"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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terça-feira, 29 de novembro de 2011

Cinco características de uma Falsa Paz


1. Qualquer paz que não traga com ela ódio ao pecado que tem perturbado sua paz é falsa.

A paz que Deus fala à alma sempre traz com ela um sentimento de vergonha, e um santo desejo de mortificar seus desejos pecaminosos. Se olhar para Cristo, a Quem seu pecado traspassou (se não fizer isso não haverá nem cura e nem paz) você deve prantear (veja Zac. 12:10). Quando você vai a Cristo buscando cura, sua fé repousa em um Salvador ferido e traspassado. Ora, se fizer isso na força do Espírito Santo, ser-lhe-á dado ódio pelo pecado que tem perturbado sua paz. Quando Deus nos dá a paz a alma se envergonha dos diversos modos como o pecado tem estragado nossa paz com Deus (Ez. 16:59-63).

E possível estarmos perturbados pelas consequências do pecado, mesmo sem odiarmos o próprio pecado. Na sua perturbação você pode estar buscando a misericórdia de Deus e ao mesmo tempo se apegando ao pecado que ama. Por exemplo: sua consciência o convence de estar amando o mundo. Esse modo de buscar misericórdia nunca lhe trará paz verdadeiramente sólida. As palavras de Deus: "Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele" (1 João 2:15) perturbam sua paz. Na sua perturbação, você se volta para Deus para que Ele cure sua alma, porém está mais preocupado com as consequências do seu amor pelo mundo do que com o mal desse amor. Esse é um mau sinal! Talvez seja salvo; no entanto a não ser que Deus por Suas ações especiais o faça realmente odiar o pecado, você terá pouca paz nesta vida.

2. Qualquer paz que não seja acompanhada pela ação do Espírito convencendo do "pecado e da justiça e do juízo" é uma falsa paz.

A Palavra de Deus nunca fala de paz "somente em palavras", ela vem no poder do Espírito Santo. A paz de Deus de fato cura a ferida. Quando nos damos a nós mesmos uma falsa paz, não passará muito tempo até que o pecado que havia perturbado nossa paz apareça outra vez.

Como regra geral, Deus espera que Seus filhos aguardem até que estejam certos que Ele lhes deu a paz. Como disse o profeta Isaías: "Esperarei no Senhor, que esconde o seu rosto da casa de Jacó, e a ele aguardarei" (Is. 8:17). Deus pode curar a ferida do pecado num instante. Contudo, às vezes, como um médico, Ele gasta tempo limpando a ferida completamente para que ela se cure adequadamente. Aqueles que dão uma falsa paz para si mesmos nunca têm tempo para esperar que Deus faça Sua obra completa. Tais pessoas correm para Deus buscando paz e presumem que ela foi concedida no momento em que a pediram. Não há aquele esperar para que o Espírito de Deus cure a ferida do pecado completamente.

A paz de Deus dulcifica o coração e dá gozo à alma. Quando Deus fala paz, Suas palavras não são apenas verdadeiras, mas elas fazem bem à alma. "Sim, as minhas palavras fazem o bem" (Miq. 2:7). Quando Deus fala paz, ela guia e guarda a alma de modo que não retorne à insensatez (Sal. 85:8). Quando as pessoas falam paz para si mesmas, o coração não é curado do mal e, elas continuam num estado de transvio. Quando Deus fala paz, vem junto uma percepção tal do Seu amor, que a alma se sente obrigada a mortificar os desejos pecaminosos.

3. Toda e qualquer paz que trate do pecado de um modo superficial é uma falsa paz.

Como já vimos antes, esta é a queixa que Jeremias fez dos falsos profetas do seu tempo. "Paz, paz" eles dizem, "quando não há paz" (Jer. 6:14). Da mesma maneira, algumas pessoas fazem da cura de suas feridas pecaminosas uma obra fácil. Olham para algumas promessas das Escrituras e pensam que estão curadas. Uma promessa das Escrituras só pode efetuar o bem quando misturada com a fé. (Heb. 4:2). Não se trata de um mero olhar para a palavra de misericórdia e, pronto, isso traz a paz. O olhar precisa estar misturado com a fé até que você a tenha apropriado para si. De outra maneira, qualquer paz que tenha obtido é uma falsa paz. Neste caso não vai demorar muito até que sua ferida se abra novamente e você fique sabendo que ainda não está curado.

