmente bíblico sobre como o cristão deve portar-se em seu vestir, caminhar e agir perante esse mundo. Talvez já tenhamos lido alguns materiais que trataram sobre determinados assuntos de forma genérica, isto é, que tocaram apenas em pontos superficiais do que vem a ser um cristão "politicamente correto" diante da igreja e da sociedade em que está instalado. Entretanto, não podemos aceitar que a Bíblia seja somente uma espécie de guia geral para nossas vidas, deixando-nos a incumbência de viver conforme os tempos, modas e filosofias de nossa época. É preciso que os crentes resgatem o verdadeiro discernimento do que vem a ser um homem e mulher "modestos" diante do Senhor.

Também deixamos registrado que ao falar deste assunto não estamos dizendo que não aceitaremos pessoas na igreja que não estejam se vestindo modestamente. Toda sorte de pessoas, jeitos, cores e vestimentas serão aceitas para ouvir a mensagem do evangelho e terem suas vidas transformadas. De modo algum alguém será excluído de assentar-se em nosso meio para conversar sobre sua vida; homens e mulheres, ricos e prostitutas, todos, sem exceção são bem-vindos neste lugar, não importando a roupa que estejam usando, pois cremos que o evangelho é poderoso para transformar estas vidas. Todas as pessoas serão recebidas para ouvir as Boas Novas e, então, posteriormente, pela graça de Deus, através da admoestação e poder do Espírito Santo, tais pessoas vão se vestindo modestamente e crendo no Senhor Jesus. Assim pontuado, olhemos ainda outras questões sobre o que estamos querendo dizer com modéstia.

Em primeiro lugar, é preciso deixar bastante evidente que a modéstia cristã, tanto no vestir-se como no portar-se, não se inicia exterior, mas no interior - deixe-me explicar: poderíamos citar centenas de miríades de atitudes, formas e roupas que seriam adequadas para cada situação de nosso dia-a-dia. Haveriam centenas, senão milhares de casos onde ser-nos-ia lícito apontar qual a melhor solução e como se portar perante o que o mundo requer de nós. Contudo, nada disso surtiria o verdadeiro efeito desejado pelas Escrituras, pois proveito algum teria o escrever de um tratado sobre a "modéstia cristã externa" se não começarmos com o problema inicial de todos os crentes: o pecado.

Em sua grandiosa maioria, todos os professos da vida cristã reconhecem que são pecadores por natureza e que devido a isso todas as suas atitudes estão manchadas e corrompidas pelo pecado. Mas, o que é estranho notar, é que ao lado dessa afirmação, muitos não acreditam na suficiência das Escrituras para discernirem o que é aceitável a Deus, o que Ele reprova e que sobre isso despeja Sua ira santa. Compreendermos a situação pecaminosa de nossas vidas é certamente muito importante, mas não devemos brecar por aí e deixar nossos corações livres para decidir o que será ou não adequado para nossas vidas. Nesse sentido, corretamente sustentam os bons escritores cristãos de que para conhecermos o pecado, precisamos olhar primeiramente para Cristo, contemplar sua beleza, santidade, retidão, justiça e verdade, e, então, olharmos novamente para nós mesmos e visualizarmos a mancha horrível do pecado que se espalha sobre absolutamente todo nosso corpo, tanto interior como exterior. Só conseguiremos entender nossa situação pecaminosa diante do Senhor quando entendermos que n'Ele reside toda fonte de pureza e santidade, mas não apenas como atributos divinos não alcançáveis, e sim como designativos de Deus que devem imperar na vida do crente que agora foi lavado pelo sangue de Cristo.

Quando falamos em modéstia, estamos querendo abordar sobre o que chamamos também de "bom senso cristão", "prudência e juízo cristão", mas, talvez, não como comumente entendido em certos círculos evangélicos, e sim de acordo com àquilo que as Escrituras nos ensinam ser prudente e lícito para a vida cristã. Bem sabemos que todas as ações do homem são provenientes de suas faculdades mentais e de suas emoções, e isso é importante para nós, pois uma vez que o agir exterior provém do interior, é salutar que visualizemos todas as nossas atitudes diante do mundo e da igreja a partir da disposição fundada em nossos corações. Então, sendo a modéstia uma questão proveniente do coração e disposição interior do homem (gênero) pecador, é preciso que entendamos que primeiro precisamos renovar e modificar nosso pensar e discernir sobre a vida cristã  para posteriormente conseguirmos aplicar com entendimento, graça e alegria em nossas vidas tudo aquilo que o Senhor deseja ver visível em nossas vidas - "E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus" (Rm 12.2).

Em segundo lugar, quando falamos em modéstia cristã, estamos a dizer que o Senhor nos legou uma santa e viva palavra que suplantou todas as ideologias e demagogias que já surgiram e ainda surgem em nossos tempos. É preciso levar cativo que a Bíblia possui um caráter atemporal, isto é, fora do tempo, desvinculado de qualquer contexto ou época específica - mas o que devemos entender com isso? Devemos compreender que apesar das Escrituras terem sido escritas em tempos bastante remotos ao que vivemos, suas doutrinas, práticas e verdades não estão condicionadas àqueles tempos em que foram escritas, ou seja, o mesmo pentateuco (os cinco primeiros livros da Bíblia) que foi válido para os judeus, hoje também nos comunica ensinamentos e sanções da parte de Deus; as cartas de Paulo escritas para as mais diversas igrejas, apesar de não mais existirem (fisicamente), ainda continuam a falar aos nossos corações e a nos admoestar a viver uma vida conforme a inspiração divina. Certamente que sempre precisamos analisar o contexto onde as cartas e passagens estão inseridas para por fim retirarmos um melhor entendimento; no entanto, o contexto e época não determinam a doutrina para os nossos dias, aliás, fazem justamente o contrário, isto é, mostram-nos que a palavra de Deus muitas vezes irá contra tudo àquilo que se diz ser normal e ordinário para os seres humanos - não foi assim com Noé e sua família, com o povo israelita em meio aos egípcios, com os profetas em meio a toda sorte de heresias, com Jesus entre os fariseus, com Paulo dentro os gentios...? 

Em terceiro lugar, como já brevemente pontuado, é mister que entendamos que a modéstia inicia-se em nosso interior: "O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem, e o homem mau, do mau tesouro do seu coração tira o mal, porque da abundância do seu coração fala a boca" (Lc 6.45), "Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias" (Mt 15.19). Um coração mau não pode falar coisas realmente agradáveis aos olhos do Senhor; um homem com pensamentos pervertidos não consegue olhar com pureza para a criação e criaturas feitas por Deus; uma boca ímpia não conseguirá sustentar a falsidade exterior por muito tempo; tão logo o lobo em pele de cordeiro se manifesta, e já todas as ovelhas se põem a correr em direção de seu pastor. A modéstia cristã no vestir-se e portar-se exteriormente não deve ser desassociada em relação à atitude interior. Notemos que em momento algum a Bíblia revela-nos uma descontinuidade entre aquilo que desejamos e o que realizamos; não há sequer um mandamento ou exemplo positivo que nos diga que pode haver uma disparidade entre o professar da fé cristã e a sua vivência diante dos homens. Essa censura nos é muito bem conhecida com relação a Jesus e os mestres da Lei, onde o Messias, sabendo a intenção de seus corações, constantemente os repreendia e proferia seu julgamento eterno sobre tais indivíduos.

Em quarto lugar, um dos princípios básicos da interpretação bíblica é que a Escritura se auto interpreta e, portanto, se auto explica; isto é, não devemos e nem podemos desejar compreender o evangelho de Cristo à luz do século em que vivemos. O verdadeiro intérprete da Bíblia é aquele que vai ao texto sagrado e deixa com que a própria sequência e naturalidade do texto lhe traga a resposta às dúvidas e incertezas. Não é prudente, nessa questão da modéstia, desejarmos intentar o que é moral, lícito e legal para nossos dias, sem antes irmos para a palavra de Deus e entendermos quais são os padrões que ela mesmo reserva para si e de que não abre mão. Ao contrário do senso comum, a Bíblia ensina firmes padrões de modéstia para o vestir do homem, da mulher, da criança e sobre como todos devem se portar nesse mundo vil e pervertido pelo pecado. Quando Cristo roga ao Pai para que não tirasse seus discípulos do mundo, mas sim que os fortalecesse e os livrasse do mal (Jo 17.15), Ele está claramente ensinando que se o Pai os fortalecerá nesse mundo, Ele também certamente os legará Sua providência para que assim o façam.

