"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O que é a Santidade dos Eleitos?


Esta aplicação nos leva a uma pergunta: Se devemos ser como Deus em santidade, em que consiste nossa santidade? Em duas coisas: em nossa adequação em relação à natureza de Deus e em nossa sujeição à sua vontade.

Nossa santidade consiste em nossa adequação para com a natureza de Deus. Pois os santos são participantes da natureza divina, o que não significa ser participante de sua essência, mas de sua imagem (2Pe 1.4). Nisto está a santidade dos santos, quando são a imagem viva de Deus. Eles carregam a imagem da humildade divina em Cristo, de sua misericórdia, de sua celestialidade; de sua apreciação dos valores celestiais, de sua disposição para Deus e de amar o que Deus ama e odiar o que ele odeia.

Nossa santidade consiste também em nossa sujeição à vontade de Deus. Assim como a natureza de Deus é o padrão de santidade, assim sua vontade é a regra de santidade. A nossa santidade tem relevo quando fazemos sua vontade (At 13.22) e quando suportamos sua vontade (Mq 7.9); ou seja, quando o que ele sabiamente nos inflige, de bom grado, nós o sofremos. Nossa grande perspectiva deveria ser nos assemelhar a Deus em santidade. Nossa santidade deveria ser qualificada como a santidade de Deus; assim como sua santidade é real, a nossa também deveria ser. "Justiça e retidão procedentes da verdade" (Ef 4.24). Não deveria ser uma imagem de santidade, mas vida; não como os templos egípcios, embelezados, mas sem pureza. Deveria ser como o templo de Salomão, dourado por dentro: "Toda formosura é a filha do Rei no interior do palácio; a sua vestidura é recamada de ouro" (SI 45.13).

O valor da santidade dos eleitos

A fim de fazer você se assemelhar a Deus em santidade, gostaria que considerasse o valor da santidade dos eleitos:

I. A dignidade que se aplica aos santos. Quão ilustre cada pessoa santa é. É como um vidro limpo em que alguns dos raios da santidade de Deus brilham. Lemos que Arão vestiu suas roupas para glória e beleza (Êx 28.2). Quando vestimos a roupa bordada de santidade é para glória e beleza. Um bom cristão é avermelhado, pois foi aspergido com o sangue de Cristo; e branco, pois foi adornado com santidade. Assim como o diamante está para um anel, está a santidade para a alma; a qual, como Crisóstomo diz, "aqueles que a opõem só podem admirá-la".

II. A grandeza do propósito da santificação. É um grande propósito que Deus executa no mundo fazer uma pessoa à sua semelhança em santidade. O que são os respingos das ordenanças senão gotejos de justiça sobre nós para nos fazer santos? Para quê servem as promessas senão para encorajar à santidade? Para que o Espírito foi enviado ao mundo senão para nos ungir com a santa unção?. Para que servem todas as aflições senão para nos fazer participantes da santidade de Deus? (Hb 12.10). Para que servem as misericórdias senão para nos atrair à santidade? Qual é a finalidade da morte de Cristo senão que seu sangue pudesse nos purificar em nossa falta de santidade? "O qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniqüidade, e purificar para si mesmo um povo exclusivamente seu" (Tt 2.14). Assim, se não somos santos, crucificamos o grande propósito de Deus no mundo.

III. Nossa santidade atrai o coração de Deus. A santidade é a imagem de Deus e ele não pode fazer outra coisa senão amar sua imagem onde a vê. Um rei ama ver sua efígie sobre uma moeda. "Amas a justiça" (SI 45.7). E onde a justiça cresce, senão em um coração santo? "Chamar-te-ão Minha-Delícia ... porque o SENHOR se delicia em ti" (Is 62.4). Foi sua santidade que atraiu o amor de Deus a ela. "Chamar-vos-ão Povo Santo" (Is 62.12). Deus valoriza alguém não pelo nascimento rico, mas pela santidade pessoal.

IV. A santidade distingue os cristãos no mundo. A santidade é a única coisa que nos distingue dos ímpios. O povo de Deus tem seu selo sobre si. "Entretanto, o firme fundamento de Deus permanece, tendo este selo: O Senhor conhece os que lhe pertencem. E mais: Aparte-se da injustiça todo aquele que professa o nome do Senhor" (2Tm 2.19). O povo de Deus é selado com um selo duplo: a eleição: "O Senhor conhece aqueles que são seus" e a santificação: "Afaste-se da injustiça todo aquele que professa o nome do Senhor". Como um nobre é reconhecido por outra pessoa pela sua estrela prateada; como uma mulher virtuosa é diferenciada de uma prostituta por sua castidade; assim a santidade é reconhecida entre os homens. Todos os que são de Deus têm Cristo por seu capitão e a santidade é a cor branca que vestem (Hb 2.10).

V. A santidade é a honra dos cristãos. A santidade e a honra são colocadas juntas (lTs 4.4). A dignidade caminha com a santificação. "Àquele que nos ama e, pelo seu sangue nos libertou dos nossos pecados, e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai" (Ap 1.5). Quando somos lavados e feitos santos, então somos reino e sacerdotes para Deus. Os santos são chamados vasos de honra; são chamados jóias pelo brilho de sua santidade, pelo enchimento com o vinho do Espírito. Isso faz deles anjos terrenos.

VI. A santidade nos dá ousadia diante de Deus. "Se afastares a injustiça da tua tenda... levantarás o teu rosto para Deus" (Jó 22.23 e 26). Levantar a face é um símbolo de ousadia. Nada pode nos envergonhar tanto ao nos aproximar de Deus quanto o pecado. Um homem ímpio pode levantar suas mãos na oração, mas não pode levantar sua face. Quando Adão perdeu sua santidade, perdeu sua confiança, escondeu-se. Porém, a pessoa santa vai até Deus como uma criança vai até seu pai; sua consciência não o censura com a possibilidade de qualquer pecado, portanto pode ir ousadamente ao trono da graça e ter a misericórdia para ajudá-lo em tempo de necessidade (Hb 4.16).

VII. A santidade traz paz aos cristãos. O pecado levanta uma tempestade na consciência: onde há pecado, há tumulto. "Para os perversos, diz o meu Deus, não há paz" (Is 57.21). Justiça e paz são colocadas juntas. A santidade é a raiz que sustenta esse doce fruto da paz. A retidão e a paz se beijam.

VIII. A santidade conduz o cristão ao céu. Ela é a estrada do céu do Rei. "E ali haverá bom caminho, caminho que se chamará o Caminho Santo" (Is 35.8). Havia em Roma o templo da virtude e o da honra, e todos deveriam passar pelo templo da virtude para chegar ao templo da honra; assim, devemos ir do templo da santidade para o templo do céu. A glória começa na virtude. "Nos chamou para a sua própria glória e virtude" (2Pe 1.3). A felicidade não é nada mais que a essência da santidade; a santidade é a glória militante e a felicidade a santidade triunfante.

Como os eleitos devem buscar santidade

O que devemos fazer para nos assemelharmos a Deus em santidade? Ou como devemos buscar nossa santidade?

I. Buscando refúgio em Cristo. Busque socorro no sangue de Cristo pela fé. Isso é o lavar da alma. As purificações da lei eram tipos e emblemas disso (1 Jo 1.7). A Palavra é o espelho que mostra nossas manchas e o sangue de Cristo é uma fonte para lavá-las.

II. Pedindo um coração santo. Orando a Deus lhe pedindo um coração santo. "Cria em mim, ó Deus, um coração puro" (SI 51.10). Derramem o coração diante de Deus e digam: "Senhor, meu coração está cheio de lepra, contamina tudo que toca. Senhor, eu não posso viver com tal coração, pois não posso te honrar; nem morrer com tal coração, pois não poderei te ver. Cria em mim um coração puro, envia-me o teu Espírito, refina-me e purifica-me, para que eu possa ser um templo apropriado para ti, ó santo Deus, habitar".

Por Thomas Watson

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Efésios 1.4 (parte 2) - Exposição em Efésios - Sermão pregado dia 26.02.2012



Efésios 1.4 (parte 2) - Reprovação
Exposição em Efésios - 
Sermão pregado dia 26.02.2012

"Como também nos elegeu nele" (Ef 1.4a).

Se de um lado temos o dever de compreender que a eleição de Deus e fruto de sua eterna misericórdia, por outro viés precisamos atentar que "Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo" (Hb 10.31), pois as Escrituras nos exortam do começo ao fim ao buscarmos o Senhor e a nos deleitarmos em Sua justiça e verdade. Como temos visto, muita da dificuldade encontrada pelos homens em entenderem a doutrina da eleição, é sua consequência lógica, contudo, não é plausível (nem seguro, muito menos bíblico) afirmarmos que o Senhor elegeria potencialmente todos os homens para a salvação, mas que só a encontraria aqueles que assim desejassem - daí um pouco da dureza encontrada em certos corações, pois a eleição necessariamente implica na doutrina da reprovação.

"Reprovado, anulado, cancelado, afastado, rejeitado..." todas essas palavras naturalmente nos causam desconforto devido a ser latente no ser humano o desejar ser amado por outrem, desejado por aqueles a quem estima, fazendo todo possível para manter a paz com todos. No entanto, a Bíblia revela-nos que o homem natural esta sob a ira de Deus, "Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus" (Rm 3.23). Se todos de fato pecaram e por isso estão com a imagem de Deus manchada em suas vidas, ou Deus relegaria todos os homens ao mais profundo e denso inferno, ou afirmaria que Seu excelso amor é mais sublime que Sua justiça e por isso salvará a todos os homens. Mas já temos visto e isso deve ser muito claro, que a Bíblia não nos ensina que todos se perderão, mas nem que todos se salvarão, e sim é firme e mais do que clarividente em afirmar que apenas aqueles que seguem ao Senhor serão levados para Sua glória nos céus. Contudo, aqui não devemos presumir que reside no homem qualquer livre arbítrio, pois tal faculdade é destinada a seres puros, santos e verdadeiros - o que não inclui qualquer vivente nessa terra, daí a conclusão de que apenas o Senhor é dono se ser arbítrio (vontade) e faz e/ou deixa de fazer aquilo que bem Lhe apraz à vontade.