4. Qualquer paz que trate do pecado de uma maneira parcial é falsa.

O cristão sincero não buscará apenas estar em paz com seus desejos pecaminosos que mais o perturbam. Tentar lidar com o pecado que mais o atormenta, sem lidar também com aqueles pecados que o perturbam menos, realmente seria tratar do pecado com parcialidade. Qualquer paz que pareça vir de se lidar com o pecado dessa maneira é falsa. Só podemos esperar a paz de Deus quando tivermos respeito igual por todos os Seus mandamentos. Deus nos justifica de todos os nossos pecados. Deus nos manda abandonarmos todos os nossos pecados. Ele é um Deus de olhos puros e não pode olhar para a iniquidade.

5. A paz de Deus é uma paz que nos humilha, como aconteceu no caso de Davi (veja Sl 51:1).

Pense na profunda humilhação sentida por Davi quando Nata lhe trouxe a palavra perdoadora de Deus (2 Sam. 12:13).

Por John Owen

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Quinto elemento constitutivo do culto público (parte 2): Administração dos Sacramentos (batismo) - Sermão pregado dia 27.11.2011


Quinto elemento constitutivo do culto público (parte 2):
Administração dos Sacramentos (batismo) -
Sermão pregado dia 27.11.2011


Amados irmãos, dando continuidade ao que vimos, hoje trataremos sobre a segunda parte da administração dos Sacramentos, a saber, o batismo. Para seguirmos nesse ponto, é necessário que compreendamos alguns quesitos importantes sobre o batismo.

Em primeiro lugar, a Bíblia nos revela que desde o Antigo Testamento, Deus havia feito uma aliança com o seu povo: "E andarei no meio de vós, e eu vos serei por Deus, e vós me sereis por povo" (Lv 16.12). Essa aliança não significava um contrato entre Deus e o povo, no sentido de que Deus "ofereceu-Se" ao povo e eles o escolheram, mas tão somente foi uma atitude ativa de Deus em escolher o povo israelita para ser o seu povo e ele lhes prometeu ser o seu Deus e os guiar. 

Em segundo lugar, vemos que essa aliança denotava uma série de benefícios ao povo, mas também lhes requeria uma grande quantidade de observância quanto à lei do Senhor: "Tudo o que eu te ordeno, observarás para fazer; nada lhe acrescentarás nem diminuirás" (Dt 12.32). Também se vê que o povo deveria observar as ordenanças do Senhor como fruto de ter sido o povo escolhido por ele: "Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos, porque toda a terra é minha" (Êx 19.5).

Em terceiro lugar, uma dessas obras da aliança que o povo deveria seguir era a de circuncidar os seus filhos quando nascessem: "E circuncidareis a carne do vosso prepúcio; e isto será por sinal da aliança entre mim e vós" (Êx 17.11). Contudo, não deveria ser circuncidado apenas o filho nascido de pais judeus, mas todo aquele que viesse a viver e partilhar das mesmas atividades que eles: "Com efeito será circuncidado o nascido em tua casa, e o comprado por teu dinheiro; e estará a minha aliança na vossa carne por aliança perpétua" (Gn 17.13 - grifo meu). Tal aliança era tão importante para Deus que ele condenava a não circuncisão, isto é, não era um conselho de sua parte, mas um firme mandamento a ser seguido: "E o homem incircunciso, cuja carne do prepúcio não estiver circuncidada, aquela alma será extirpada do seu povo; quebrou a minha aliança" (Êx 17.14).

Observamos então, que tanto o filho do judeu como o estrangeiro que viesse a viver com eles, deveria ser circuncidado, mas não apenas isso, era ordenado aos pais que ensinassem todas as coisas que haviam recebido do Senhor para os filhos: "E as ensinarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te" (Dt 6.7), ou seja, em todo o tempo e em todas as horas, o filho deveria ser instruídos nas coisas do Reino, para que mais tarde pudesse a vir confirmar - mediante boas obras, como fruto da sua circuncisão - aquilo que havia recebido quando recém-nascido. Esse ponto pode ser confirmado ao lermos: "Também dirás aos filhos de Israel: Qualquer que, dos filhos de Israel, ou dos estrangeiros que peregrinam em Israel, der da sua descendência a Moloque, certamente morrerá; o povo da terra o apedrejará" (Lv 20.2). 