Em quinto lugar, se somos verdadeiramente crentes, certamente desejaremos fazer tudo em conformidade com a Lei e prescrições do Senhor. Um homem que ama sua esposa e deleita-se em sua doçura, busca agradá-la com gestos e presentes que a fazem feliz; um filho que se orgulha de seu pai e reconhece-o como protetor de sua vida, sempre deseja mostrar exteriormente o quanto está contente por tê-lo por perto e junto de si; até mesmo os cães nos são evidência da relação de afeições que há entre eles e seus donos, mostrando continuamente no abanar do rabo e no latir o quanto se divertem em sua companhia. De forma semelhante, mas que dever-nos-ia ser muito mais intensa, é também nossa relação com o Senhor e salvador de nossas vidas. Se demonstramos aos nossos pares, pais, familiares e amigos (e até mesmo para os animais!) a noção de amor que temos por eles, quanto mais evidente deveria ser nossa prática e vida cristã diante do Altíssimo e por tudo o que Ele nos fez. Homens e mulheres cristãs não podem ter prazer na imodéstia e em coisas imorais que até mesmo o mundo pecador julga serem contrárias a toda ética e sensatez humana. O crente não deve sair de casa com a expectativa de ser admirado por todos, quer seja por seu novo corte de cabelo, nova camisa ou novo visual que tenha adotado - "Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou" (1Jo 2.6). Se professamos uma fé em Cristo Jesus, nosso andar e falar diário precisa necessariamente refletir a salvação que alegamos estar presente em nossos corações. É uma contradição de afirmações o professar uma fé no Santo e sumo Salvador de todos os Seus filhos e ao mesmo tempo viver uma vida devassa e segundo os costumes, modas e intentos deste mundo decaído.

"Quem te não temerá, ó Senhor, e não magnificará o teu nome? Porque só tu és santo; por isso todas as nações virão, e se prostrarão diante de ti, porque os teus juízos são manifestos" (Ap 15.4) O apóstolo João, por meio de inspiração e visão divina, nos é clarividente em sua sentença: "por isso todas as nações virão, e se prostrarão diante de ti" (grifo meu). É corretamente lícito afirmar que tal visão se dá em relação a um futuro ainda não concretizado, no entanto, é igualmente certo sustentarmos que se todas as nações irão ao Senhor e se dobrarão em sinal de reverência e temor diante d'Ele, hoje, nós que somos cristãos gentios (isto é, não judeus), necessitamos externar tudo que está em nossos corações, precisamos demonstrar ao mundo que apesar de termos nascido em meio ao pecado e corrupção, fomos transformados pelo sangue do Cordeiro e já no tempo presente nos prostramos em adoração ao único santo e perfeito Senhor de toda a terra. Todo aquele que procrastina o dobrar amoroso e submisso de seus joelhos perante o Senhor nessa vida, por fim acabará de ter de dobrá-los forçosamente e para sua própria condenação – como diz a frase atribuída a J. C. Ryle, "O inferno é a verdade reconhecida tarde demais".

Tendo pontuado tais posicionamentos, precisamos responder a essa questão: de que tipo de modéstia estamos falando? Isto é, qual a finalidade de estudarmos a modéstia na vida cristã? Acaso, podem pensar alguns, mudaremos nossos modos de falar, agir e nossas roupas do guarda-roupa tão somente porque estamos vendo sobre a modéstia cristã? Respondo: sim. Mas ressalvo: mudemos primeiro o nosso coração.

Haveriam muitas definições para a palavra modéstia em nossos dicionários contemporâneos, no entanto, seria perigoso calcar nossas bases em palavras que vão tendo seus significados alterados conforme o tempo em que estão inseridas. O que hoje se diz ser modesto, puro e adequado, há não mais de cinquenta anos atrás teria uma conotação totalmente diversa; o que presentemente nos representa imoralidade e perversidade moral, há cem anos atrás nem sequer seria digno de menção pública; as roupas que atualmente dizemos ser "mais ou menos prudentes e modestas", há quinhentos anos atrás eram vestimentas que não seriam vistas nem mesmo nos mais esdrúxulos e malignos prostíbulos existentes. Então, tendo em vista que a definição de modéstia, honestidade e prudência variam conforme as épocas, precisamos nos ater a algum baluarte que seja fixo e imutável em sua definição, cujos princípios sempre permanecem os mesmos e assim estarão até o último dia - e certamente que só encontramos tal definição nas Escrituras reveladas pelo Senhor.

"Os olhos do SENHOR estão sobre os justos, e os seus ouvidos atentos ao seu clamor" (Sl 34.15), "Dá-me, filho meu, o teu coração, e os teus olhos observem os meus caminhos" (Pv 23.26). Por toda a Escritura encontramos sentenças que nos admoestam sobre a bênção e sobre os perigos que corremos nessa vida, pois nada escapa aos olhos do Senhor, nem coisa alguma consegue persuadir-Lhe o coração para que intente nova percepção de suas criaturas. Como peregrinos que somos por essa terra, devemos compreender que apesar de muitas lutas, aflições, desesperanças e, quem sabe, até mesmo martírios que possamos passar, nossa estadia não se resume a esta terra infestada e encharcada com o pecado, mas sim que estamos vivendo aquilo que o Senhor intentou e decretou para nós, a fim de que "Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu vitupério. Porque não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura" (Hb 13.13-14). Se assim se faz real conosco, isto é, que devemos levar as ofensas de Cristo em nossa vida e nela nos gloriar (além de Seu exemplo vivo), é salutar compreendermos as palavras de Cristo que dizem: "Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me" (Mt 16.24; Mc 8.34; Lc 9.23).

Não são raras as vezes em que nos deparamos com professos da fé cristã e que constantemente afirmam estar passando por aflições, angústias, doenças e poucas expectativas de melhoras no porvir. Porém, ao analisarmos a vida dos profetas, de Cristo e dos apóstolos em face do mundo em que viviam, percebemos que tais dificuldades são cotidianas para todos os homens, tanto crentes como ímpios. Tanto o crente e o ímpio sofrem, ambos têm angústias, os dois passam por tempos de doença e frequentemente se veem desolados quanto a melhoras significativas em suas vidas. Nesse sentido, portanto, não há que se falar que apenas o levar da cruz de Cristo seja sofrer o mesmo que os ímpios sofrem, mas no final ter a coroa da vida, ao passo que eles terão o tormento eterno. Se a cruz de Cristo se resume somente às mesmas dores e peculiaridades da vida dos homens contrários ao Evangelho, não haveria o porquê de sermos ensinados a carregar uma cruz e O seguir; talvez, se assim fosse, as palavras seriam: "Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, coloque a cruz no pescoço, e siga-me". A cruz de Cristo, quando viva em nossas vidas, atua de maneira dupla em nosso ser: primeiro nos dando um profundo senso do pecado, morte e destruição iminente que se aproximam de nós, e, em segundo lugar, uma paz e amor tão grandes, que mesmo em meio a todas as dificuldades, excedem todo nosso entendimento (Fp 4.7).

Portanto, a modéstia cristã também precisa estar anexa na cruz de Cristo, isto é, ao levarmos o vitupério e martírio que Cristo sofreu, necessitamos entender que a cruz também deve se fazer presente em nosso pensar, agir e na forma como nos vestimos diante do mundo. De coisa alguma adiantaria tratarmos da modéstia cristã se ela não fosse ligada a cruz de Cristo que precisa estar constantemente em nossos ombros. Se desejamos ser homens e mulheres que de fato refletem o caráter de Cristo nas ações do dia-a-dia, é necessário que comecemos a refletir se compreendemos a modéstia cristã e se de fato ela se faz latente em nossas vidas  - nossos pensamentos são bons e dignos de apreciação? Nossas palavras refletem a glória de Deus que afirmamos habitar em nós? Nossas roupas e os lugares que frequentamos são lícitos para com a fé que dizemos professar?  Ao escrever sobre tal assunto, sei que para alguns posso muito bem ser entendido como legalista, frio, calculista e odioso de toda e qualquer forma de descontração e beleza natural. No entanto, peço que os leitores reflitam primeiramente se de fato podem olhar para dentro de si e exclamarem com o apóstolo: "Miserável homem que sou!" (Rm 7.24). Mas, peço também com amor: olhe para seus relacionamentos e também para com a forma com que se veste e se apresenta diante das pessoas. Busque verificar nas Escrituras se de fato o seu vestir tem sido de acordo com as prescrições divinas, afinal, acaso alguém pensaria que na presença do Senhor poderia habitar a sensualidade e vestimentas contrárias ao que Ele mesmo ordenou em Sua palavra?

A modéstia cristã precisa saltar aos olhos dos não cristãos. Nossa família, nossos amigos e colegas de trabalho precisam enxergar em nós uma mudança significativa de pensamentos e atitudes, quando comparadas as da sociedade pervertida em que estamos inseridos. Não há nada mais maligno para um cristão do que o apoiar-se em falsas premissas do tipo "não seja diferente, seja crente", ou ainda, quando ouve de um ímpio os dizeres, "Nossa! Mas você nem parece crente!", achar que está dando bom testemunho, pois aparenta não ser um alienígena em meio à sociedade "pós moderna". É perniciosa a doutrina da contextualização da Palavra, onde lemos que o evangelho supostamente deve ser moldado pela sociedade em que vivemos. Lamentavelmente já não é incomum observarmos grandes desvirtuações das Escrituras nos professos da suposta fé cristã e que quando juntos e analisados segundo a luz da Verdade, suas roupas mais parecem refletir o espírito de dançarinos e manequins sensuais de Satanás e das bestas indomáveis do que dos crentes piedosos em Cristo Jesus.