Que reprovação e eleição são fruto do decreto divino, isso precisa ser notório em nossas vidas (e está longe de ser o propósito maior de nosso estudo). Ainda que logo abaixo veremos ser a reprovação fruto da desobediência e pecado humano, e mais adiante vejamos sobre o determinismo bíblico, devemos destacar rapidamente sobre a necessidade de entendermos que tudo o que ocorreu, se passa no presente momento e se fará no futuro sobre a terra, já está planejado e firmemente estabelecido pelo Senhor. Se assim é quanto às atividades na natureza, como o raiar do sol, o descer da chuva e o cantar dos pássaros, não menos arquitetado é o plano da salvação à raça humana - uns para salvação e outros para condenação (Rm 9).

Calvino expressou da seguinte maneira: "Se alguém cai nas garras de assaltantes, ou de animais ferozes; se do vento a surgir de repente sofre naufrágio no mar; se é soterrado pela queda da casa ou de uma árvore; se outro, vagando por lugares desertos, encontra provisão para sua fome; arrastado pelas ondas, chega ao porto; escapa milagrosamente à morte pela distância de apenas um dedo; todas essas ocorrências, tanto prósperas, quanto adversas, a razão carnal as atribui à sorte. Contudo, todo aquele que foi ensinado pelos lábios de Cristo de que todos os cabelos da cabeça lhe estão contados [Mt 10.30], buscará causa mais remota e terá por certo que todo e qualquer evento é governado pelo conselho secreto de Deus". [1]

No entanto, que ninguém presuma ser a reprovação e eleição causas ligadas à presciência de Deus, como se o Eterno houvesse apenas por determinar linhas gerais, tivesse então visualizado como se desdobrariam as consequências de seus decretos base e, então, baseado no que conseguiu prever, elegeu alguns e condenou a outros. Ambas as doutrinas (reprovação e eleição) não estão baseadas no conhecimento prévio de Deus ou em qualquer benfeitoria humana que tenha "chamado a atenção de Deus", mas simplesmente estão alicerçadas na finalidade de todo ato Divino, a saber, render glórias ao Seu nome.

A. W. Pink escreveu assim: "Do que foi posto diante de nós... concernente ao decreto de alguns para salvação, deve-se inevitavelmente seguir, mesmo se a Escritura tivesse se silenciado sobre isso, que deve haver uma rejeição de outros. Cada escolha, evidente e necessariamente, implica uma rejeição, porque onde não há um deixar de lado, não pode haver nenhuma escolha. Se há aqueles a quem Deus escolheu para salvação (2 Tessalonicenses 2:13), deve haver outros que não foram escolhidos para salvação. Se há alguns que o Pai deu a Cristo (João 6:37), deve haver outros que Ele não deu a Cristo. Se há alguns cujos nomes estão escritos no livro da Vida do Cordeiro (Apocalipse 21:27), deve haver outros cujos nomes não estão escritos lá. Que este é o caso, será completamente provado abaixo.Visto que todos reconhecem que desde a fundação do mundo Deus certamente pré-conheceu e previu quem receberia e quem não receberia a Cristo como o seu Salvador, portanto, ao dar a existência e o nascimento àqueles que Ele sabia que rejeitariam a Cristo, Ele necessariamente os criou para condenação. Tudo o que pode ser dito em réplica a isto é: Não, embora Deus tenha previsto que estes rejeitariam a Cristo, todavia, Ele não decretou que eles deveriam assim fazer. Mas isto é evitar a real questão do assunto. Deus tinha uma razão definida pela qual criou o homem, um propósito específico pelo qual criou este ou aquele indivíduo, e em vista da eterna destinação de Suas criaturas, Ele propôs que alguns destes passariam a eternidade no Céu e que outros a passariam no Lago de Fogo. Se Ele, então, previu, ao criar certa pessoa, que esta pessoa desprezaria e rejeitaria o Salvador, e mesmo sabendo isto de antemão, Ele, não obstante, trouxe tal pessoa à existência, então, é claro que Ele designou e ordenou que esta pessoa deveria ser eternamente perdida. Novamente; fé é um dom de Deus, e o propósito de dá-la somente a alguns, envolve o propósito de não dá-la a outros. Sem fé não há salvação - 'Quem crê nele não é condenado' - portanto, se há alguns descendentes de Adão aos quais Ele propôs não dar fé, deve ser porque Ele ordenou que eles deveriam ser condenados". [2]

A reprovação glorifica ao Senhor. Pode soar um tanto quanto contraditório o afirmar que Deus condenar alguns redunde em glórias ao Seu nome, porém, aqueles que se escusam de tal afirmação precisarão negar a soberania plena de Deus para então lançarem as bases feitas com palha de seus argumentos. Paulo foi muito claro ao dizer que "Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra" (Rm 9.17), sendo o intento do Senhor ao endurecer o coração de Faraó a fim de que Seu "nome seja anunciado em toda a terra".

Deus é glorificado em absolutamente toda as coisas e por isso não nos alonguemos aqui, pois é claramente notável na afirmação de Paulo: "Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém" (Rm 11.36).

A reprovação e o pecado. Em Adão todos pecaram. Não há um homem sequer que possa-se escusar da ira e justiça divina que estão a pairar sobre os pecadores. Jonathan Edwards, em seu famoso sermão intitulado "Pecadores nas mãos de um Deus irado", exorta os ímpios presentes na congregação (e aqueles que assim o são, mas que se veem crentes) para que não pensem que o Senhor está alegre e jubiloso com suas atitudes. Não, o Senhor está muito irado contra todos os impenitentes e em breve os castigará furiosamente por seu pecado. Mas não é debalde lembrar também que já no tempo presente os ímpios são castigados pelo Senhor, pois se "todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito" (Rm 8.28), logo, para ímpios, nada lhes vai bem e constantemente são afligidos por seus pecados que levam à morte.

"o salário do pecado é a morte" (Rm 6.23). As Escrituras evidentemente nos afirmam que pelo pecado residente em nós, deveríamos receber como pagamento a morte física e eterna. Foi assim que se deu com Adão e Eva, pois disse o Senhor: "Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás" (Gn 2.17). Até o momento da queda de nossos pais, a paz, santidade, justiça e verdade governavam seus corações. Se quisessem (dentro de seus juízos lógicos) viveriam eternamente, procriaram e não sentiriam sequer o cheiro da morte e do horror das consequências de suas desobediências. No entanto, assim não quiseram e o pecado passou a habitar o mundo. [3]

Notemos que o pecado é fruto da desobediência aos mandamentos do Senhor. Adão e Eva tinham diante de si, de um lado, a responsabilidade de permanecer firmes e não darem lugar à curiosidade excessiva, sendo abençoados eternamente se assim procedessem; do outro, o alerta e decreto da maldição, que se caso viessem a ultrajar os preceitos e limites traçados pelo Eterno, certamente morreriam. Dando lugar à demasiada curiosidade e achando que os intentos do maligno eram mais verdadeiros que o do Senhor, o pecado então criou forma no homem e os removeu da santidade, lançando-lhes no imediato desespero e destituindo-os do reto proceder, pois nos é dito que coseram roupas inadequadas para si, vindo então o Senhor e posteriormente dando-lhe as vestes dignas do pecado (Gn 3.21).

Assim como Adão e Eva não tinham discernimento de como cobrir seus corpos adequadamente, nós também não sabemos (e não podemos!) como nos adornar da reta e justa palavra de Deus, pois todos os homens e mulheres carregam o fruto da desobediência de nossos pais. É disso que depreende-se que não há como falarmos em eleição se não lembrarmos que a reprovação é a consequência do decreto de Deus, pois se graciosamente escolhe alguns para salvação, nada há que Lhe questionarmos sobre os porquês de haver deixado a outrem na reprovação, haja vista apenas os ter deixado em sua condição natural, a saber, a pecaminosa e destinada ao tormento.

A reprovação como expressão de Sua justiça. A palavra do Altíssimo é "Lâmpada para os meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho" (Sl 119.105), querendo nos ensinar que não cabe aos homens o delimitar o melhor trajeto, nem tampouco iluminar veredas alheias àquelas fixadas na eternidade, pois nosso ser natural é como o corpo de Judas, o traidor do Mestre, que ao comprar o campo com sua paga, foi, enforcou-se e partiu em pedaços. [4

"O teu trono, ó Deus, é eterno e perpétuo; o cetro do teu reino é um cetro de eqüidade" (Sl 45.6; Hb 1.8). Não devemos dar lugar a pensamentos iníquos e digladiarmos conosco mesmo sobre a razão de Deus haver salvo uns e condenado outros. Não é lícito nem recomendável o aceitar e buscar um racionalismo demasiado em nossa vida. Como já disse certo homem, "A Bíblia não nos foi dada para aumentar nosso conhecimento, mas para transformar nossas vidas". [5] Enquanto a palavra do Senhor nos informa que Seu cetro julga com verdade e justiça, devemos ficar satisfeitos com isso, pois não há o que possamos oferecer ao Senhor que lhe mudará os intentos ou que O fará deixar a nosso encargo o dar vazão às Suas diretrizes. O próprio apóstolo Paulo nos alerta a que não fiquemos a contender com o Artífice sobre tal razão - "Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim?" (Rm 9.20).

"Minha é a vingança e a recompensa, ao tempo que resvalar o seu pé; porque o dia da sua ruína está próximo, e as coisas que lhes hão de suceder, se apressam a chegar" (Dt 32.35). O Senhor dos Exércitos não leva esse nome inutilmente, mas o tem para si porque é detentor de todo poder, tanto para salvar como para condenar. O arsenal bélico e poder do Senhor é por demais surpreende, pois nos informa que nem ao menos necessita fazer-se valer das grandes e poderosas armas da natureza para eliminar o malfeitor e pecador da sociedade, e sim, dize-nos que tão somente o pisar em falso já é causa de nossa ruína. Para o incrédulo e pecador impenitente, um dia comum e com atividades cotidianas a se fazer, pode ser o dia da sua desgraça, pois basta-lhe que Deus tenha decretado que tal dia será o último de sua vida e que encherá a medida de sua iniquidade (Gn 15.16), que ao resvalar do seu pé das ordens eternas, tal homem será lançado nos abismos destinados àqueles que não ouviram o chamado do Senhor.

A justiça eterna não deve ser analisada à luz de nossos corações, pois não há nada mais maligno do que o senso de retidão e verdade humana, pois quantas são as vezes que num minuto temos o desejo de eliminar todos os que cruzam nossos olhares, ao passo que no segundo seguinte oramos com o firme desejo de que todos se convertam e vão a Cristo? Nossa inconstância nos acusa e nos alerta sobre o perigo de desejarmos instilar ao Senhor nossas suposições de bondade e justiça terrena. A justiça de Deus está tão intimamente à Sua santidade, que tal ligação dever-nos-ia levar à compreensão de que não podemos entender todos os feitios do Eterno, pois nem santo somos, nem poder algum reside em nossas mãos.