É importante notar que em lugar algum das Escrituras encontraremos algum versículo dizendo que o fato de serem circuncidados os tornava automaticamente salvos para sempre (como no versículo acima). A circuncisão do povo de Israel era uma aliança que Deus havia feito com o povo e este ato externo era o selo da aliança, isto é, circuncidava-se todo aquele que nascia debaixo do povo de Israel como forma de atestar que aquela criança havia nascido debaixo da bênção do Senhor e não debaixo da maldição do Senhor - como ocorria aos outros povos.

Desse modo, compreendemos que o Antigo Testamento nos ensina duas ocasiões em que dever-se-ia operar a circuncisão: em todo homem nascido de pais judeus e em todo estrangeiro que fosse comprado pelo povo. Ademais, ainda encontramos o testemunho de inúmero judeus sendo mortos pelo Senhor - quer em batalhas, quer de modo divino -, o que nos ensina que a circuncisão operada em sua carne, ainda que fosse um selo da bênção de Deus sobre todo o povo, não transferia a salvação independente de boas obras (novamente, conforme lemos anteriormente), antes, era um incentivo para as boas obras, isto é, todo aquele que havia sido circuncidado, a medida que ia sendo instruído por seus pais (ou por seu senhor, no caso dos escravos), deveria ir demonstrando que de fato o selo da bênção de Deus estava se fazendo presente em sua vida, de modo que aquele símbolo da aliança com Deus não estava sendo anulado em sua vida, mas antes, confirmado.

No Novo Testamento, como bem sabemos, a palavra da salvação foi ampliada para todas as nações dispersas por todo o mundo, o que nos leva a um problema: como viverão os gentios (os não judeus) diante das promessas e ordenanças que Deus havia dado aos judeus? Ou ainda: baseado em que lei os gentios convertidos iriam viver? Na lei de sua cultura? Na das circunstâncias? Ou na dos judeus? Certamente que os gentios não eram habituados à lei judaica, aliás, coisa alguma sabiam sobre ela, contudo, em lugar algum das Escrituras vemos que o Senhor nos diz que a sua lei moral (seus 10 mandamentos e suas leis não cerimoniais) foi abolida porque o evangelho chegou aos judeus, e sim nos diz que os gentios agora são como que judeus adotivos - tal qual era o estrangeiro que passava a morar no meio do povo de Israel:  "Porque, se tu foste cortado do natural zambujeiro [falando dos gentios] e, contra a natureza, enxertado na boa oliveira, quanto mais esses [os judeus], que são naturais, serão enxertados na sua própria oliveira!" (Rm 11.24).

Paulo está dizendo aos romanos que não é porque os judeus recusaram a mensagem da salvação que eles não podem ser salvos, e por isso lhes diz: "Porque, se Deus não poupou os ramos naturais, teme que não te poupe a ti também. Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas para contigo, benignidade, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira também tu serás cortado. E também eles, se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados; porque poderoso é Deus para os tornar a enxertar" (Rm 11:21-23). Com isso, ligamos com o versículo que vimos anteriormente (v. 24) e percebemos que os gentios não estão autorizados à infringir a lei do Senhor, ainda que não à conhecessem totalmente (mas tinham o dever de conhecê-la).

"E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa" (Gl 3.29). Observamos que mais uma vez o apóstolo orienta os crentes na direção de que eles são herança de Deus, ainda que gentios! Essa afirmação de Paulo é fruto da promessa que Deus havia feito a Abraão há muito tempo atrás: "E multiplicarei a tua descendência como as estrelas dos céus, e darei à tua descendência todas estas terras; e por meio dela serão benditas todas as nações da terra" (Gn 26.4 - grifo meu). Ora, só existia uma nação abençoada por Deus antes do advento de Cristo, a saber, os judeus. Porém, Deus havia prometido que um dia abençoaria todas as nações da terra por meio dos filhos de Abraão. Então, que grande bênção nos acompanha! Mas essa bênção também requer deveres, assim como ao povo judeu.

Dito isso, precisamos agora analisar o que a Bíblia nos diz sobre o batismo.

As Escrituras nos revelam que o batismo foi o substituto da circuncisão: "No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos" (Cl 2:11-12). Ainda em outro lugar Paulo nos diz: "Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus" (Rm 2:28-29). Neste último, Paulo confirma o que dissemos anteriormente, isto é, que os gentios são como que judeus (no sentido de também poderem desfrutar das bênção de Deus), mas não por causa do exterior, mas sim do interior que foi modificado pela graça de Cristo e confirmado mediante o batismo.