"Certa vez Spurgeon disse aos seus alunos que eles iriam descobrir que pessoas que nas reuniões de oração oraram como autênticos santos, e que geralmente se comportavam como piedosas, numa assembléia da igreja poderiam de repente virar demônios! Ah! a história da igreja prova que o que ele disse não é senão muito verdadeiro. Você vê, orando a Deus elas pensam espiritualmente. Depois vêm a uma reunião de negócios da igreja e se tornam demônios. Por quê? Porque já partem de maneira não espiritual, com base na suposição de que há uma diferença essencial entre uma assembléia eclesiástica e uma reunião de oração. Têm dentro de si um espírito partidário, e ele vem para fora. Simplesmente porque esquecem que precisam pensar espiritualmente em tudo. Daí, o primeiro princípio que firmamos é que devemos aprender a pensar sempre espiritualmente".[1]

Assim como colocou o Dr. Jones, para entendermos como a modéstia cristã deve ser aplicada em nossas vidas, precisamos começar a pensar com pressupostos bíblicos, isto é, deixando de lado nossos conceitos pré-concebidos sobre o que vem a ser uma vida modesta e um agir prudente diante do mundo e sob os ditames deste, e, então, nos lançarmos à luz das Escrituras e buscar investigar quais são os padrões estabelecidos pelo Senhor em Sua santa e viva palavra.

Nota:
[1] JONES, Martyn Lloyd, Por Que Prosperam os Ímpios? Ed. PES - pág. 41.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Seus desejos são de um verdadeiro cristão?


"A quem, não havendo visto, amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e cheia de glória" (1 Pe 1:8).

O verdadeiro cristão tem uma convicção sólida e efetiva da verdade do evangelho. Não hesita mais entre duas opiniões. O evangelho deixa de ser duvidoso ou provavelmente verdadeiro, tornando-se estabelecido e indiscutível em sua mente. As coisas grandes, espirituais, misteriosas e invisíveis do evangelho influenciam seu coração como realidades poderosas.

Ele não tem simplesmente uma opinião que Jesus seja o Filho de Deus; Deus abre seus olhos para ver que este é o caso. Quanto às coisas que Jesus ensina sobre Deus, a vontade de Deus, a salvação e o céu, o cristão também sabe que são realidades indubitáveis. Têm, assim, uma influência prática em seu coração e em seu comportamento.

É claro nas Escrituras que todos os verdadeiros cristãos têm essa convicção sobre as coisas divinas. Mencionarei somente alguns textos dos muitos existentes: "Mas vós... quem dizeis que eu sou?" "Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo. Então Jesus lhe afirmou: bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue quem to revelou, mas meu Pai que está nos céus" (Mt 16:15-17). "Manifestei o teu nome aos homens que me deste do mundo. Eram teus, tu mos confiaste, e eles têm guardado a tua palavra. Agora eles reconhecem que todas as coisas que me tens dado, provêm de ti; porque eu lhes tenho transmitido as palavras que me deste e eles as receberam e verdadeiramente conheceram que saí de ti, e creram que tu me enviaste" (Jo 17:6-8). "Porque sei em quem lenho crido, e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele dia" (2Ti 1:12). "E nós conhecemos e cremos O amor que Deus nos tem" (1Jo 4:16).

Existem muitas experiências religiosas que falham em trazer essa convicção. Muitas das chamadas revelações são emocionantes, mas não convincentes. Não produzem mudança duradoura na atitude e conduta da pessoa. Existem pessoas que têm tais experiências, todavia não agem sob influência prática de uma convicção das realidades infinitas, eternas em suas vidas diárias. Suas emoções urdem por algum tempo e depois morrem de novo, não deixando atrás de si nenhuma convicção duradoura.

Entretanto, suponhamos que as afeições religiosas de uma pessoa surjam realmente de uma forte convicção que o cristianismo é verdadeiro. Seriam suas afeições espirituais? Não, não necessariamente. De fato, suas emoções ainda não são espirituais, a não ser que sua convicção seja razoável. Por "uma convicção razoável", quero dizer uma convicção fundada em evidência e de bom entendimento. Pessoas de outras crenças têm uma forte convicção da verdade de suas religiões. Muitas vezes aceitam suas religiões meramente porque seus pais, vizinhos e nações as ensinam. Se um cristão professo não tem outra base para sua fé, a não ser essa, sua religião não é melhor do que a de qualquer outro que creia meramente como resultado de sua formação. Sem dúvida a verdade em que o cristão acredita é melhor, porém se sua crença nessa verdade vem somente de sua formação, então a crença em si mesma está no mesmo nível que aquela das pessoas de outras religiões. As emoções que fluem de tal crença não são melhores que as emoções religiosas fundadas em outras crenças.

Além disso, suponhamos que a crença de uma pessoa no cristianismo não seja baseada em sua educação, mas em argumentos e na razão. Seriam suas emoções agora espirituais? Mais uma vez, não necessariamente. Emoções não espirituais podem surgir até de uma crença razoável. A crença propriamente dita há de ser espiritual bem como razoável. De fato, argumentos racionais às vezes convencerão uma pessoa intelectualmente que o cristianismo é verdadeiro, no entanto aquela pessoa continua não salva. Simão, o mágico, cria intelectualmente (At. 8:13), porém, continuou "em fel de amargura e laço de iniqüidade" (At. 8:23). Crença intelectual certamente pode produzir emoções, como nos demônios que "crêem e tremem" (Tg. 2:19), todavia tais emoções não são espirituais.

Convicção espiritual da verdade surge somente numa pessoa espiritual. Somente quando o Espírito de Deus ilumina nossas mentes para entender realidades espirituais podemos ter uma convicção espiritual da verdade delas. Lembrem-se, compreensão espiritual significa uma percepção interior da beleza espiritual das coisas divinas. Descreverei agora como essa compreensão nos convence da veracidade dessas coisas.

por Jonathan Edwards (1703-1758)

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Como entender que a Bíblia é inspirada por Deus?


A Confissão Belga resume a doutrina reformada da inspiração das Sagradas Escrituras no Artigo 3:

ARTIGO 3, A PALAVRA DE DEUS: Confessamos que a palavra de Deus não foi enviada nem produzida “por vontade humana, mas homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo”, como diz o apóstolo Pedro (2 Pedro 1:21). Depois, Deus, por seu cuidado especial para conosco e para com a nossa salvação, mandou seus servos, os profetas e os apóstolos, escreverem sua palavra revelada [1]. Ele mesmo escreveu com o próprio dedo as duas tábuas da lei [2]. Por isso, chamamos estas escritas: sagradas e divinas Escrituras [3].

[1] Êx 34:27; Sl 102:18; Ap 1:11,19. [2] Êx 31:18. [3] 2Tm 3:16.

Sobre isso, o teólogo presbiteriano B.B. Warfield escreveu:

“Os livros bíblicos são chamados inspirados por serem o produto, divinamente determinado, de homens inspirados; os escritores bíblicos são chamados inspirados por terem recebido o sopro do Espírito Santo, de maneira que o produto de suas atividades transcende a capacidade humana e recebe autoridade divina. A inspiração é, pois, definida, em geral, como sendo uma influência sobrenatural exercida nos escritores sagrados, pelo Espírito de Deus, em virtude da qual os seus escritos recebem fidedignidade divina.

“Toda a Escritura é divinamente inspirada, e é proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça” (II Tm. 3:16/ Almeida revista e corrigida). A palavra grega usada nesta passagem, theópneustos, não significa, de maneira nenhuma, “inspirado de Deus”. Esta frase é, antes, a tradução do latim divinitus inspirata, da Vulgata. A palavra grega nem sequer significa, como Almeida traduz, “divinamente inspirada”, embora esta tradução seja, por assim dizer, uma paráfrase rude, ainda que não enganadora, do termo grego, na linguagem teológica corrente daquele tempo. A expressão grega, porém, nada diz a respeito de inspiração ou de inspirar: fala apenas de respirar ou de respiração. Diz, sim, que é “exalado por Deus”, sendo pois o produto do “sopro” criador de Deus, e não que seja “inspirado por Deus”, isto é, que seja produto da “inspiração” divina nos seus autores humanos. Numa palavra, o que se declara nesta passagem fundamental é, simplesmente, que as Escrituras são um produto divino, sem qualquer indicação da maneira como Deus operou para as produzir. Não se poderia escolher nenhuma outra expressão que afirmasse, com maior saliência, a produção divina das Escrituras, como esta o faz.

O “sopro de Deus” é, nas Escrituras, o símbolo do Seu poder onipotente, o portador da Sua palavra criadora. No Salmo 33.6, lemos: “Os céus por sua palavra se fizeram, e, pelo sopro de sua boca, o exército deles”. É precisamente onde as operações de Deus são ativas, que esta expressão hebraica (“ruah” ou “Neshamah”) é usada para designar essas operações – o sopro de Deus é o fluxo irresistível do Seu poder. Quando Paulo declara que “toda a escritura” ou “cada escritura” é o produto do sopro divino, “é exalada por Deus”, afirma com toda a energia possível, que as Escrituras são o produto de uma operação especificamente divina.