Notas:
[1] CALVINO, João, Institutas, Livro I, Cáp. XVI, pág. 193.
[2] PINK, A. W, A Soberania de Deus na Reprovação, disponível em: http://www.monergismo.com/textos/soberania_divina/soberania_reprovacao_pink.htm - acessado dia 26.02.2012 às 12:27.
[3] Para mais, veja o Capítulo XV do Livro I das Institutas de João Calvino.
[4] Esse parece ser o entendimento quanto as narrativas bíblicas. Pois somos informados de que Judas de fato comprou um campo e que suas entranhas se derramaram (At 1.18). Mas também temos a narrativa de que houve por se enforcar (Mt 27:5). Daí entendermos parecer ser plausível juntar os acontecimentos e entender que primeiro Judas comprou o campo, após isso se enforcou e devido ao longo tempo que provavelmente ficou pendurado, veio a ser rasgada sua carne (pelo peso do corpo morto) e então partiu-se no chão.
[5] Frase atribuída a D. L. Moody.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Série Elementos Constitutivos do Culto Público - Considerações finais - Sermão pregado dia 26.02.2012




Série Elementos Constitutivos do Culto Público -
Considerações finais -
Sermão pregado dia 26.02.2012

Explanados os elementos, é preciso então que consideremos a forma de se organizar o culto ao Senhor e ainda algumas considerações finais.

Quando dispomos os elementos, não estamos a falar que exista uma única maneira correta e bíblica de se aplicá-los. Não há nas Escrituras algum "manual litúrgico" preciso e literal que forneça todos os dados e circunstâncias exatas de como devem ser administrados os elementos. No entanto, também não somos deixados ao bel prazer e às vãs imaginações de como podemos aplicar àquilo que a Igreja de Cristo foi ordenada a realizar.

A diferença entre o culto público e particular. A diferença entre esses pontos não se está no mero ajuntar-se ou não dos crentes em Cristo Jesus. Podemos muitas vezes nos reunir com irmãos e não estarmos cultuando (como comumente fazemos na igreja) a Deus, assim como é verdade que podemos nos reunir em algum "campo aberto" ou jardim e ali termos um verdadeiro culto. A diferença entre os cultos diz respeito à maneira como é conduzido e os elementos que nele estão. O culto particular não é conduzido pelo pastor, mestre ou alguém autorizado, mas sim pelo próprio crente em Cristo Jesus. No particular cada crente adora e louva ao Senhor de diferentes maneiras, pois por essa designação (culto particular) estamos a falar da vida como um todo e que abrange cada situação específica do dia-a-dia. Então, para o cotidiano, o simples lavar dos cabelos já é um louvor ao Senhor, o agradecer antes (ou após) as refeições já um ato de submissão e reverência, o pegar o ônibus ou carro é sinônimo de confiarmos na providência do Santo que nos conduz em segurança e nos dá o sustento necessário.

Quanto ao culto público, embora ele seja constituído de pessoas que pratiquem as mesmas coisas do culto particular, as atividades nele realizadas são outras, pois o fim é diferente (ainda que ambos devam ser para a glória do Senhor - 1 Co 10.31). O culto público é conduzido pelo pastor, mestre ou alguém autorizado, e somente essas pessoas é que podem e devem impetrar a bênção sobre a congregação - não que o Senhor faça diferença entre "crentes" e "crentes", mas porque as atribuições são diferentes (assim como o julgamento dos Mestres será mais rigoroso - "Meus irmãos, muitos de vós não sejam mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo" (Tg 3:1). Enquanto no culto particular nós somos distraídos por questiúnculas da vida, o culto público deve se demonstrar ordeiro, solene e reverente, pois não estamos "andando pelo caminho" ou lavando nossos cabelos, mas sim reunidos em nome do Senhor e professando o crer que não há nada mais importante naquele momento do que ler, ouvir e receber a Santa Palavra do Senhor junto com os irmãos.

Pregação a partir da Bíblia. Esse ponto não implica em dizer que há uma única forma de pregação e que a Bíblia não deixe dúvidas sobre como deve ser o pregar. Explico: muitos homens reformados e piedosos pregam a santa palavra de Deus de forma expositiva e sequencial, isto é, lendo o texto, expondo sua doutrina principal, refutando as objeções feitas a ele, aplicando a doutrina ensinada e passando-se para o próximo versículo (ou até mesmo capítulo). Mas há também aqueles que não seguem esse modelo, pois prefere uma pregação temática expositiva, onde toma-se um tema como base e discorre-se sobre ele em determinado versículo ou conjuntos de versículos que exponham o tema abordado durante a série.

Independente de qual dos dois modos se segue, ambos procuram retirar a doutrina do texto, isto é, praticar a exegese, (a interpretação, uma análise minuciosa) e então ensinar a devida aplicação à vida da congregação. Entretanto, não podemos aceitar como bíblica qualquer pregação que em vez de retirar o sentido do próprio texto, toma-o fora do seu contexto e aplicação e dá-se um sentido completamente outro para ele. Um exemplo muito corrente é o versículo de Paulo: "Tudo posso naquele que me fortalece" (Fp 4.13). A boa pregação irá explicar que a doutrina ensinada por Paulo começa no versículo 10 e 11, tem seu centro nervoso no 12 e finalmente culmina na afirmação citada. A pregação bíblica é aquela que sabe "deixar o texto falar" por si só, não necessitando que homem algum acrescente ou diminua qualquer ordem ou ensinamento, pois ensinados que (ainda que no livro de Apocalipse, mas certamente se aplica à toda Escritura) "todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro; E, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte do livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro" (Ap 22.18,19).

Leitura da Palavra de Deus. Ler-se a palavra de Deus não é o mesmo que ter a Sua palavra. Muitos homens fazem uma leitura "fria" das Escrituras, visando exclusivamente o conhecimento intelectual, um acréscimo às faculdades humanas da razão e da lógica, um simples academicismo é o que procuram, no entanto, basta-nos volver para a as Sagradas Letras e perceberemos que seu intuito é justamente outro (2 Tm 3.16,17).

A leitura pública das Sagradas Escrituras não visa acrescer conhecimento histórico sobre Abraão, Moisés, Isaías, João, Pedro, Paulo ou outro homem bíblico. A finalidade da leitura pública é o amadurecimento comunitário na piedade e sabedoria de nosso Deus. Ao lermos a palavra do Senhor não estamos meramente a continuar um ritual semanal ou simplesmente "incrementando" o culto ao Senhor, pois assim como mediante a pregação, a palavra de Deus deve ser recebida com alegria, júbilo e por - muitas - vezes, contrição e angústia, de igual forma a leitura busca inteirar-nos em Sua palavra, de modo que dignifiquemos o sumo sacerdócio de Cristo e elevemos nossos corações à uma firme expectativa e devoção sincera ao Senhor que em todas os feitos age para o bem daqueles que O amam (Rm 8.28).

Audição da Palavra de Deus. Esse elemento é uma consequência lógica dos antecedentes, pois é natural que a cabe a congregação o ouvir da Sua palavra. No entanto, frequentemente não é o que temos visto em muitos círculos evangélicos, pois em determinados lugares parece-se, em primeiro lugar, que não se está ouvindo a palavra de Deus, mas sim a de demônios, tamanha é a discrepância entre a palavra escrita e a exposta à público, e, sem segundo lugar, porque homens incautos e desprovidos de preparação e piedade são colocados para expor a deveras significante e salutar palavra do Altíssimo à congregação. Mas há também de se lembrar de que por muitas vezes o ministro é homem preparado e bem dotado pelo Senhor, ao passo que sua congregação não passa de frequentadores que busquem apenas acrescentar algo à sua moralidade mínima. Charles H. Spurgeon certa vez apontou a má qualidade de muitos ministros ao exporem a palavra de Deus, mas também ressaltou a veracidade de muitas congregações: elas não sabem ouvir.

"Vede, pois, como ouvis" (Lc 8.18). [1] Tais palavras de Jesus não devem de maneira alguma serem negligenciadas por seus discípulos, pois se o próprio Mestre instrui-nos a ser vigilantes para com Sua palavra, nada mais sensato do que buscarmos com diligência tal objetivo. Algo que todo crente experimentado pode testemunhar para si e para outrem, é o fato de que quando inicia-se uma caminhada na piedade e realmente atenta-se para a palavra que o arauto do Senhor ensina, ocorre uma brusca mudança de vida e de pensamento interior, pois a igreja e o culto já não representam um "dever a ser cumprido", mas um deleite e alegria em ir receber santa e perfeita palavra do Senhor - "Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração" (Mt 6.21).

Ainda outra vez o Catecismo Maior de Westminster nos guia:


Pergunta 160: Que se exige dos que ouvem a Palavra de Deus pregada?

Resposta: Exige-se dos que ouvem a Palavra de Deus pregada que atendam a ela com diligência (Sl 84. 1,2,4), preparação (Lc 8.18; 1 Pe 2.1,2) e oração (Sl 119.18; Ef 6.17,18); que comparem com as Escrituras (At 17.11) aquilo que ouvem; que recebam a verdade com fé (Hb 4.12), amor (2 Ts 2.10), mansidão (Tg 1.21; Sl 25.9) e prontidão de espírito (At 17.11), como Palavra de Deus (1 Ts 2.13); que meditem (Hb 2.1) nela e conversem a seu respeito uns com os outros (Dt 6.6,7); que a escondam nos seus corações (Sl 119.11) e produzam os frutos devidos no seu procedimento (Lc 8.15; Tg 1.25).

Oração a Deus. Não devemos nos alongar nesse ponto, pois é preciso que seja ponto fático que a oração é o que nos move. Não houve sequer um santo piedoso que não tenha sido um homem de dores, de oração e que buscou incessantemente na presença do Senhor o Seu agir e a Sua provisão para as dificuldades que lhe assolavam (Lc 11.5-13). A oração pública a Deus dever-nos-ia ser da maior magnitude e estima possível, pois devido ao fato de não sermos sequer servos inúteis (pois o servo inútil faz tudo o que deve fazer - Lc 17.10), e ainda, que muitas vezes somos rebeldes contra a palavra e Lei do Senhor, a oração deve lembra-nos que, embora o véu tenha sido rasgado no templo (Mt 27.51), o soberano Senhor ainda encontra-se no Santo do Santos, de modo que a reverência, tremor e temor devem ser encontrados em nosso coração enquanto oramos e clamamos por Sua misericórdia, pois em nada somos superiores ao sacerdote que adentrava aos Santo lugar temendo por sua vida, aliás, apenas o imaginar dessa situação nos requereria uma profunda reflexão à verificação de nossas vidas, a fim de avaliarmos - mediante o Espírito Santo - se de fato temos entrado com ousadia no santuário do Senhor (Hb 10.19) e temos nos adornado com as vestes santas de Cristo.