Em certo momento, disse Jesus a Nicodemos: "Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus" (Jo 3:5). Vejamos: Nicodemos era judeu e certamente circuncidado, então, por quê Jesus lhe diz que ele deveria nascer da água e do Espírito se quisesse entrar no reino de Deus? Ora, o que Jesus estava a lhe transmitir era que a circuncisão de Nicodemos não tinha valor algum diante do batismo que Jesus havia vindo operar em todos os seus, isto é, se antes a regra era para que se circuncidasse, com a vinda de Cristo e seu batismo (lembrem-se que Jesus também foi circuncidado), tornou-se obsoleta a sombra do elemento e veio à tona o próprio elemento, a saber, o batismo nas águas.

Isto posto, surgem alguns questionamentos sobre como se deve fazer o batismo, isto é, de um lado temos o Antigo Testamento nos mostrando que tanto as crianças como os adultos que eram admitidos no povo judeu deveriam ser circuncidados, e do outro lado temos o Novo Testamento nos dizendo que iam sendo batizados os crentes em Cristo Jesus, ou seja, aqueles que professavam a fé e arrependiam-se dos seus pecados é que eram batizados. Para nos desvencilharmos dessa situação, é importante analisarmos as seguintes prerrogativas:

1. A Bíblia nos ensina que o fato de sermos gentios não invalida a lei de Deus.

"Mestre, qual é o grande mandamento na lei? E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas" (Mt 22:36-40).

Observamos que, ao contrário do que muitos professos da fé cristã pensam, os dez mandamentos (e sua lei) não foram abolidos pelo Senhor, mas sim que nesse ponto Jesus apenas os resumiu, isto é, apenas disse ao mestre fariseu que os dez mandamentos eram divididos em duas partes: do mandamento 1 ao 4 como sendo com relação a Deus e do 5 ao 10 com relação ao próximo. Jesus nada falou acerca de que não existem mais os dez mandamentos, muito pelo contrário, ele veio para cumprir a lei em nosso lugar e não para destruí-la! "Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir" (Mt 5.17). Jesus não fala em momento algum que o fato de ele ter cumprido a lei por nós, nos deixa isentos de buscar cumpri-la. A lei veio para expor o pecado - "Que diremos pois? É a lei pecado? De modo nenhum. Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás" -  e condenar o homem, mas Cristo veio cumpri-la para que nós pudéssemos viver por ele, mas também continuar praticando àquilo que ele deixou registrado. Não que as obras da lei nos salvarão, mas sim que por meio delas expressaremos aquilo que foi operado em nossos corações.

2. A Bíblia NÃO nos ensina que o batismo salva, mas sim que confirma a salvação já efetuada.

"[Abraão] recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé, quando estava na incircuncisão, para que fosse pai de todos os que crêem, estando eles também na incircuncisão; a fim de que também a justiça lhes seja imputada" (Rm 4:11).

Ainda que a ênfase de Paulo seja que porque Abraão foi aceito pelo Senhor mesmo estando incircunciso e que por isso os gentios igualmente poderiam ser, Paulo também diz aos romanos que a circuncisão de Abraão foi posterior à sua fé, isto é, primeiro Abraão creu, e depois foi circuncidado. Esse é o ponto de suma importância para compreendermos o batismo, pois se assim não procedermos, cairemos na teologia pagã que diz que não é possível alguém ser salvo sem o batismo - que dirá tal pessoa sobre o ladrão da cruz que não foi batizado nem ceiou? Com isso, não estou advogando que não devemos batizar, muitíssimo pelo contrário! O que estou a dizer é que deve-se sim batizar, mas que não deve-se crer que esse ato seja o que transfira a salvação à pessoa. Se porventura alguém for evangelizado em meio ao deserto e não há água alguma, como poderá ser batizado? Ora, certamente que ninguém seria louco de ultrajar as Escrituras e dizer que se poderia batizar com areia. Se, portanto, nesse caso o batismo fosse inviável, acreditaríamos que tal pessoa não poderia ser salva por que lhe era impossível ser batizada? Certamente que não.

3. A Bíblia nos ensina que o batismo deve ser ministrado também às crianças.

"Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e todos passaram pelo mar. E todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar" (1 Co 10:1-2).