Do mesmo modo, nosso Senhor tem, freqüentemente, ocasião de Se admirar do efeito insignificante produzido pela leitura das Escrituras, não porque tivessem sido examinadas com demasiada curiosidade, mas porque não foram examinadas com bastante anseio e com uma confiança suficientemente simples e forte em cada declaração que elas contêm. “Ainda não lestes esta Escritura” sequer? pergunta, ao citar o Salmo 118, para mostrar que a rejeição do Messias já fora dada a entender nas Escrituras (vd. Mc. 12.10: Mt. 2 1.42 altera a expressão para o equivalente e diz: “Nunca lestes nas Escrituras?”) E quando os judeus indignados se chegaram a Ele e se queixaram dos Hosanas com que as crianças, no Templo, O aclamavam, e lhe perguntaram: “Ouves o que estes estão dizendo?”, Jesus apenas lhes replicou (Mt. 21:16): “Sim: nunca lestes: Da boca de pequeninos e crianças de peito, tiraste o perfeito louvor?”.

O pensamento em que estão baseadas as passagens acima citadas é apresentado, abertamente, quando Ele dá a entender que a origem de todos os erros a respeito das coisas divinas é, justamente, a ignorância das Escrituras. “Errais”, declarou Ele aos seus perguntadores, em determinada ocasião importante, “não conhecendo as Escrituras” (Mt. 22.29); ou, como se encontra, talvez com mais força, na forma interrogativa, na passagem paralela, em outro Evangelho: “Não provém o vosso erro de não conhecerdes as Escrituras…?” (Mc. 12.24). É evidente que, aquele que conhece bem as Escrituras, não erra.

A confiança com que Jesus se baseava nas Escrituras, em todas as declarações que elas fazem, é ainda ilustrada numa passagem como a de Mateus 19.4. Certos fariseus chegaram perto d’Ele com uma pergunta acerca do divórcio, e Ele replicou-lhes da seguinte maneira: “Não tendes lido que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e que disse?.. Portanto, o que Deus ajuntou, não o separe o homem”. O ponto a salientar aqui é a referência explícita de Gênesis 2.24, como tendo Deus como autor. “O Criador, desde o princípio, os fez… e que disse”. “Portanto, o que Deus ajuntou”. No entanto, esta passagem não nos dá uma sentença de Deus, registrada na Bíblia, mas apenas a palavra da própria Escritura, e só pode ser tratada como uma declaração de Deus na hipótese de que toda a Escritura é uma declaração de Deus. A passagem paralela em Marcos (10.5 e ss.), do mesmo modo, ainda que não tão explicitamente, apresenta esta passagem como sendo da autoria de Deus, citando-a como lei autorizada e falando da sua determinação como um ato de Deus. É interessante notar, de passagem, que Paulo, tendo oportunidade de citar a mesma Escritura (ver 1 Co. 6.16), cita-a também, explicitamente, como palavra divina: “Porque, como se diz, serão os dois uma só carne” – o diz, aqui, de acordo com um uso que mais adiante veremos, refere-se a Deus.

Portanto, é evidente que Jesus, citando ocasionalmente as Escrituras como sendo um documento com autoridade, baseia-se na atribuição a Deus da sua autoria. O Seu testemunho é que tudo quanto está escrito nas Escrituras é uma Palavra de Deus. Não podemos, tampouco, retirar a este testemunho a sua força, alegando que representa Jesus apenas nos dias de Sua carne, quando se poderia supor que Ele apenas refletia a opinião do Seu tempo e da Sua geração. O ponto de vista a respeito das Escrituras, que Ele apresenta, era também, sem dúvida, o ponto de vista do Seu tempo e da Sua geração, além de ser o Seu. Mas não há qualquer razão para duvidar que Ele o mantinha, não por ser o ponto de vista corrente, mas porque, no Seu conhecimento Divino-humano, sabia ser o verdadeiro: pois, até mesmo na Sua humilhação, Ele é testemunha fiel e verdadeira.

Em todo caso, devemos ter presente que era este o ponto de vista do Cristo ressurreto, como fora o do Cristo humilhado. Foi depois d’Ele ter sofrido e ressuscitado, no poder de Sua vida divina, que pronunciou “Ó néscios e tardos de coração…” àqueles que não crerem em tudo aquilo que está escrito nas Escrituras (Lc. 24.25); e que apresentou o simples “Assim está escrito”, como base suficiente para uma fé confiante (Lc. 24.46). Tampouco podemos minorar o testemunho de Jesus em relação à fidedignidade das Escrituras, interpretando-o como sendo não o Seu, mas dos seus discípulos, que o colocaram na Sua boca, ao relatarem as Suas palavras. Não só tudo é demasiado constante, minucioso, íntimo e, em parte, incidental, e, por isso encoberto, por assim dizer, para admitir tal interpretação mas de tal forma penetra todas nossas fontes de informação a respeito dos ensinos de Jesus, que dá a certeza de que vem na verdade, d’Ele mesmo. Não só pertence ao Jesus apresentado nos relatos evangélicos, como também ao Jesus das fontes mais antigas, que concordam com os relatos evangélicos, como se pode verificar, observando os incidentes em que Jesus cita as Escrituras, como divinamente autorizadas, registradas em mais que um dos Evangelhos (por exemplo, “Está escrito”- Mt. 4.4, 7, 10: Lc. 4.4. 8, 10: Mt. 11.10: Lc. 7.27: Mt. 21.13: Lc. 19.46, Mc. 11.17: Mt. 26.31; Mc. 14.21; “a Escritura” ou “as Escrituras: Mt. 19.4: Mc. 10.9: Mt. 21.42: Mc. 12.10: Lc. 20.17: Mt. 22.29: Mc. 12.24: Lc. 20.37; Mt. 25.56: Mc. 14.49; Lc. 24.44). Estas passagens bastariam para tornar evidente o testemunho de Jesus acerca das Escrituras, como sendo em todas as suas partes e em tudo o que diz, divinamente infalível.

As tentativas para se atribuir o testemunho de Jesus aos seus discípulos, apenas tem em seu favor o fato inegável de que o testemunho dos escritores do Novo Testamento tem precisamente o mesmo efeito que o testemunho d’Ele. Também eles falam superficialmente das Escrituras, usando esse tão significativo nome e citam-nas com um simples “Está escrito”, implicando que tudo quanto nelas está escrito, é divinamente autorizado. Do mesmo modo que a vida pública de Jesus começa com este “Está escrito” (Mt. 4.4), também a proclamação evangélica começa com um “Conforme está escrito” (Mc. 1.2): e do mesmo modo que Jesus procurou justificar a Sua obra com um solene “Assim está escrito, que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia” (Lc. 24.46), também os apóstolos justificaram, solenemente, o Evangelho que pregavam, em todos os seus pormenores, com um apelo às Escrituras, “que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras” e “que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1 Co. 15.3, 4; ver também At. 8.35; 17.3; 26.22; Rm. 1.17; 3.4, 10; 4.17; 11.26; 14.11; 1 Co. 1.19:2.9; 3.19; 15.45; GI. 3.10, 13; 4.22, 27).

Onde quer que levassem o Evangelho, era um Evangelho baseado nas Escrituras que proclamavam (At. 17.2; 18.24, 28); e encorajavam-se a si mesmos para provar a veracidade da mensagem com as Escrituras (ver At. 17.11). A santidade de vida que inculcavam, baseavam-na em exigências das Escrituras (ver 1 Pe. 1.16), e recomendavam a lei real do amor, que ensinavam com sanção divina (Tg. 2.8). Todos os detalhes do dever cristão, os sustentavam com um apelo às Escrituras (ver At. 23.5; Rm. 12.19). Vão buscar às Escrituras a explicação de circunstâncias nas suas vidas e dos acontecimentos em redor (ver Rm. 2.26; 8.36; 9.33; 11.8: 15.9, 21; II Co. 4.13). Do mesmo modo que o Senhor declarou que tudo quanto estava escrito nas Escrituras tem que se cumprir (ver Mt. 26.54; Lc. 22.37; 24.44), assim, também, os seus discípulos explicavam um dos acontecimentos mais espantosos que se deram nas suas experiências pessoais, mostrando que “convinha que se cumprisse a Escritura que o Espírito Santo proferiu anteriormente por boca de Davi…” (At. 1.16).