A. W. Pink expressou assim seu entendimento: "Além disso, Deus requer que O adoremos. A oração, a verdadeira oração, é um ato de adoração. Assim é, pois a oração consiste em prostrar-se a alma pertante Ele; a oração é o invocar o grandioso e santo nome de Deus; a oração é o reconhecimento da bondade, do poder, da imutabilidade e da graça de Deus; também é o reconhecimento da soberania divina, confessada quando nossa vontade se submete à dEle. E de elevada significação notarmos, a esse respeito, que Cristo não chamou o templo de Jerusalém de Casa de Sacrifício, e, sim, de Casa de Oração". [2]

Administração dos Sacramentos. Não há que se falar em ordenanças se não tivermos a plena certeza da suficiência das Escrituras para nossas vidas. Os sacramentos são meios pelos quais o Senhor nos transmite a Sua graça (mas não tão somente), revigora a fé e traz alento ao coração muitos vezes desesperançoso.

Quando nos tempos antigos falava-se da ceia do Senhor, os puritanos e sua piedade poética que lhes era latente diziam: "Na vida cotidiana o Senhor nos agracia com Seu abraço; na ceia, com Seu beijo". A devoção puritana deve ser alvo digno de nossa pesquisa e leitura constante, pois não foi sem motivo que o Senhor os usou de sobremaneira em toda Alemanha, Suíça, Escócia, Inglaterra, terras Americanas e por onde mais que tenham ido, porque suas vidas eram pautadas pelo estrito ensino bíblico (ainda que continuassem a ser pecadores e falhos) e isso certamente desenvolveu-se em seu entendimento sobre os sacramentos do Senhor. A ceia do Senhor não é um momento de brincadeiras nem de pensamentos esparsos, pois ali estamos a comungar em torno da causa do próprio Cristo que institui tal celebração.

Quanto ao batismo, já vimos que é duplo seu alcance: aos infantes de pais cristão (ou de pelo menos um deles - 1 Co 7:13-14) e a todo aquele que não foi batizado quando pequeno mas que chegou à fé no Senhor no momento oportuno. Ao contrário do que muitos pensam, não há somente uma maneira certa de se ministrar o batismo. É acertadamente que João batizou no rio Jordão (Mt 3.6), contudo, vimos também que o apóstolo Paulo nos revela que o povo israelita foi batizado "na nuvem e no mar" (1 Co 10.1,2). E ainda temos a narrativa de Filipe com o eunuco: "E, indo eles caminhando, chegaram ao pé de alguma água, e disse o eunuco: Eis aqui água; que impede que eu seja batizado?" (At 8.36). A função desses relatos não é dizer qual o único modo correto, pois nem João, nem Paulo ou Filipe nos relatam a forma de ser batizado. É correto sustentar que o termo batismo denote imersão, contudo não podemos ter essa expressão de forma sinedóquica [3], pois o intuito da palavra não é dar razão à forma, mas quanto ao significado, pois se o intento fosse indicar a forma, como os israelitas teriam sido submersos "na nuvem", que é constituída de partículas líquidas de água, e "no mar", que estava seco?! De igual forma se dá com o eunuco, onde não nos é informado nem a quantidade de água, nem a forma que se realizou o batismo.

Daí entendermos a partir desses exemplos (e outros que não cabem ao presente trabalho) que independe a forma de se administrar (submersão, efusão ou aspersão). Sendo feito com água e no nome do Deus trino, se está executando conforme as Sagradas Escrituras. [4]

Reunião no Dia do Senhor. Não é dever do cristão ficar justificando suas faltas para o Senhor como se em algum momento pudesse ser perdoado apenas porque vive em meio à uma geração perversa e desobediente à Lei do Senhor, se assim pudesse ser, todos os homens bíblicos teriam se amparado nessa "brecha".

Conforme já explicado, o Dia do Senhor não foi instituído para nosso divertimento nas coisas terrenas, mas apesar disso, também não foi instituído para nos ser de peso ou um dia temível (no sentido de que não nos agradamos dele), quase que como em vez de o chamarmos deleitoso (Is 58), tivéssemos "alivio" ao raiar da segunda-feira. O Dia do Senhor também não nos foi legado para ficarmos em casa "sem fazer nada", pois já pontuamos que o ócio é um grave pecado (Ef 5.15,16), devendo todo crente esmerar-se em dedicar esse dia ao Eterno. Todavia, quando falamos em dedicação ao Senhor, não estamos a falar que deve-se dedicar de "outra forma", mas sim que, enquanto o Senhor nos dá seis dias para nosso proveito e neles nos ordena que façamos toda obra (Êx 20.8-11), o sétimo dia é santo, isto é, separado com um propósito diferente, pois já não vamos à labuta nem investimos nosso tempo em fontes que nos trazem apenas recursos naturais e passageiros (ou divertimentos frívolos e que não acrescem à piedade),, e sim que dedicamos e fazemos todo o possível para maximar o tempo na obra do Senhor - e isso certamente só é possível aos nos desvencilharmos de certas atividades lícitas em outros dias.

Ainda notamos que o fato de muitos homens e mulheres serem obrigados a trabalhar no dia de domingo, não configura violação de sua parte, pois tal serviço se encaixa nas "obras necessárias". Ou seja, devemos fazer todo o possível para não termos de trabalhar no Dia do Senhor, contudo, muitas vezes alguns são convocados pelas empresas a irem trabalhar e/ou fazer hora extra, ou ainda há aqueles que são donos de determinado negócio e que mesmo trabalhando incessantemente não foi possível concluir toda tarefa, daí também ser lícito dedicar uma parte do dia à finalização da tarefa. Mas é preciso que esse quesito das "obras necessárias" seja analisado com muita atenção, reverência e oração ao Senhor, pois não são poucas as vezes que somos tentados a procrastinar nossos trabalhos e os deixar para o fim de semana, violando assim a ordenança de organizamos nossa semana a fim de estarmos livres ao Senhor no Seu dia.

Cântico de Salmos. Por fim, mas não menos importante, convém lembrar que o salmodiar exclusivamente não nos torna mais ou menos aceitáveis diante de Deus, pois ninguém será justificado pelas obras, e sim pela fé. No entanto, é mister relembrar que "Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta" (Tg 2.26), da onde depreende-se que, embora não sejamos justificados pelas obras, elas são um indicativo de que somos justificados pela fé em Cristo, pois toda obra feita ao Senhor nada mais é do que o desdobramento da fé operada no coração, portanto, eis a razão de se dizer que a regeneração precede a fé, pois primeiros somos salvos pelo Senhor e depois passamos - pelo poder e Espírito do Senhor - a realizar Seus feitos. Muitos irmãos e irmãs no Senhor - infelizmente - não cantam apenas os Salmos, e há ainda aqueles que além de não os cantarem usam instrumentos não autorizados. Contudo, é preciso deixar registrado que nem por isso devem ser reputados como hereges e contrários ao evangelho, pois de forma alguma estão a negar o Cristo e Seu poder salvador. Daí concluirmos que, embora estejam errados no seu proceder, devem ser tidos em estima e amor para conosco, pois enquanto erram o alvo nesse quesito, nós também assim o fazemos em outros (o que não elimina a responsabilidade de ambos buscarem o reto proceder), o que se traduz em dizer que devemos ter grande humildade e gratidão a Deus, pois não somos justificados por nós nossos próprios feitos, mas n'Ele que é o guardião de todos os seus eleitos.

Nota:
[1] Já preguei sobre esse texto, clique aqui para ler.
[2] PINK, A. W., retirado do portal Monergismo.com.
[3] Tomar o todo pelas partes. É quando olhamos apenas uma parcela da questão e deduzimos (de modo falso) que todo o conjunto da obra seja apenas aquilo que estamos olhando. É o exemplo dos cegos que apalparam o elefante, pois enquanto um tocava na barriga e dizia ser o animal semelhante a uma parede, outra tocava em suas pernas e dizia ser similar a uma árvore. Ambos estava parcialmente certos em seus julgamentos, mas erroneamente tomavam o todo (o elefante) pelas partes .
[4] Essas e outras coisas podem ser melhor analisadas e lidas no capítulo XXVIII da Confissão de Fé de Westminster.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Fanáticos ou Defensores da Verdade?


Em tempos como o nosso é fácil alguém parecer fanático, se mantém uma firme convicção sobre a verdade e quando se mostra cuidadoso em ter certeza de que sua esperança procede do céu. Nenhum crente pode ser fiel e verdadeiro nesses dias, sem que o mundo lhe atribua a alcunha de fanático. Mas o crente deve suportar esse título. É uma marca de honra, embora a sua intenção seja envergonhar. É um nome que comprova estar o crente vinculado ao grupo de pessoas das quais o mundo não era digno, mas que, enfrentando a ignomínia por parte do mundo, fizeram mais em benefício deste do que todos aqueles que viviam ao seu redor. O mundo sempre sofre por causa dos homens que honra. Os homens que trazem misericórdia ao mundo são os que ele odeia.

Sim! Os antigos reformadores eram homens fanáticos em sua época. E foi bom para o mundo eles terem sido assim. Estavam dispostos a morrer, mas não comprometeriam a verdade. Submeter-se-iam a tudo por motivo de consciência, mas em nada se sujeitariam aos déspotas. Sofreriam e morreriam, mas temiam o pecado. Esse fanatismo trouxe liberdade para a sua própria terra natal, como bem demonstra o exemplo dos reformadores escoceses. O legado deixado por esses homens - cujo lar eram as cavernas na montanha e cuja única mortalha era a neve, que com freqüência envolvia seus corpos quando morriam por Cristo - é uma dádiva mais preciosa do que todas as oferecidas por reis que ocuparam o trono de seus países ou por todos os nobres e burgueses que possuíam suas terras. Sim, eles eram realmente fanáticos, na opinião dos zombadores cépticos e perseguidores cruéis; e toda a lenha com a qual estes poderiam atear fogueiras não seria capaz de queimar o fanatismo desses homens de fé.