Talvez nesse ponto seja onde resida a maior discussão sobre esse tema, mas nem por isso precisamos nos desesperar. Muitos têm objetado contra essa doutrina, dizendo que não há sequer um só relato no Novo Testamento que nos diga que as crianças haviam sido batizadas, mas se isso for verdade, o que dizer sobre a falta de relato neotestamentário acerca das mulheres tomando a ceia? Ou ainda, sobre elas cantando no culto público? Será que algum defensor do batismo somente para adultos deixaria de fora da ceia e do cântico as mulheres, tão somente por que não temos algum versículo específico sobre isso? Ora, certamente que eles entendem que as mulheres podem sim serem admitidas na ceia do Senhor e também entoarem louvores ao seu nome, mas então, por quê não admitem o batismo infantil?

Creio que uma das causas dessa rejeição seja porque não compreenderam que os crentes de hoje são herdeiros de Abraão e participantes da mesmíssima herança que foi dada a eles. Assim como a aliança feita com o povo judeu lhes concedia bênçãos até mesmo para os infantes, também nós hoje podemos ter a certeza de que nossos filhos NÃO são estranhos à bênção do Senhor, mas co-participantes.

Outro ponto ainda a ser notado é: Jesus veio para melhorar ou piorar a situação dos crentes em seu nome? Se veio para melhorar, por que é que ele pioraria a situação dos filhos do crentes? Se no Antigo Testamento a criança era participante do povo de Deus, que razões haveria para que nossos filhos não fossem também guardados pelo Senhor, sendo que também somos herdeiros de Abraão e co-participantes de sua promessa?

Para outra coisa ainda temos de atentar: "E se alguma mulher tem marido descrente, e ele consente em habitar com ela, não o deixe. Porque o marido descrente é santificado pela mulher; e a mulher descrente é santificada pelo marido; de outra sorte os vossos filhos seriam imundos; mas agora são santos" (1 Co 7:13-14 - grifo meu). Paulo está dizendo claramente que os filhos de pais crentes - ou de apenas de um deles - é santificado mediante a família em que foram gerados, isto é, quando os pais crentes batizam seus filhos, eles o estão incluindo na bênção de Deus e no pacto que o Senhor fez com o seu povo.

Assim como vimos que a circuncisão não salva qualquer pessoa, da mesma forma o batismo não confere tal poder, devendo ser demonstrado ao longo da caminhada vivencial aquilo que a criança vem aprendendo de seus pais (assim como era feito no Antigo Testamento).

Semana que vem trataremos sobre o porquê dos judeus haverem sido batizados, mesmo que já haviam sido circuncidados e a validade dos batismos.

Que Deus nos abençoe.
Amém.

sábado, 26 de novembro de 2011

O Pecado é Irreversível


Que o pecado é um ato contrário às leis de Deus, todo crente é consciente (ou deveria ser). Contudo, o problema maior funda-se no errôneo entendimento que muitos homens têm acerca do pecado, isto é, acham que ele é reversível. Creem que o homem, de alguma maneira pode consertar, remendar ou até mesmo substituir o seu pecado por algo aprazível a Deus.

Estou a fazer uma pequena reforma em meu apartamento e, como toda reforma que se preze, sempre há algo que acaba entortando, rachando, quebrando, lascando e assim por diante. O que aconteceu foi que, sem querer, acabei lascando uma parte de um azulejo do banheiro - resultado: um azulejo eternamente danificado. De nada adiantará procurar por algum substituto, pois o apartamento é antigo e não há mais desses azulejos para vender - traduzindo: resultado irreversível. Terei de me acostumar com aquele pedaço lascado.

De forma muitíssimo semelhante é o nosso ser pecaminoso. Constantemente infringimos a santa palavra do Senhor, "lascamos" a sua lei, o seu evangelho e os seus decretos para conosco, mas muitas vezes tentamos consertar o erro colocando alguma boa obra por cima, várias orações consecutivas, maior dedicação à igreja, visita a irmãos enfermos... como se algo desta natureza pudesse reparar o dano causado.

A Bíblia nos ensina claramente que é somente pelo sangue de Cristo que somos sarados - "Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados" (Is 53:5) - devendo nos motivar a não tentar consertar o pecado por nossas próprias forças, mas, sim, buscar o perdão do mesmo.

Tentar consertar o pecado cometido contra o Deus três vezes santo, é da mesma inutilidade que tentar consertar o meu azulejo lascado, pois de modo algum poderemos achar a "lasca perfeita" para consertar o estrago. Mas, graças ao Pai que enviou seu Filho e que nos deixou Seu Espírito Santo, hoje nós podemos desfrutar do perdão dos pecados, não por nossos "remendos", mas pela Sua graça.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O que significa receber a Cristo?