Afirma-se aqui, muito claramente, a razão para este constante apelo às Escrituras, de forma que basta que algo esteja contido nas Escrituras (ver 1 Pe. 2.6) para ter autoridade infalível. A Escritura tem de se cumprir, porquanto o que ela contém é a declaração feita pelo Espírito Santo, através do autor humano. O que as Escrituras dizem, é Deus quem o diz; e, assim, lemos afirmações tão notáveis como as seguintes: “Porque a Escritura diz a Faraó: Para isto mesmo te levantei (Rm. 9.17); “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios, preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti, serão abençoados todos os povos” (GI. 3.8). Estas citações não são apenas exemplos da simples personificação das Escrituras, o que, aliás, em si, é um uso bastante notável (ver Mc. 15.28; J0. 7.38, 42; 19.37; Rm. 4.3; 10.11: 11.2: Gl. 4.30: 1 Tm. 5.18; Tg. 2.23; 4.5 ss.), vocal, com a convicção expressa por Tiago (4.5) de que a Escritura não pode falar em vão. Mostram uma certa confusão, na linguagem corrente, entre “Escritura” e “Deus”, resultado de uma convicção profundamente arraigada de que a palavra da Escritura é a Palavra de Deus. Não foi a “Escritura” que falou a Faraó, ou deu a sua grande promessa a Abraão, mas sim Deus. Porém, “Escritura” e “Deus” estavam tão intimamente ligados na mente dos escritores do Novo Testamento, que podiam falar naturalmente da “Escritura” operar aquilo que as Escrituras dizem ter Deus operado. Era-lhes, porém, ainda mais natural falarem casualmente e atribuindo a Deus aquilo que as Escrituras dizem; e, assim, encontramos formas de expressão, como estas: “Assim, pois, como diz o Espírito Santo: Hoje, se ouvirdes a sua voz (Hb. 3.7, citando o Sl. 95.7); “Tu, Soberano Senhor… que disseste por intermédio do Espírito Santo, por boca de Davi, nosso pai, teu servo: Por que se enfureceram os gentios…” (At. 4.25, citando o Sl. 2.1); “E, que Deus o ressuscitou dentre os mortos para que jamais voltasse à corrupção, desta maneira o disse: E cumprirei a vosso favor as santas e fiéis promessas feitas a Davi. Por isso, também diz em outro Salmo: Não permitirás que o teu Santo veja corrupção” (At. 13.34,35, citando Is. 55.3 e Sl. 16.10), etc. As palavras colocadas, nestes casos, na boca de Deus, não são palavra de Deus registradas nas Escrituras, mas simplesmente palavras das Escrituras. Quando comparamos as duas espécies de passagens, em uma das quais se diz que a Escritura é Deus, enquanto que na outra se fala de Deus como se Ele fosse a Escritura, podemos verificar quão íntima era a identificação de ambas nas mentes dos escritores do Novo Testamento”. 

por B. B. Warfield 
Fonte: “O CONCEITO BÍBLICO DE INSPIRAÇÃO”, Revista Os Puritanos, Ano VIII, nº. 4.
Retirado do blog: Resistir e Reconstruir

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Em qual candidato político o cristão deve votar?



Pretendo ser breve, mas sem ser raso. 

Permita-me iniciar dizendo que o cristão é alguém sábio e que por isso busca se pautar somente pela Bíblia. O cristão não é alguém que vai atrás de "boas propostas" ou segue pessoas que apenas prometem coisas muito interessantes. O cristão, primeiramente, reconhece que ambos os Testamentos são válidos para a Igreja, pois foi isto que Paulo escreveu a Timóteo (2Tm 3.16-17). O cristão é aquela pessoa que analisa tudo que lhe vem ao coração e aos olhos à luz das Escrituras. Em outras palavras, o cristão sempre busca a Bíblia para saber se o que está fazendo ou fará traz glórias ao Senhor, conforme Paulo ordena: "Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus" (1Co 10.31). Deste modo, o cristão já tem a primeira regra para filtrar o candidato: ele também precisa estar desejando glorificar ao Senhor.

Outro filtro pode ser retirado do Salmo 1 que diz: "Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores" (Sl 1.1). A palavra de Deus é clara em afirmar que feliz é o homem que não anda de acordo com o conselho de pessoas que não se submetem à Palavra (os ímpios). Este andar do salmista não é literal, como se estivesse proibindo o povo de andar pelas ruas, mas sim de conscientemente estar junto no caminho dos que não seguem os desígnios de Deus. O salmista também diz que o cristão não deixa de continuar seu caminho para se deter no andar dos pecadores. Afirma ainda outra vez que o cristão sequer se assenta no meio daqueles que escarnecem do Evangelho e, portanto, não glorificam ao Senhor com o que fazem em suas vidas (cf. 1Co 10.31). Assim, a segunda regra é que o cristão não deve votar em pessoas que sejam contrárias à Palavra de Deus.

Surge então outro ponto de extrema importância: "E quando alguma pessoa pecar, ouvindo uma voz de blasfêmia, de que for testemunha, seja porque viu, ou porque soube, se o não denunciar, então levará a sua iniqüidade" (Lv 5.1). Deus orientava o povo de Israel para que quando alguém ouvisse uma voz de blasfêmia, imediatamente denunciasse tal pessoa, pois se assim não o fizesse, "então levará a sua iniqüidade". Falando em outras palavras, era o mesmo que Deus dizer que todo aquele que fica sabendo de alguma coisa pecaminosa que outrem está fazendo, mas não denuncia o pecado (ou apenas foge para longe dele), é igualmente culpado. Então, a terceira regra para se votar é observar se há propostas que não sejam amparadas pela Bíblia, afinal, tudo que não é sustentável por ela, é blasfêmia.

A última e quarta regra que vai nortear o pensamento é que o voto é um pacto. Quando votamos em alguém, não estamos simplesmente apertando algumas teclas e pensando: "Bem, seja o que Deus quiser, tomara que dê certo..." O homem e a mulher de Deus que pensam assim desconhecem o que estão fazendo. Por ser um pacto, tudo o que seu candidato fizer contra a palavra de Deus, recairá também sobre você por ira divina, pois lemos anteriormente em Lv 5.1 exatamente isto.

Assim, penso que alguns podem estar ficando receosos de votar em determinadas pessoas (ou em todas), pois quem gostaria de ser participante das obras infrutíferas das trevas?

Eis, então, a solução: "Quando fizeres algum voto ao SENHOR teu Deus, não tardarás em cumpri-lo; porque o SENHOR teu Deus certamente o requererá de ti, e em ti haverá pecado. Porém, abstendo-te de votar, não haverá pecado em ti. O que saiu dos teus lábios guardarás, e cumprirás, tal como voluntariamente votaste ao SENHOR teu Deus, declarando-o pela tua boca" (Dt 23.21-23 - grifo meu). Observe qual a sequência que o Senhor delimitou:

1. Se fizeres algum voto, então "não tardarás em cumpri-lo" (embora o texto fale de "voto ao SENHOR", lembramos de 1Co 10.31 e extraímos a conclusão de que até mesmo o voto para homens deve estar subordinado ao Senhor e a Ele render louvores);
2. Haverá pecado caso a promessa não seja cumprida, "porque o SENHOR teu Deus certamente o requererá de ti" (como o voto é um pacto, uma associação, então se o candidato não cumpre o que prometeu, aquele que nele votou é igualmente culpado);
3. Se preferir, é melhor não votar e assim "não haverá pecado em ti";
4. Uma vez tendo realizado o voto, é uma obrigação cumpri-lo, "O que saiu dos teus lábios guardarás".

O que tudo isto nos ensina? Resumidamente o ensinamento da Bíblia é que só devemos votar em pessoas comprometidas com as Escrituras e que seguem estritamente (não superficialmente) a Lei do Senhor, tanto do Antigo como do Novo Testamento. Quem vota em políticos que não vivem coerentemente com a Lei de Deus, peca conjuntamente com eles e atraí abominação e ira da parte do Senhor dos Exércitos.

Portanto, nestas eleições, caso encontre um candidato de acordo com a Lei de Deus revelada em Sua Bíblia, vote sem demora nele. Todavia, caso não haja algum, é melhor anular o voto, pois "abstendo-te de votar, não haverá pecado em ti" (Dt 23.22). Lembremos ainda das palavras santas: "Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas?" (2Co 6.14).

Como é muito provável que homens não tementes ao Senhor e seguidores da Lei subirão ao poder, lembremos, então, igualmente do que Paulo nos diz: "Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ação de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade" (1Tm 2.1-2).

terça-feira, 24 de julho de 2012

Efésios 1.20 - O Poder manifesto em Cristo - Exposição em Efésios - Sermão pregado dia 22.07.2012



Efésios 1.20 - O Poder manifesto em Cristo
Exposição em Efésios - 
Sermão pregado dia 22.07.2012

"Que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus" (Ef 1.20).

A importância de se compreender corretamente as Escrituras tem sido delineadas por nós durante a exposição por esta sublime carta do apóstolo Paulo. Conforme falou o próprio Cristo, "Porventura não errais vós em razão de não saberdes as Escrituras nem o poder de Deus?" (Mc 12.24), assim também o apóstolo trata no presente versículo, isto é, enquanto no versículo passado ele falou aos crentes acerca da "sobreexcelente grandeza do seu poder sobre nós", agora ele passa a explicar à igreja de Éfeso onde que este poder se mostrou latente e de forma abundante: em Cristo.