Foram esses implacáveis fanáticos, de acordo com a estimativa do mundo, que encabeçaram a cruzada contra o anticristo, quando na época da Reforma desceu fogo do céu e acendeu em seus corações o amor pela verdade. Esses homens, através de sua inabalável determinação, motivados por fé viva, venceram em épocas de severas provações, durante as quais eles ergueram sua bandeira em nome de Cristo. Um lamurioso Melanchthon teria barganhado o evangelho em troca de paz. A resoluta coragem de um Lutero foi necessária para evitar esse sacrifício. Em todas as épocas, desde o início da igreja, quando a causa da verdade emergiu triunfante sobre o alarido e a poeira da controvérsia, a vitória foi conquistada por um grupo de fanáticos que se comprometeram solenemente na defesa dessa causa. Existe hoje a carência de homens que o mundo chame de 'fanáticos'. Homens que possuem pulso fraco e amor menos intenso pouco farão em benefício da causa da verdade e dos melhores interesses da humanidade. Eles negociarão até sua esperança quanto à vida por vir em troca da honra proveniente dos homens e da tranqüilidade resultante do comprometimento do evangelho. Há muitos homens assim em nossos dias, mesmo nas igrejas evangélicas e na linha de frente do evangelicalismo; homens que se gloriam de uma caridade indiscriminada em suas considerações, de um sentimento que rejeita o padrão que a verdade impõe; homens que aprenderam do mundo a zombar de toda a seriedade, a queixarem- se da escrupulosidade de consciência e a escarnecer de um cristianismo que se mantém através da comunhão com os céus! Esses têm os seus seguidores. Um amplo movimento emergiu afastado do cristianismo vital, de crenças fixas e de um viver santo. As igrejas estão sendo arrastadas nessa corrente. Aproxima-se rapidamente o tempo em que as únicas alternativas serão ou a fé viva ou o cepticismo declarado.

Uma violenta maré se abate sobre nós nessa crise, e poucos mostram-se zelosos em resistir. Não podemos prever qual será o resultado nas igrejas, nas comunidades e nos indivíduos, tampouco somos capazes de tentar conjeturá-lo sem manifestar sentimentos de tristeza. Contudo, uma vitória segura é o destino da causa da verdade. E, até que chegue a hora de seu triunfo, aqueles que atrelaram seus interesses à carruagem do evangelho perceberão que fazem parte de um grupo que está diminuindo, enquanto avançam até àquele dia; seu sentimento de solidão se aprofundará, enquanto seus velhos amigos declinarão à negligência, a indiferença se converterá em zombaria, e as lamúrias se transformar ão em amarga inimizade. Eles levarão adiante a causa da verdade somente em meio aos escárnios dos incrédulos e às flechas dos perseguidores.

Mas nenhum daqueles que amam a verdade - aqueles cujos olhos sempre descansaram na esperança do evangelho - deve acovardado fugir das provações. Perecer lutando pela causa da verdade significa ser exaltado no reino da glória. Ser massacrado até à morte, pelos movimentos de perseguição, significa abrir a porta da prisão, para que o espírito redimido passe da escravidão ao trono. Em sua mais triste hora, aquele que sofre por causa da verdade não deve recusar a alegria que os lampejos da mensagem profética trazem ao seu coração, quando brilham através das nuvens de provação. O seu Rei triunfará em sua causa na terra e seus amigos compartilharão da glória dEle. Todas as nações sujeitar-se-ão ao seu domínio. As velhas fortalezas de incredulidade serão aniquiladas até ao pó. A iniqüidade esconderá sua face envergonhada. A verdade, revelada dos céus, receberá aceitação universal e será gloriosa no resplendor de seu bendito triunfo aos olhos de todos.

Por John Kennedy
Via FaceBook - postado por Rosivaldo Oliveira Sales

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Em vez de clamar, odeie o pecado!


"Podemos, por decência, clamar contra o pecado, e não o odiarmos. Tenho ouvido muita gente clamar contra o pecado, até do púlpito, e, não obstante, o toleram bem nos seus corações, nas casas e nas suas vidas. A senhora de Potifar clamou em altas vozes, com a maior energia, como se fosse muito casta (Gn 39.15), e, apesar disso, fora ela quem provocara o pecado, e de boa vontade o cometera. Os clamores de algumas pessoas contra o pecado são como os de uma mãe contra o filho a quem repreende, mas que logo beija e acaricia".

Diálogo entre Fiel e Loquaz em O peregrino.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Inteligência não é fruto


O povo Reformado parece gostar de errar nesse ponto. Quando Paulo descreve o corpo de Cristo, cujas partes ele inclui mãos, orelhas, e assim por diante, nós somos rápidos em marcar nosso território – nós somos o cérebro da igreja. Nós somos os únicos que estão tão certamente preocupados com a nossa teologia. As grandes mentes da igreja foram dos Reformados, e alguém pode certamente dizer que a maior delas, teologicamente ou além, que já pisou nessas terras da América do Norte, foi Jonathan Edwards.

Não há dúvidas que o homem tinha um intelecto imponente. Deveríamos ter a sabedoria de sentar aos seus pés e aprender com ele. Edwards falando sobre volição é incontestavelmente um gênio. Sobre a Trindade, Edwards faz a sua cabeça girar. Edwards era uma mente titânica cujo brilho foi ofuscado apenas pelo seu ardente e apaixonado coração. Devemos abraçar a visão teológica de Edwards? É claro, certamente. Seria melhor ainda, contudo, se nós apenas pudéssemos apreciar a sua devoção de alma.

É claro que nós não aumentamos o fervor das nossas emoções ofuscando a capacidade dos nossos cérebros. Nem, contudo, iremos nutrir o fruto do Espírito se a semente da Palavra é plantada apenas no solo rochoso dos nossos cérebros em vez do solo fértil dos nossos corações. Nós certamente devemos conhecê-lo para amá-lo. Nós certamente devemos estudá-lo para conhecê-lo. Mas ninguém estudou-O mais do que o diabo, e isso não fez dele nenhum pouco bom.

Há algumas semanas, a Reformation Bible College abriu as suas portas pela primeira vez. A primeira turma eu ensinei um nome bastante pretensioso: Prolegômenos teológicos básicos. Esse título intelectualizado se traduz aproximadamente como “Introdução à Teologia Sistemática”. É o estudo que fazemos antes de começar nosso estudo.

Historicamente, tal classe começaria, logicamente, com a doutrina da revelação, explorando como Deus se revela em Sua Palavra e na natureza. Consideraria questões do cânon e várias teorias da inspiração. Nós iremos, eventualmente, chegar a essas questões importantes. Em outro semestre, nós iremos voltar as nossas atenções para o que chamamos de “TEOlogia propriamente dita”, o atual estudo da natureza de Deus e seus tributos. Apesar do assunto da futura classe, nós começaremos a primeira turma com uma obra clássico, A Santidade de Deus.

Meu medo, ao olhar para essa primeira turma, era que iriamos cair na armadilha que já capturou muitas pessoas reformadas. Eu temia que, mesmo com as verdades das gloriosas Escrituras, nós acabaríamos apenas agradando os ouvidos. Eu seria culpado de fazer cócegas nas orelhas, nas minhas aulas, se eu encorajasse os alunos a concluir, “Que pessoa inteligente eu sou” em vez de “Que evangelho glorioso que salvou um miserável como eu”. Eu queria, quando estudássemos juntos este livro, que nos olhássemos no espelho de Seu caráter e glória para que nunca percamos de vista o quão vis nós somos. Eu queria que nós entendêssemos algo do escopo da transcendência dEle caso sejamos tentados a concluir que nossos estudos nos levariam ao céu da mesma forma que a Torre de Babel. Eu temia pelos meus alunos precisamente porque eu me lembrei de como eu era quando era estudante. Que Diabo inteligente, esse que lutamos contra, que consegue transformar nosso estudo da boa teologia em um caso de orgulho.

Nós não seremos melhores até abraçarmos essa verdade óbvia: inteligência não é um dos frutos do Espírito. É claro que devemos amar a Deus com as nossas mentes. Mas devemos amar a Deus com as nossas mentes, não meramente entendê-lo. Quando o nosso conhecimento não pode atravessar a distância entre a nossa cabeça e o nosso coração, estamos sofrendo um vazio espiritual. Não nos tornaremos melhores até abraçarmos essa verdade óbvia: chegamos ao reino não como estudantes ou acadêmicos, mas como crianças.

Nós não iremos, de fato, nos tornarmos melhores até aprendermos a pararmos de perseguir a respeitabilidade acadêmica e começarmos a buscar o Reino de Deus e a sua justiça. Devemos deixar para trás todas as preocupações terrenas. Devemos parar de buscar essas coisas que os gentios buscam.

O amor, afinal, é um fruto do Espírito. Amor gera amor. Amor traz alegria. Amor concede paz. Paciência, benignidade, bondade, e domínio próprio: tudo isso brota como os belos cacho de uvas que os doze espiões israelitas viram na Terra Prometida. Nenhum desses, contudo, brota do solo árido da nossa curiosidade intelectual, muito menos da terra seca do nosso orgulho intelectual.

Edwards era um grande homem de Deus. Ele era assim, contudo, porque ele buscava ser um homem de Deus, ao invés de ser um grande homem. Seus descendentes serem senadores e governadores, professores e presidentes de universidades, não significava nada para ele. Que eles seguissem o filho do carpinteiro lá da Galileia –era o que ele esperava, orava e trabalhava por. Este é o fruto da piedade.

Por R.C. Sproul Jr.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Efésios 1.4 (parte 1) - Exposição em Efésios - Sermão pregado dia 19.02.2012



Efésios 1.4 (parte 1) - Eleição
Exposição em Efésios - 
Sermão pregado dia 19.02.2012

"Como também nos elegeu nele" (Ef 1:4a).

Neste ponto, Paulo se põe a dar mais um argumento de peso para mais adiante (vs. 5-23) explicar quais são as implicações da salvação na vida dos crentes de Éfeso. O intento do apóstolo não parece ser de apenas explicar mais algumas questões, mas sim de embasar e firmar a fé daqueles crentes em Cristo Jesus.

Quando falamos de eleição precisamos ter em mente que essa doutrina é de profunda necessidade para a Igreja de Cristo, pois é dela que emanam muitos entendimentos da Escritura. A Bíblia nos revela desde o seu início (Gn 1.1) que desde o princípio de todas as coisas, isto é, antes de criação alguma vir a lume, Deus já era e já existia em si mesmo, não necessitando de cousa alguma para sua subsistência - e é por isso que bem sabemos que todas as coisas na terra servem à glória do Senhor, "E, depois destas coisas ouvi no céu como que uma grande voz de uma grande multidão, que dizia: Aleluia! Salvação, e glória, e honra, e poder pertencem ao Senhor nosso Deus (Ap 19.1), afinal, tudo foi criado a partir d'Ele e para Ele.

Sendo Ele o criador de tudo o que existe, diferentemente do subordinado que presta contas aos seus superiores, o Altíssimo não se reporta a ninguém, nem deve explicações a outrem como se homem fosse. A revelação de Deus é muito clara ao nos ensinar que "Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra. Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer" (Rm 9:17-18) - a eleição é fruto da vontade de Deus e tão somente compete ao Senhor responder por seus atos.  

Para muitos crentes que se deparam com essa "nova" doutrina, a dificuldade de aceitá-la não reside na eleição em si, quer dizer, a barreira que encontram em seus corações não é quanto ao amor de Deus e à Sua benevolência em eleger certos homens para salvação, mas sim a consequência lógica desse pensamento, ou seja, a reprovação. Para esses, Deus não pode ao mesmo ter criado todas as criaturas e ter destinado somente algumas delas para a vida eterna. Pensam também que seria "injusto" se Deus escolhesse alguns e condenasse outros. Porém, não há homem que possa se esquivar das Sagradas Letras que nos ensinam que  se possuímos algo de bom em nós, é porque o recebemos de Cristo. Precisamos ter em mente que eleição e reprovação são duas doutrinas que não podem ser desconexas (veremos adiante sobre a reprovação, mas por ora basta-nos a eleição), pois tal qual o mar está contido pelos limites da terra, assim também a reprovação de Deus está contida pelo número de Seus eleitos - quanto a isso, as Escrituras são fartas em referências:

- "E a vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no último dia" (Jo 6.39);
- "Mas vós não credes porque não sois das minhas ovelhas, como já vo-lo tenho dito" (Jo 10.26);
- "E os gentios, ouvindo isto, alegraram-se, e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna" (At 13:48);
- "Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores" (Rm 5:8);
- "Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), Foi-lhe dito a ela: O maior servirá o menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú" (Rm 9:11-13);
- "Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra. Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer" (Rm 9:17-18);
- "E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados" (Ef 2.1)...

Em nenhum momento a Bíblia nos dá razão para acreditar que todos os homens do mundo inteiro serão salvos - isso seria crer na heresia chamada Universalismo. [1] Contudo, ela também não nos deixa sem amparo e alento, pois ao contrário do que muitos têm pregado, a eleição não é uma forma de nos tornar orgulhosos e prepotentes, e sim justamente o contrário, a saber, uma guia para nossa humilde gratidão ao Senhor por compreender que apesar de acumularmos pecado sobre pecado e ira sobre ira em nossas cabeças, o Altíssimo - "segundo o beneplácito de sua vontade" (Ef 1.5) - nos escolheu para si, ainda que não houvesse qualquer mérito que nos diferenciasse do restante do mundo. Mas por que existe eleição?

Em primeiro lugar, a Palavra do Senhor revela-nos que todos morreram com o primeiro Adão, porém, somos feito novas criaturas em Jesus - "Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo" (1Co 15.22). Isso implica em dizer que com a queda de Adão e Eva (Gn 3), todos os homens e mulheres foram afetados pela malignidade do pecado, ou seja, não há um ser vivente sequer que possa nascer destituído de pecado. Com isso desdobra-se o entendimento de que por natureza somos filhos da Ira de Deus, pois sendo Ele santo (Lv 20.7; 1Pe 1.16), não pode suportar qualquer que seja a vileza das criaturas - "Ninguém vos engane com palavras vãs; porque por estas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência" (Ef 5.6). 

Em segundo lugar, se não existisse eleição, todos os homens seriam destinados à morte eterna e ao inferno, "Porque o salário do pecado é a morte" (Rm 6.23a). Contudo, Deus que é grande em misericórdia, nos estendeu sua mão graciosa e nos deu "o dom gratuito de Deus [que] é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor" (Rm 6.23b). Aqui, porém, não estamos a dizer que a Bíblia nos ensine uma mera possibilidade de salvação, uma expectativa de mudança de vida ou uma conjectura para se fazer nova criatura, e sim o oposto, a saber, que Ele "compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer" (Rm 9.18), o que se traduz em dizer que quando alguém é chamado à vida com Cristo, não é devido à sua faculdade intelectual ou afeições do coração, mas tão somente porque o Senhor tomou-a para Si e lhe deu o dom da Vida.

Em terceiro lugar, a eleição não anula nossa responsabilidade diante do Senhor - "E vos tenho enviado todos os meus servos, os profetas, madrugando, e insistindo, e dizendo: Convertei-vos, agora, cada um do seu mau caminho, e fazei boas as vossas ações, e não sigais a outros deuses para servi-los; e assim ficareis na terra que vos dei a vós e a vossos pais; porém não inclinastes o vosso ouvido, nem me obedecestes a mim" (Jr 35:15). Não somente o profeta Jeremias, mas também muitos outros (praticamente todos!) ofereceram a mensagem do Senhor ao povo descrente, contudo, embora constantemente eles lhes virassem a face e seguissem seus próprios desígnios e intentos do coração, os profetas permaneciam firmes: "Porém, se vos parece mal aos vossos olhos servir ao SENHOR, escolhei hoje a quem sirvais; se aos deuses a quem serviram vossos pais, que estavam além do rio, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais; porém eu e a minha casa serviremos ao SENHOR" (Js 24.15 - grifo meu). Isso nos ensina que apesar de toda revolta, ira e rebeldia contra os preceitos do Senhor, o Artífice da criação sempre teve o seu remanescente fiel e que "não se dobraram a Baal, e toda a boca que não o beijou" (1Rs 19.18). Ainda mais: a palavra do Senhor nos exorta constantemente a odiarmos o pecado e buscarmos a face do Senhor, nos ensinando que apesar dos crentes serem eleitos no e para o Senhor, eles precisam ainda mortificar sua carne - "Porque, se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis" (Rm 8:13) -, não que o Senhor não seja a causa primária dessa força que passa a habitar em nós e que nos habilita a vencer as tentações (1Co 10.13), mas sim porque ainda somos responsáveis por combater o nosso pecado, "Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar" (Gn 4.7) - apesar de não devermos achar que por nós  mesmos conseguimos algum triunfo.

Então, quando Paulo escreve aos efésios, é necessário que notemos em que se baseia a eleição do Senhor, quer dizer, onde é que os crentes estão alicerçados para que possam suportar as tribulações e alcançar a coroa da vida (1Co 9.25); daí ele dizer agora e posteriormente: "nele". "Nele temos a redenção por meio de seu sangue, o perdão dos pecados, de acordo com as riquezas da graça de Deus" (Ef 1.7).

- "Ele os trará para a terra dos seus antepassados, e vocês tomarão posse dela. Ele fará com que vocês sejam mais prósperos e mais numerosos do que os seus antepassados" (Dt 30.5);
- "O justo nunca jamais será abalado, mas os perversos não habitarão a terra" (Pv 10.30);
- "Porque o rei confia no SENHOR, e pela misericórdia do Altíssimo nunca vacilará" (Sl 21.7);
- "Por isso diz o Soberano Senhor: "Eis que ponho em Sião uma pedra, uma pedra já experimentada, uma preciosa pedra angular para alicerce seguro; aquele que confia, jamais será abalado" (Is 28:16);
- "A respeito dele, disse Davi: ‘Eu sempre via o Senhor diante de mim. Porque ele está à minha direita, não serei abalado" (At 2.25);
- "pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele" (Fp 2.13).

Se todos os crentes foram eleitos "nele" antes da fundação do mundo, depreende-se de que não há nada que possa afastar um filho do Senhor de Suas mãos, pois assim lemos em Tg 1.17: "Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, que não muda como sombras inconstantes". Se um dos atributos do Senhor é sua imutabilidade, e isso significa que todos os Seus intentos e objetivos para nós certamente serão concluídos e não falharão de modo algum, então não pode haver demônio algum (ou até mesmo o príncipe de todos eles!) ou coisa alguma que possa frustrar os planos do Senhor, conforme nos está revelado: "Sei que podes fazer todas as coisas; nenhum dos teus planos pode ser frustrado" (Jó 42.2).

Crer na eleição não é crer num Deus desprovido de amor, rancoroso e que tem prazer na morte do ímpio - pois lemos justamente o contrário: "Diga-lhes: ‘Juro pela minha vida, palavra do Soberano Senhor, que não tenho prazer na morte dos ímpios, antes tenho prazer em que eles se desviem dos seus caminhos e vivam. Voltem! Voltem-se dos seus maus caminhos! Por que iriam morrer, ó nação de Israel?" (Ez 33:11). Crer na eleição é crer num Deus dotado do mais grande amor para conosco, a ponto de mandar seu único filho para morrer por seus eleitos. Contudo, como já disse certo autor [2], "eleição é uma doutrina difícil". É difícil, pois desafia nosso senso de justiça própria e vai de encontro àquilo que muitas vezes pensamos sobre Deus, isto 
é, que Seu atributo de amor seja maior que Sua retidão e verdade. É difícil porque nos desafia a tão somente aceitar o ensinamento bíblico, em vez de ficarmos conjecturando "mil teorias" e porquês de Deus assim fazer. É difícil porque muitas vezes - devido ao pecado que ainda reside em nós - somos tentados a não fazer determinadas coisas ao Senhor (buscar a santidade, evangelizar...), como se a eleição nos deixasse sem qualquer responsabilidade e vivêssemos num mero fatalismo.

As palavras do apóstolo - "antes da fundação do mundo" - são também por demais importantes e salutares para nossas vidas, pois tal qual lemos em Hebreus 13.14 - "Porque não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura" -, compreendemos que antes de todas as coisas existirem, antes de qualquer partícula ser formada nessa terra, os crentes já haviam sido destinados para a vida eterna, não devendo sequer um deles olhar para trás (Lc 9.62), e sim tão somente seguir o caminho que lhes foi proposto, porque não há nada que aqui possa se aproveitar para a vida eterna, assim como não há nada mais desejoso e belo do que a Jerusalém celestial. Contudo, há uma heresia [3] corrente no meio que se diz evangélico que ensina que ora temos nosso nome escrito no livro da vida, ora já não temos; ora o Espírito Santo habita em nós, ora se retira; por vezes somos guiados em santidade, ao passo que as vezes somos abandonados; que frequentemente o Senhor nos guia por Sua mão, mas que as vezes nos deixa sozinhos e desamparados... Esse é um ensinamento por demais pernicioso e que invalida toda a palavra de Deus, pois não há quem possa ler a Bíblia e não encontrar abundantes referências quanto à eleição e soberania Eterna sobre todos os acontecimentos nesse mundo. 