Notemos o paralelo magnifico e divino que está posto diante de nossos olhos: o mesmo poder que se manifesta nos crentes, se "manifestou em Cristo". Quer dizer, os cristãos não somente devem estar conscientes das grandes coisas que o Senhor tem operado em suas vidas (Sl 103.2), mas também de que são participantes do mesmo poder do Eterno que operou em Cristo "ressuscitando-o dentre os mortos", mas não silenciando e findando neste ponto, e sim que ainda "pondo-o à sua direita nos céus". Assim, de imediato somos chamados à percepção de quão verdadeiramente vivo e eficaz é o poder do Senhor sobre nós, de modo que quando formos tentados a duvidar do poder de Deus, olhemos para Cristo e aprendamos que esta  mesma "grandeza do seu poder" outrora se "manifestou em Cristo" e o fez ressurgir dentre os mortos.

Infelizmente temos vivido em uma geração de muitíssima frieza espiritual, embora os números queiram contradizer este veredicto. Nossa geração de muitos pseudo-cristãos não é cativada e transformada pelo poder do Eterno, mas sim moldada nos conformes deste mundo vil e das filosofias humanas que são introduzidas de modo lento, conforme também lemos: "Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo" (Jd 1.4). O primeiro entendimento sobre esta passagem que representa também os nossos dias (mostrando como a frieza é sempre encontrada) é de que há uma afirmação bíblica de que de fato "se introduziram alguns". Observemos que o tempo verbo é no pretérito perfeito, ou seja, não uma mera possibilidade do passado, mas sim um fato consumado: pessoas se introduziram na igreja. Estas pessoas, diz Judas (não o Iscariotes), já estavam escritas para esta finalidade, isto é, tal qual o Judas Iscariotes, elas já estavam destinadas à perdição e também eram usadas para tratar a vida do povo de Deus, demonstrando pelas suas heresias que de fato não eram crentes verdadeiros, como diz Paulo: "E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós" (1Co 11.19). Percebamos que estes homens fazem algo terrível e completamente perverso: "convertem em dissolução a graça de Deus". Todavia, não somente isto eles fazem, mas vão além "e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo".

Este entendimento acerca da frieza espiritual reflete diretamente na forma como olhamos para o Senhor Jesus e buscamos compreender a Sua morte vicária na cruz. A grande disparidade entre os evangélicos, embora seja visível com respeito às doutrinas, se inicia no ponto principal que é de muitos não compreenderem quem foi e qual o poder operado no Senhor Jesus Cristo. Para nossa tristeza, muitos são os que sequer conseguem dizer algo sobre o senhorio de Cristo, dissertar brevemente sobre a obra do cruz do salvador e falar de sua ressurreição. E, ainda que muitos não considerem importante este fato, o próprio Cristo testemunha contra eles, como lemos anteriormente: "Porventura não errais vós em razão de não saberdes as Escrituras nem o poder de Deus?" (Mc 12.24). O erro, portanto, para que muitas vezes as pessoas não consigam vislumbrar corretamente o poder de Deus neles e em Seu filho, pode ser resumida nestas duas premissas: o desconhecimento das Escrituras e do poder de Deus.

1. O desconhecimento das Escrituras

Em uma rápida busca na chave bíblica, você encontrará no mínimo dez vezes em que o Senhor Jesus censura o povo dizendo: "não lestes". Pode parecer em um primeiro insignificante este feito, todavia, observe atentamente para quem estas palavras quase sempre são dirigidas - aos fariseus. Os fariseus daquela época, homens que eram grandes conhecedores da letra da Lei, sabiam os ditos do profeta de cor e possuíam muita boa educação nos caminhos de Moisés; porém, a estes mesmos é Jesus censura e lhes diz que na verdade nunca haviam lido verdadeiramente a Bíblia - "Mas, se vós soubésseis o que significa" (Mt 12.7). Para um fariseu e mestre da Lei ouvir estas palavras, eram como se Jesus estivesse se dirigido a um pescador que está há 50 anos pescando e de repente ouvisse: "Nunca pescastes na vida? Acaso sabes o que é um peixe e como deves fazer para pescá-lo"?

Assim como naquele tempo, hoje também urge com grandiosa imperiosidade que cuidemos de nossa vida e perscrutemos em nossos corações se de fato não ouviríamos as mesmas coisas que o Senhor falou aos fariseus: "não lestes". A questão aqui é exatamente a mesma: homens e mulheres que vão anos a fio na igreja, oram, jejuam, leem a Bíblia e participam de todas as atividades que podem, mas na verdade nunca entenderam o que realmente significam as Escrituras Sagradas.

2. O desconhecimento do poder de Deus

Notemos como o apóstolo nos diz que a grandeza do Seu poder operada em nós, também se "manifestou em Cristo" - mas como pode ser possível que alguém compreenda este fato? Em outras palavras, descreve o apóstolo, conhecemos o verdadeiro poder do Senhor que se manifestou em Cristo? Somos cônscios de quem Jesus foi sobre a terra e de como fez tudo o que Seu Pai lhe mandara, de modo que andava intimamente com o próprio Senhor (apesar de também ser Senhor)? Este poder se manifestou em Cristo, dentre vários que poderíamos citar, principalmente nestes:

Em primeiro lugar, dando-lhe o domínio sobre todas as nações: "Proclamarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei. Pede-me, e eu te darei os gentios por herança, e os fins da terra por tua possessão. Tu os esmigalharás com uma vara de ferro; tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro" (Sl 2.7-9). Este poder soberano foi dado ao filho de Deus e sabemos que pouco poder não é, pois lemos cristalinamente que o Filho, com relação às nações e homens que não O seguem, "os esmigalharás com uma vara de ferro; tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro". O poder de Cristo não é coisa para se brincar ou se tratar com leviandade, mas sim para se temer (Hb 10.31). Em segundo lugar, fazendo com que a palavra de Cristo fosse eterna: "E disse-me mais: Está cumprido. Eu sou o Alfa e o Omega, o princípio e o fim" (Ap 21.6). A sobreexcelente grandeza do seu poder que tanto habitou em nós como em Cristo, lhe deu domínio e palavras que não passariam - "O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar" (Mt 24.35).

Será que conseguimos compreender isto que estamos lendo? Enquanto o homem é comparado à uma neblina, "um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece" (Tg 4.14), Cristo é retratado como sendo eterno. Diante do Senhor, todo homem se torna como nada, como o salmista frequentemente nos recorda: "Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que preparaste; Que é o homem mortal para que te lembres dele? e o filho do homem, para que o visites?" (Sl 8.3-4). Embora o homem vil e pecador não consiga entender quem de fato é Jesus e qual a grandiosa manifestação de Deus que nele habita, de uma coisa o ele é capaz: de fazer comparações. É isto que o salmista faz: uma comparação entre todo o universo criado por Deus e o homem miserável que habita na criação de Deus. Este ponto é de importância atenção para nós, porque é mister que constantemente levemos cativo esta comparação entre o senhorio de Cristo e a nossa situação diante de tão grande glória, honra e poder.

Mas, o apóstolo não deseja somente nos transmitir um senso de poder de Cristo, mas sim nos exortar e animar para que entendamos que este mesmo poder supremo que se manifesta em nós (como vimos no versículo passado), também se manifestou em Cristo Jesus. Isto é, os cristãos devem buscar estar seguros em Seu salvador, pois Ele também experimentou a mesma grandeza do poder que nós. Aqui, não estamos a nos comparar em grau de excelência com Jesus, mas sim a demonstrar que somos partícipes de uma glória que Cristo possui: "E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai. Assim que já não és mais servo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo" (Gl 4.6-7). Observemos que o apóstolo chama os crentes de filhos de Deus. O salmista anteriormente nos disse: "o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei" (Sl 2.7). Isto se desdobra e nos ensina que assim como Cristo é o Filho gerado do Pai (ainda que seja da mesma substância e igualmente seja Deus), os cristãos são os filhos adotados pelo Filho, de acordo com o que já aprendemos: "Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade" (Ef 1.4-5). Resumindo a questão, os cristãos são como que irmãos de Cristo!

Olhemos com cautela como o apóstolo continua: "ressuscitando-o dentre os mortos". Paulo falará mais detidamente sobre como isto também se manifestou em nós no capítulo seguinte, todavia, aqui já demonstra o porquê de nós termos sido trazidos da morte para a luz - "E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados" (Ef 2.1). A razão para que os crentes confiem e entendam que é o Senhor quem os salva e age com grande poder sobre suas vidas, é porque ele primeiramente ressuscitou seu próprio Filho dentre os mortos. Não que o próprio Cristo tenha perdido sua divindade ou tenha sido enfraquecido pela morte, pois lemos que Ele a venceu, mas sim que no Filho foi manifesto este grandioso poder de Deus, a ponto de O trazer novamente à vida e triunfar sobre morte (1Co 15.55)!

É mister que relembremos que a igreja de Éfeso era constituída de gentios (isto é, não judeus) e que esta declaração de Paulo acerca da ressurreição de Cristo lhes ensinava sobre que se anteriormente andaram vagando em trevas por não conhecerem o Soberano (Ef 2.2), agora, por causa da morte, ressurreição e ascensão de Jesus, o evangelho foi expandido aos demais lugares da terra, trazendo vida e grande poder aos filhos do Senhor, confirmando a mensagem dita a Abraão há muitíssimos anos antes - "E multiplicarei a tua descendência como as estrelas dos céus, e darei à tua descendência todas estas terras; e por meio dela serão benditas todas as nações da terra" (Gn 26.4).

A fim de também animar a igreja, Paulo lhe diz que este mesmo poder colocou Cristo "à sua direita nos céus", indicando a primazia e o lugar de honra nos lugares celestial. Este feito, portanto, enfatizava àquela igreja que o dito do versículo anterior - "E qual a sobreexcelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder" - vinha acompanhado desta certeza: o poder mais do que excelente do Senhor que atua em vós, também ressuscitou a Cristo e o colocou à direita nos céus, então, este mesmo poder, no tempo oportuno, os levará aos braços celestiais, pois vocês possuem "bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo" (Ef 1.3) e quando aprouver ao Eterno Ele os levará para Sua glória e para o eterno deleite em Sua casa.

Que o Senhor nos fortaleça nesta rica verdade e certa esperança!

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Série: Homem e Mulher os criou - parte 17 - Homem e Mulher após a Queda - Funções e Atribuições na Igreja (O Papel de cada Sexo) - Sermão pregado dia 22.07.2012



Série: Homem e Mulher os criou - parte 17 -
Homem e Mulher após a Queda - 
Funções e Atribuições na Igreja (O Papel de cada Sexo) -
Sermão pregado dia 22.07.2012

Compreendido os porquês de haver as devidas distinções entre homem e mulher - tanto no que diz respeito ao lar, como à sociedade e também conforme a própria natureza nos ensina, em todas as ocasiões -, é preciso que avancemos e entendamos que esta diferenciação igualmente se estende ao modo de viver e operar da Igreja de Cristo, e, reflete, portanto, diretamente na maneira de quem pregará, ensinará e, também,  na piedade que a congregação tem para si e expõe ao mundo. Isto posto, faz com que todo cristão verdadeiro entenda que precisa estar ciente de que a Igreja do Senhor é governada, estabelecida e tem seu regimento doutrinário e prática pautada tão somente pelas Escrituras. Ou seja, qualquer homem ou mulher que tente alterar os marcos estabelecidos pelo Artífice, incorre em grande pecado e faz do ser humano o detentor e determinador daquilo que deve ou não ser realizado em Sua Igreja - em contraposição com a soberania divina.

Conforme pontuamos anteriormente, os três ministérios base da Igreja de Cristo são a assistência, ensino e pregação (At 6.1-4). A distinção de dons e aplicações na igreja de Cristo é bastante evidenciada quando Paulo escreve: "Porque assim como em um corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma operação, Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros" (Rm 12.4-5). O apóstolo é bastante explícito em dizer que "nem todos os membros têm a mesma operação", ou seja, isto, por si só, já deveria bastar para que os cristãos compreendessem que nem todas as funções podem ser exercidas por todas as pessoas - não porque algumas sejam melhores do que outras, mas sim porque foi do agrado e ordem do Senhor que houvesse esta distinção.

Também deixamos registrado o cuidado que se deve ter ao se objetar contra esta distinção dizendo que "isto é cultural, era parte do pensamento dominante onde Paulo estava". Ou ainda: "Esta distinção é apenas exemplificativa, tem o intuito de nos guiar no padrão genérico (não específico), tão somente nos mostra o pensamento daquela época em que o escritor estava...". Todavia, se algum espírito espúrio ainda pensa desta forma, sucintamente digo, então, que se leve adiante esta parte da cultura e também não se pregue sobre qualquer livro da Bíblia e nem se faça menção alguma sobre as bênçãos contidas nas Escrituras, afinal, haveria algum versículo que está inserido em nosso contexto literal? É claro que não! Portanto, embora o contexto seja muito importante para a compreensão das doutrinas, ele não pode ser usado como um escudo para rebatermos aquilo que não apraz à nossa carne vil e pecaminosa - o contexto é importante, mas não podemos desprezar a doutrina inserida no mesmo.

Vejamos as três distinções feitas pela palavra de Deus sobre os ministérios na igreja:

1. Assistência - "Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas. Escolhei, pois, irmãos, dentre vós, sete homens de boa reputação".

É verdade que muitas vezes as Escrituras nos são difíceis de entender - até mesmo o apóstolo Pedro falou acerca de Paulo escrever algumas coisas não tão simples de serem entendidas: "E tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor; como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada; Falando disto, como em todas as suas epístolas, entre as quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição" (2Pe 3.15-16 - grifo meu). Entretanto, no presente versículo de Atos o ensinamento é altamente cristalino e pode ser lido e entendido por qualquer pessoa versada em nossa língua portuguesa. Aqui, o texto é explícito em dizer que a assistência (diakonia, diakoniva, serviço - "eram desprezadas no ministério cotidiano" At 6.1 - grifo meu) da igreja, isto é, muitas funções da prática cristã como ajudar na congregação, visitar e ministrar a Palavra aos enfermos, colaborar de modo mais direto para o andamento da igreja, deve: em primeiro lugar, não ser realizado somente pelos presbíteros/pastores. Isto não significa que os presbíteros/pastores não podem ajudar em coisas práticas da igreja (veja os versículo anteriores e perceba que de fato eles estavam servindo as mesas), mas sim que não cabe a eles fazerem tudo o que a igreja necessita. Em outras palavras, os presbíteros precisam delegar certas funções. E, em segundo lugar, o serviço de assistência deve ser realizado por "homens (sexo masculino) de boa reputação".

Como dito, o serviço de diaconato geralmente compreende o aconselhar pessoas, auxiliar o pastor em determinadas circunstâncias, acompanhar eventualmente o pastor em sua visitação às famílias, colaboração em algumas atividades da igrejas que necessitem de alguém com bom reputação e entendimento das doutrinas... Assim, se delimita um ponto de suma importância para a Igreja de Cristo: o diaconato é função dos homens. Todavia, isto não significa que a mulher não pode ou deve ajudar no serviço da Igreja do Senhor (ao final veremos isto).

2. Ensino - "cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais constituamos sobre este importante negócio".

Ainda que a presente sentença seja uma continuação do serviço de assistência, há que fazer também a distinção entre o serviço de assistência e a incumbência de ensinar outros irmãos. De modo simples, mas direto, daqui aprendemos que há um ofício de mestre dentro da igreja (que pode ser ou não aliado ao de pastor; quer dizer, embora todo pastor deva ser um mestre/ensinador, nem todo mestre será pastor) e que ele também deve ser exercido por "homens de boa reputação".

Este nosso entendimento é claramente delineado e sancionado (aprovado) pelo apóstolo Paulo a Timóteo: "A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição. Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão. Salvar-se-á, porém, dando à luz filhos, se permanecer com modéstia na fé, no amor e na santificação" (1Tm 2.11-15). É preciso haver a compreensão correta destes versículos, pois muitos são os que desejam os ultrajar e ainda outros tantos que usam tal versículo para oprimirem as mulheres na igreja (leia também 1Co 14.33-35).

Em primeiro lugar, a Palavra do Senhor ordena que as mulheres estejam em silêncio no que concerne ao ensino na igreja: "aprenda em silêncio, com toda a sujeição". Notemos, contudo, que o apóstolo não fala para que elas estejam somente em silêncio, como que dizendo que a mulher é simplesmente uma espectadora do culto e da vida da congregação, mas sim que deve aprender em silêncio. Isto significa que a mulher possui o mesmo direito do restante da igreja e tem o mesmo dever - aprender. Esta ordem bíblica tem seu exemplo prático com Maria que "assentando-se também aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra" e que, segundo o Mestre, "escolheu a boa parte" (Lc 10.39, 42) - ser como Maria não é ser menosprezada, mas sim saber reconhecer o melhor que o Senhor tem para si.

Em segundo lugar, as Escrituras revelam que devido às mulheres deverem aprender em silêncio, naturalmente que não devem ensinar: "Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio". Aqui, se desdobra o seguinte e evidente entendimento: a mulher não deve ensinar e nem ter autoridade sobre o marido, deve estar "em silêncio". O leitor atencioso se lembrará de que no estudo passado falamos sobre, "Mas quero que saibais que Cristo é a cabeça de todo o homem, e o homem a cabeça da mulher; e Deus a cabeça de Cristo" (1Co 11.3 - grifo meu) e isto no ensinou sobre a importância da mulher ser consciente de sua submissão. 