"E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo" (Ap 20.15). A palavra do Senhor é muito séria ao dizer-nos que ou temos nosso nome escrito no livro da vida (dada à graciosa obra salvífica do Senhor em nós) ou estamos completamente perdidos e "destituídos... da glória de Deus" (Rm 3.23). É um erro muito comum acharmos que "todos são filhos de Deus", como que denotando que o Senhor irá salvar a todos, ou que no mínimo ama a todos de igual maneira. É acertadamente que entendemos que foi o Senhor quem criou a ambos, porém isso não invalida Suas palavras inspiradas que dizem: "Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também" (Ef 2.3 - grifo meu). Aqui, o apóstolo é clarividente em expor que enquanto o homem anda fazendo os desejos e pensamentos próprios da carne (quebrando assim o primeiro mandamento - Êx 20.3), ele está sob a ira de Deus, isto é, segundo ele mesmo já informou em Rm 8.28, apenas a vida do cristão é guiada segundo um propósito mais excelente e que visa a salvação de sua alma - já para os ímpios, nesta vida, nada lhes vai bem e coisa algum coopera para sua salvação; pois são indesculpáveis diante da grandiosa revelação do Senhor (Rm 1.20).

Portanto, precisamos pedir ao Senhor que neste dia (mais uma vez!) nos dê graça para examinar nossos corações, a fim de vermos se de fato estamos em Cristo, se realmente os frutos do Espírito (Gl 5.22) se manifestam em nós, se estamos vivendo uma vida de piedade baseada em nossas próprias forças ou se buscamos nos aperfeiçoar "nele". O ensinamento acerca da eleição deve nos levar a um profundo deter-se e avaliar se a graça do Senhor tem se manifestado durante nosso viver diário e se temos exalado o bom perfume de Cristo (2Co 2.15) àqueles que estão ao nosso redor. O Senhor nos conclama a examinar se de fato estamos vivendo no Espírito (Gl 5.25) e se Ele realmente habita em nós (Rm 8.9). 

Que possamos ser cheios do Senhor e termos nossas paixões inflamadas pelo sincero desejo de O agradar, não porque somos dignos de mérito ou de coisa alguma, mas porque "nele", temos a redenção dos pecados e a certeza da vida eterna.

Amém.

Notas:
[1] Para os universalistas, o amor de Deus é maior que Sua ira e justiça, e que portanto, Ele não poderia mandar ao inferno alguém que é criado à Sua imagem e semelhança. No entanto, pois mais que pareça "fazer sentido" essa argumentação, ela não consegue ser sustentada biblicamente.
[2] Pink, A. W. - clique aqui.
[3] Arminianismo - sistema de doutrina criado por Jacobus Arminius, onde ele pretendeu ensinar que o Senhor tão somente oferece a possibilidade de salvação para os homens, ficando a cabo de cada ser humano aceitar ou não ao Senhor. Porém, como aceitaremos se estamos mortos em nossos delitos e pecados (Ef 2.1)? Para Arminius, a salvação "vai e vem", isto é, depende do homem manter sua santidade e retidão diante do Senhor; e embora isso pareça ser coerente, pois certamente que temos nossa responsabilidade, contudo "Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade" (Fp 2.13), significando que apesar de  sermos responsáveis (e muito!) e condenados por nossas próprias faltas, a causa primeira de nossa filiação com o Senhor é fruto de Sua graciosa eleição, e não de nosso livre querer achegar-se a Ele.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Sétimo elemento constitutivo do culto público: Cântico de Salmos (parte 7 - Respondendo as Objeções) - Sermão pregado dia 19.02.2012



Sétimo elemento constitutivo do culto público:
Cântico de Salmos (parte 7 - Respondendo as Objeções) - 
Sermão pregado dia 19.02.2012

Certamente que todos nós somos testemunhas vivas de como o Senhor tem sido bondoso para conosco, a ponto de transformar nossas mentes e corações e nos levar a uma melhor compreensão de Sua magnitude e de como o Seu culto deve ser conduzido.

Desejo hoje lhes expor algumas respostas às objeções comuns que são levantadas quanto à salmodia exclusiva e outras poucas quanto ao uso de instrumentos. Certamente que o tempo não nos proporciona elasticidade adequada para verificarmos todas as objeções e nuances que perpassam esses quesitos, mas penso que podemos fazer grande proveito em analisarmos e respondermos as principais delas.

Quanto à Salmodia Exclusiva:

1. A linguagem usada é difícil de entender.

"Porém tu exaltarás o meu poder, como o do boi selvagem. Serei ungido com óleo fresco" (Sl 92.10), "É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desce sobre a barba, a barba de Arão, e que desce à orla das suas vestes" (Sl 133.2).

Nenhum dos advogados da salmodia exclusiva alega que todos os Salmos sejam de igual compreensão ou ainda que não haja dificuldade em os cantarem, contudo todos defendem de que assim como existem partes de difícil compreensão na Lei, no Evangelho e nas Doutrinas, também nos Salmos residem pontos que exigem uma melhor explanação antes de serem cantados. Quer dizer, ninguém deixa de ler as epístolas de Paulo só porque não consegue entender determinada parte. Também é preciso notar que os Salmos foram escritos para um povo sem conhecimento das letras, isto é, iletrado, de origem quase que rural, com pouca instrução "acadêmica" (segundo nosso ponto de vista).

Tal qual quando se prega sobre algum texto, assim também é necessário que por vezes o pastor explique qual o significado do Salmo que será cantado para que a congregação possa cantar em uníssono e com entendimento no coração (assim como deve receber a palavra pregada com entendimento).

2. Jesus não está representado nos Salmos.

Essa é uma grande mentira proclamada pelos não adeptos da salmodia exclusiva - mas poderia ser verdade? A dúvida logo encerra-se com as próprias palavras de Cristo: "E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos" (Lc 24.44). 

James R. Hughes comenta: "A única parte da acusação que está correta é quanto à semântica, pois o nome 'Jesus' de fato não aparece nos Salmos. [Contudo] A pessoa e obra de Jesus aparecem através dos Salmos... Traição (Sl 41.9 [Jo 13.18]), Agonia no Jardim (Sl 22.2 [Hb 5.7]), Julgamento (Sl 35.11 [Mt 26.59, 60]), Rejeição (Sl 22.6 [Mt 27.21-23; Lc 23.18-23]), Crucificação (Sl 22, 69), Sepultamento e Ressurreição (Sl 16.8-11 [At 2.25-31], Ascensão e Retorno (Sl 47.5 [At 1.11; 1Ts 4.16]; 24.7-10 [Ap 5.6-14])... Jesus [também] aparece nos Salmos em forma dos nomes: 'Senhor' (Sl 2.4; 110.1), 'Ungido' (Sl 2.2), 'Rei' (Sl 2.6; 24.8; 98.6) e 'Salvador' (Sl 25.2; 42.5). [1]

3. A Trindade não está explícita nos Salmos

É lamentável que muitos ainda precisem achar "versículos prova" para tudo, isto é, tais pessoas são como caçadoras de versículos isolados; para estas, se não houver um versículo específico e que descreva literalmente o que devemos fazer, então toda a argumentação será infundada. Contudo, tais homens não percebem que muitas doutrinas bíblicas não estão apoiadas em "versículos prova", tais como o batismo infantil, o participar da ceia pelas mulheres, o cantar da congregação pelas mulheres...

"O saltério [nome dado ao conjunto de Salmos] foi o hinário de louvor usado por Jesus e seus apóstolos - isso, portanto, deve provar a forma de se louvar com respeito à Trindade e que Deus requer e se agrada... [no Antigo Testamento] 'O Espírito Santo trabalha de forma anônima no plano de fundo, não falando ou trazendo glória para si mesmo, mas testificando de Cristo, o Filho'... Jesus, na oração ensinada aos seus discípulos (Mt 6.9-13), nos deu um exemplo de como devemos nos aproximar em adoração com respeito à Trindade. Nessa oração Ele não falou em orar ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Nós também nunca O encontraremos tratando em oração ao Espírito Santo, embora ensine para nós que o dirigir a oração em nome de Jesus seja válido (Mt 14.33; Mc 9.24; Jo 9.38; At 2.21; 7.59; 22.16; 1Co 1.2). Onde Deus deseja ser reconhecido explicitamente como uma Trindade, Ele o faz de maneira clara através dos ensinamentos e exemplos de Jesus Cristo e dos Apóstolos - i.e., na formulação do batismo (Mt 28.19) e nos tempos de bênção (2Co 13.14). Afirmar que usar apenas os Salmos impede a adoração, é acusar Deus de não saber como Ele deseja ser tratado e adorado nas canções de louvor. [2]

4. Nos Salmos não há menção aos atributos de Deus.

Talvez essa seja uma das afirmações mais inverídicas que alguém possa levantar, pois os Salmos estão recheados de dizeres que magnificam e engrandecem o nome do Senhor. Eles falam sobre a "auto existência (Sl 33.11; 115.3), onipotência (Sl 115.3; 145.3; 146.6), onipresença (Sl 139.7-10), onisciência (Sl 1.6; 94.9; 119.168; 139.1-4), sabedoria (Sl 19; 104), soberania (Sl 2; 47; 50; 95; 98), poder criador (19; 33; 136; 104; 146), providência (Sl Sl 22.28; 104.14 [específico]; 104 [em geral]), bondade (Sl 36.6, 9; 104.21; 145.9, 15, 16), amor (Sl 6.4; 103.8), ódio pelo pecado (Sl 5.4; 11.5), justiça (Sl 1.7; 7.9; 119.137), julgamento e punição do ímpio (Sl 1.4, 5; 7.11; 9.16; 11.6; 59.13; 98.9)... [3]

5. Os Salmos não são adequados à musicalidade do século XXI.

Não desejando ser ríspido ou com aparência rude, mas a Bíblia não se importa com a musicalidade de hoje, dos tempos passados ou ainda dos anos que virão. As Escrituras nos ensinam firmemente que "Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação" (Tg 1.17), isto é, as Escrituras - por advirem do Eterno - têm caráter imutável, atemporal e não condicionado, sejam por novas "modas musicais" ou por homens vis e perversos que não tenham prazer em cantar as Escrituras. Em nenhum momento a Bíblia nos dá a liberdade para moldarmos Sua palavra de acordo com o tempo em que vivemos - essa foi a crítica de Jesus aos fariseus ao dizer: "E assim invalidastes, pela vossa tradição, o mandamento de Deus" (Mt 15.6; Mc 7.9). Gostemos ou não do "estilo dos salmos" (isto é, a cappella), o mandamento do Senhor não deixará de existir.

6. Os Salmos contêm uma linguagem de ódio e guerra contra os inimigos.

"Ele faz cessar as guerras até ao fim da terra; quebra o arco e corta a lança; queima os carros no fogo" (Sl 46.9), "E por tua misericórdia desarraiga os meus inimigos, e destrói a todos os que angustiam a minha alma; pois sou teu servo" (Sl 143.12).

É verdade que muita da literatura salmódica é expressa em forma de guerra e batalhas reais; e isso não deveria nos espantar, pois muitos dos Salmos foram escritos justamente em tempos de aflição e de batalhas físicas, aonde o reino de Israel ia à peleja contra seus inimigos e rogava ao Senhor que os protegesse e desse vitória. Porém, essa também não é uma objeção válida, pois se anteriormente o inimigo era "físico", isto é, os povos alheios ao pacto do Senhor eram sinônimos de inimigo - nações cuja ira do Senhor não era branda -, agora nos tempos do Novo Testamento somos informados de que "não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais" (Ef 6.12). Logicamente que o apóstolo Paulo não está a nos instruir de que não existiam mais inimigos físicos a serem combatidos, e sim de que já não vivemos mais naqueles tempos de Israel, onde agora devemos amar o próximo e todo aquele que não faz parte de nossa "etnia cristã". Também lembramos que embora não tenhamos mais guerras físicas, ainda temos uma guerra a ser travada constantemente contra o pecado.

7. Se fazemos nossas orações, por que não podemos fazer canções?

É preciso entender que cada área da Escritura tem um "campo de atuação". O que quero dizer com isso é que não podemos usar sempre o mesmo argumento para diferentes situações. Conforme já explanado em outro lugar (clique aqui para ler), vemos o seguinte exemplo dessa distinção: enquanto para ser ministro do Senhor se faz necessário não ser neófito (novo na fé), para a carreira civil isso não é requerido (ainda que possa ser aconselhável - caso seja um crente que venha a assumir o posto); enquanto o governo eclesiástico é formado por crentes em Cristo Jesus, o governo civil muitas vezes é praticado por homens não tementes a Deus; o governo eclesiástico pode e deve aplicar a disciplina àqueles membros que não se sujeitam à sã doutrina, mas o governo civil não tem parte nesse assunto, pois essa disciplina compete à igreja do Senhor; o fato do governo eclesiástico não ter autorização para eliminar o malfeitor da sociedade, não significa que o governo civil também não tenha essa autorização e incentivo para que erradique o malfeitor da sociedade. 

A Bíblia não nos legou um livro de orações - ainda que nos tenha dado modelos de várias orações de seus servos -, porém nos deixou registrado o livro de canções (o hinário) da Igreja primitiva. Muitos homens têm argumentado que tanto as orações como as canções são constituídas de palavras, sendo assim (segundo eles) o uso de hinos não inspirados é permitido no culto público ao Senhor. Contudo, "orações e canções são similares do mesmo modo que elefantes e camundongos o são (isto é, eles são cinzas, eles têm quatro patas, eles têm uma cauda, eles são mamíferos, etc), embora sejam tipos diferentes de animais... Paulo diz que a mulher não deve ensinar num ambiente de adoração (1Co 14.33-35; 1Tm 2.11-12). Se pregar, cantar e orar são nada mais que modos diferentes de 'palavra' na adoração - conforme alguns dizem -, então à mulher não deve ser permitida o orar ou cantar [isto é, se deve ficar calada, não há exceção, ainda que seja para orar consigo mesma - segundo essa lógica]. Muitos daqueles que concordam com os princípios Presbiterianos e Reformados sustentam a visão de que às mulheres não é permitido pregar, mas eu não conheço um só que não as permita cantar os Salmos". [4]

8. A Bíblia contém outras canções além dos Salmos.

"Toda a Escritura é inspirada por Deus (2Tm 3.16). Contudo, algumas porções foram dadas através de extraordinária revelação em vez de serem escritas por homens 'impelidos pelo Espírito Santo' (2Pe 2.21; Hb 1.1) [o autor não está a dizer que essas partes não foram inspiradas, apenas que foram "fora do padrão", isto é, de modo extraordinário, acontecido em casos isolados...]. Nós não temos meios de determinar quais partes das Escrituras devem ser cantadas. Seriam somente as seções poéticas, ou apenas as poéticas das quais gostamos? Por exemplo, deveríamos cantar as palavras de Balaão? Ele não foi um verdadeiro profeta de Deus, mas as palavras que ele falou foram inspiradas por Deus (Nm 23.12). O critério para se selecionar quais porções da Bíblia podem ser cantadas no louvor é fruto da mera subjetividade. Isso é contrário ao princípio primordial que estamos considerando - que Deus regula a sua própria adoração.... Em Sua providência superintendente, Deus preparou os Profetas e Apóstolos para entregar e montar Suas palavras escritas. Quando o Saltério estava sendo montado, nem os cânticos de Moisés no Êxodo, nem a canção de Miriã (se é que ela escreveu alguma), nem a canção de Débora ou Habacuque foram inclusas. Embora sejam partes partes da Escritura, essas canções não foram inclusas durante o desenvolvimento do hinário que foi usado na adoração do Templo e provavelmente [também] na Sinagoga. Era Deus quem por fim iria determinar quais canções estariam inclusas no Saltério, e não os judeus piedosos... Sob a economia do Novo Testamento, nós somos explicitamente e claramente ensinados pelos Apóstolos e Profetas neotestamentários a cantar as canções encontradas no Saltério (Ef 5.19; Cl 3.16; Tg 5.13) e nos é dado o exemplo de Jesus cantando-os (Mt 26.30). Nós não somos ensinados a cantar a canção de Moisés registrada em Deuteronômio 32 ou a de Habacuque (capítulo 3)". [5]

Quanto ao Uso de Instrumentos:

1. Os instrumentos fazem parte das "coisas indiferentes".


Muitos têm argumentado que os instrumentos dizem respeito às adiaforias [6] (do grego, adiaphora - coisas indiferentes), como que sugerindo que assim como a Bíblia deixa "livre" o usar banco ou cadeira, púlpito de madeira ou acrílico, tapetes marrons ou cinzas - pois essas coisas são indiferentes, isto é, variam conforme a localidade e gosto -, também temos a liberdade de usar ou não instrumentos, pois seria uma simples questão de conveniência.

Devemos lembrar que para algo ser indiferente no Novo Testamento, ele também deve assim o ser no Antigo. Quer dizer, o Antigo Testamento não prescreve sobre a necessidade de se usar casacos em dia de frio, ou ainda sobre a necessidade de manter-se alimentado, pois essas coisas são comuns a todos os seres humanos. Contudo, conforme já vimos anteriormente, o Senhor prescreveu o uso de instrumentos no Seu Santo Templo, nos indicando que essa não uma questão adiafórica, isto é, assim com não era lícito aos levitas tocarem algo não ordenado pelo Senhor, e visto que o Novo Testamento é silencioso quanto ao uso dos instrumentos (mas não quanto à mudança dos elementos - de visíveis para espirituais, das sombras para a realidade), compreendemos que os Instrumentos estavam ligados à revelação e ordem dada pelo Senhor - e não como sendo parte de algo indiferente.

2. Os instrumentos servem apenas para acompanhar o cantar.


Quando ensinamos sobre a proibição de se usar instrumentos, ainda que falemos que eles muitas vezes servem quase que como para intermediar o povo com o Senhor (como se servissem para essa "ajuda" de fazer o louvor "subir"), a argumentação primordial não é de que eles possam distrair, atrapalhar ou ajudar o cântico. A ordem para não se usá-los é baseada nas prescrições dadas pelo Senhor.

"Então no mês sétimo, aos dez do mês, farás passar a trombeta do jubileu; no dia da expiação fareis passar a trombeta por toda a vossa terra" (Lv 25.9). A ordem do Senhor foi clara: "farás passar a trombeta do jubileu" (grifo meu). A Escritura nos diz que o instrumento a ser tocado era a trombeta, isto é, não era dada a possibilidade se tocar outro ou ainda inventar-se uma nova maneira de "fazem barulho". A Bíblia não nos informa, mas seria muito provável que se o portador da trombeta em vez de tocá-la resolvesse gritar bem alto, seria eliminado pelo Senhor [7] - mas por quê? Porque foi o Senhor quem proclamou e instituiu o tocar da trombeta (assim como durante os sacrifícios no templo). Ele ordenando, devemos tão somente obedecê-Lo.

3. Talvez a igreja primitiva tenha usado instrumentos.


Talvez a igreja primitiva tenha usado instrumentos. Talvez Moisés tenha comido um ensopado de peixe. Talvez Balaão tenha tido mais de uma mula. Talvez o apóstolo Paulo tenha ajudado a construir um barco... São muitos os "talvez" que poderiam surgir das Escrituras, e é justamente por isso que não somos autorizados a nos pautar pela mera possibilidade, pois se assim fosse, que autoridade a Bíblia teria se pudéssemos ficar nos guiando por aquilo que achamos que supostamente tenha acontecido? Certamente que se aprouve ao Senhor inspirar toda Escritura (2Tm 3.16), é somente do que nela está contido que devemos nos deixar ensinar. A curiosidade é para os irresponsáveis e desejosos de sobrepujaram a palavra do Senhor; não nos pautamos por conjecturas, mas pela palavra do Senhor - "À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles" (Is 8.20).

Notas:
[1] HUGHES, James R. - In Spirit and Truth: Worship as God Requires (Understanding and Applying he Regulative Principle of Worship), pág. 64 - tradução livre.
[2] Ibid, pág. 65 - tradução livre.
[3] Ibid, pág 66 - tradução livre.
[4] Ibid, pág 74 - tradução livre.
[5] Ibid, pág 77 - tradução livre.
[6] Para mais, veja o artigo escrito por Ian Murray - clique aqui
[7] Exemplo dado pelo irmão e Rev. Ademir Moreira - em conversa via e-mail.

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