Em terceiro lugar, este aprender em silêncio e não poder ensinar, não é fixado em algo cultural ou histórico, mas sim relacionado à própria criação: "Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva". O motivo pelo qual as mulheres não devem ensinar os homens (note a relação entre marido e esposa - "nem use de autoridade sobre o marido") no culto público ou em outra reunião, não é porque elas não sejam capazes disto, mas sim porque a Bíblia descreve que o homem foi criado antes da mulher - para aqueles que esta distinção não for suficientemente convincente, nada podemos fazer, pois estamos apenar a extrair da Palavra de Deus o ensino.

Em quarto lugar, as Escrituras nos ensinam que há ainda outro motivo pelo qual a mulher não deve ensinar na igreja: "E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão". Neste ponto, Paulo não está denegrindo o sexo feminino e exaltando masculino, como se estivesse a afirmar que nem mesmo Adão caiu - nada disto está dito aqui e o restante da Bíblia coisa alguma fala apoiando este suposto argumento. O apóstolo está afirmando, portanto, que houve alguém que foi enganado primeiramente pela antiga serpente: "a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão". É verdadeiro que o homem também pecou (relembre dos estudos passados), todavia, alguém deu início à causa e esta pessoa foi a mulher.

Em quinto e último lugar, a fim de que as mulheres não tivessem excessiva tristeza e pensassem que todo o mal que ocorre neste mundo é devido a elas e para que não vivessem demasiadamente cabisbaixas por este motivo (e também por poderem não pregar, ensinar...), o apóstolo acrescenta: "Salvar-se-á, porém, dando à luz filhos, se permanecer com modéstia na fé, no amor e na santificação". Então, embora o gene feminino tenha sobre si este peso de ter sido enganado, Paulo escreve dizendo que há um modo dela salvar-se desta tristeza que poderia consumir a sua alma: os filhos do Senhor (não entrarei em maiores detalhes sobre isto, pois já analisamos esta bênção nos estudos sobre os filhos).

3. Pregação - "Mas nós perseveraremos na oração e no ministério da palavra".

Não é necessário fazer grandes rodeios a fim de explicar este dito apostólico, pois uma vez que homens devem ser os assistentes e servir as mesas e também ensinar a congregação (função do mestre/professor), os apóstolos finalizam e dizem que, quanto a eles, perseverariam na oração e no ministério da pregação. Ora, penso que está bem além de qualquer cogitação que só haviam doze apóstolos e todos eram homens e, então, eles é que se engajariam firmemente "no ministério da palavra". Este entendimento é também vital para uma igreja saudável, pois quantas são as vezes em que a congregação "esfola" seus ministros lhes requerendo que façam tudo (cuidem de todas as atividades, organizem todos os eventos, fiscalize a entrada e saída de todo dinheiro, cuide de todos dos pobres, instrua todas as crianças...), enquanto os membros ficam quase que literalmente de braços cruzados esperando o pastor "fazer alguma coisa"? É, portanto, dever do pastor se dedicar (não exclusivamente, mas primordialmente) à oração e pregação da Palavra, a fim de que a igreja seja bem instruída e atuante na vida cristã - o restante da igreja (assistentes/diáconos e mestres/professores) o auxilia em todas as outras atividades (lembrando de que o pastor não é o "chefe" da igreja, pois somos de acordo com o governo presbiteriano, isto é, uma pluralidade de presbíteros - cada qual exercendo sua função para que foi chamado por Deus, como ensinar, pregar, reger a igreja e sua administração...)

Por fim, alguns podem estar pensando: "Mas, então, o que a mulher pode fazer dentro da igreja do Senhor? Deve apenas ir ao culto, voltar para a casa e nunca fazer coisa alguma?"

1. As mulheres podem e devem ensinar seus filhos e outras crianças

A aprovação para este feito (que de modo algum é "pequeno", pois o que poderia ser mais honroso do que ensinar e educar as crianças - futuros grandes homens e mulheres! - nos caminhos do Senhor?) é provido, dentre outros inúmeros exemplos que poderíamos tomar, de Timóteo: "Trazendo à memória a fé não fingida que em ti há, a qual habitou primeiro em tua avó Lóide, e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também habita em ti... E que desde a tua meninice sabes as sagradas Escrituras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus" (2Tm 1.5; 3.15). As mulheres, por terem esta vocação maternal, são incumbidas de ensinarem os pequenos de acordo com as Escrituras - não que os homens sejam impedidos disto, mas que geralmente esta tarefa é atribuída a elas (já que a eles cabe trazer o sustento para a casa). Elas podem, portanto, sem impedimento algum, serem professoras de crianças.

2. As mulheres podem e devem ensinar-se mutuamente


"As mulheres idosas, semelhantemente, que sejam sérias no seu viver, como convém a santas, não caluniadoras, não dadas a muito vinho, mestras no bem; Para que ensinem as mulheres novas a serem prudentes, a amarem seus maridos, a amarem seus filhos, A serem moderadas, castas, boas donas de casa, sujeitas a seus maridos, a fim de que a palavra de Deus não seja blasfemada" (Tt 2.3-5). Paulo é específico e direto ao dizer que as mulheres devem ser "sérias no seu viver", isto é, não devassas, nem apaixonadas pelas coisas deste mundo passageiro, nem demasiadamente entretidas em coisas que não convém à piedade (assim como os homens) e também que as mulheres mais velhas "ensinem as mulheres novas".

Aqui, Paulo não está dizendo que somente as mulheres mais velhas devem ensinar as mais novas, como se estivesse a proibir as mais novas de ensinarem as mais velhas, pois isto seria contrário ao que ele recomendou com a Timóteo: "Ninguém despreze a tua mocidade; mas sê o exemplo dos fiéis, na palavra, no trato, no amor, no espírito, na fé, na pureza" (1Tm 4.12). Assim, o entendimento é pacífico que pode haver ensino entre as mulheres do Senhor, apesar de as mais novas deverem o devido respeito e especial atenção ao que as mais velhas lhes ensinam - devem ser prontas para aprender e tardias para falar (Tg 1.19), como convém a todos os santos.

3. As mulheres podem e devem falar de Deus para as pessoas

Ainda que este seja um dever de todo cristão, alguns poderiam objetar que devido ao fato da mulher não poder ensinar outros homens (isto não exclui, por óbvio, o que as mulheres tem a ensinar aos homens, como afazeres domésticos ou ainda outras situações peculiares, como questões doutrinárias - desde que não seja em público; contudo, o melhor é falar ao marido, pai, irmão mais velho [algum outro homem] para que este vá e admoeste/ensine aquele irmão que está errado), ela não poderia - supostamente - também pregar o evangelho. É preciso observar neste ponto que, embora a mulher não possa ser uma pregadora, professora de teologia (aos homens - vide, porém, a autorização para ensinar outras mulheres) ou missionária, ela pode e deve falar do evangelho aos seus - tanto conjuntamente com seu marido (por exemplo, em um aconselhamento familiar [geralmente com 2 casais], ela pode também conversar e falar da palavra de Deus, desde que com respeito e subordinação aos homens presentes) como em outras ocasiões com amigos, vizinhas, colegas e conhecidos. Para validar o que estamos afirmando, temos a narrativa de um casal ensinando outra pessoa: "Ele [Apolo] começou a falar ousadamente na sinagoga; e, quando o ouviram Priscila e Áqüila, o levaram consigo e lhe declararam mais precisamente o caminho de Deus" (At 18.26 - grifo meu). 

4. As mulheres podem e devem participar das obras sociais da igreja

Escrevendo acerca da mulher virtuosa, o autor de Provérbios diz: "Abre a sua mão ao pobre, e estende as suas mãos ao necessitado" (Pv 31.20). É neste sentido que também temos o aval bíblico para que as mulheres ajudem no cuidado dos necessitados, nas obras de caridade, no auxílio e manutenção física da igreja.

Todavia, mesmo com estas explanações bíblicas, alguns ainda podem se perguntar sobre o caso de Débora e outras mulheres que nas Escrituras exerceram ofícios de homens. Para respondermos esta pergunta e encerrarmos esta questão das diferenças na igreja, citamos o reformador Calvino:

"12. Não permito, porém, que a mulher ensine. Paulo não está tirando das mulheres os seus deveres de instruírem suas famílias, mas sim as retirando do ofício do ensino que Deus deu exclusivamente aos homens... Se alguém apresenta, por meio de objeção, Débora (Juízes 4.4) e outras do mesmo tipo, de quem se lê que por um tempo foram destinadas ao comando do povo de Deus, a resposta é fácil. Atos extraordinários de Deus não anulam as regras ordinárias do governo, pelas quais ele intenta que sejamos obrigados. Portanto, se as mulheres uma vez realizaram o ofício de profetas e mestres e a isto foram levadas sobrenaturalmente pelo Espírito de Deus, Ele é acima de toda a lei [para fazer isto]. Assim, sendo um caso peculiar, isto não se opõe ao constante e ordinário sistema de governo." [1]

Nota:
[1] CALVINO, João, commentaries on the epistles to Timothy, Titus and Philemon, Baker Book House, pág. 67 - tradução livre.

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