Receber a Cristo, não é somente, como alguns comentadores afirmam equivocadamente, receber sua doutrina; embora seja certo que sua doutrina deva ser recebida, e que o resto está implícito nisso. Mas quando o entendimento aquiesce em receber  o evangelho, a vontade, de comum acordo, igualmente o recebe; e receber a Cristo inclui ambos. Esta é a verdadeira fé justificadora dos eleitos de Deus. 

Não se trata, portanto, de uma recepção passiva, como a madeira recebe o fogo, e as nossas almas recebem as graças do Espírito; mas, sim, de uma recepção moral ativa. Receber a Cristo como Cristo, como o Messias ungido, e como nosso Salvador e Senhor, é crer que ele é tudo isso, e consentir que ele seja tudo isso para nós, e confiar nele, e confiar-nos a ele como tal. Se vocês acreditam sinceramente que o evangelho é verdadeiro, esta fé tem que ser suficientemente forte para vos levar à determinação de confiarem a felicidade de vocês à esta fé, e a abdicarem a tudo pela esperança que é colocada diante de vocês. Se Cristo, na sua relação como pleno e perfeito Salvador, for recebido de coração por vocês; se vocês anuírem à oferta do evangelho, e estiverem verdadeiramente desejosos de ser dele, fé não é apenas mencionada como “receber a Cristo”, mas é também freqüentemente expressa em termos de “querer Cristo”. 

Portanto, a promessa é para todos quantos quiserem; e aos ímpios é negado terem parte em Cristo, porque não querem que ele reine sobre si; e isto, porque não são crentes verdadeiros ou discípulos de Cristo. Se vocês, portanto, anuírem em ter a Cristo como  Salvador, mestre e Senhor, devem, necessariamente, depender dele e confiar inteiramente nele, como tal; devem confiar nele para libertação da culpa, do poder e da condenação do pecado, e para vivificação, fortalecimento, e perseverança na graça, e para a vida eterna; devem confiar-se a ele, como  discípulos, para aprender dele, seguros de que ele ensinará a vocês infalivelmente o caminho da felicidade; e devem entregar-se a ele seguros de que ele vos governará em verdade e retidão para a salvação, e vos defenderá dos inimigos destruidores. 

É nisto que consiste a fé, ou receber a Cristo Jesus, o Senhor.

Por Richard Baxter
Em: Conselho a crentes fracos

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Como encontrar os Eleitos


Com freqüência, ouvimos a acusação de que a doutrina da eleição sufoca o espírito de evangelismo. Reivindica-se (e isto sem dúvida já ocorreu) que essa doutrina paralisou algumas igrejas ou departamentos missionários em seu alcance evangelístico. Eles disseram: "Não é nossa tarefa salvar os pagãos; quando Deus estiver pronto para salvar os eleitos, Ele o fará por Si mesmo". Por isso, assentaram-se e nada fizeram. E, como resultado, a doutrina ganhou má reputação. Presume-se que a letargia de tais homens é causada por sua crença na eleição. Mas será que isso é verdade? É a doutrina ou os homens que merecem a culpa? Será que homens bons às vezes não fazem uso errôneo de uma doutrina correta? Não é possível que homens indiferentes e cabeças-duras torçam a verdade em benefício de si mesmos? 

Os eleitos estão em nossas comunidades. Podemos encontrá- los à medida que oramos e confiamos na orientação do Espírito e na capacidade da Providência. Um incrédulo haverá de se mudar, para morar ao lado de um verdadeiro cristão, e encontrará a vida. Uma mudança em nossos compromissos de trabalho, em uma loja, colocará uma alma "vazia" ao lado de uma alma "plena". Após algum tempo, ambas estarão plenas. Uma conversa casual no cabeleireiro resultar á em uma alma sedenta encontrando água viva. Inconsciente do poder que o controla, um orientador pedagógico do 2º grau colocará uma jovem perdida em uma classe onde ela se assentará ao lado de uma cristã piedosa. Através da amiga cristã, a jovem perdida encontrará o Grande Amigo. Estas são coincidências? A fé declara: "Não". O Pai está atraindo a Si mesmo aqueles a quem escolheu. Uma parcela de júbilo é prometida àqueles que oram e dependem do Espírito. Portanto, os eleitos em nossa comunidade serão encontrados. 

O que Jesus disse a Paulo, em Corinto, Ele o diz a nós hoje: Tenho muito povo em sua cidade. Os eleitos estão vivendo nessas ruas corrompidas. Os apartamentos, os lares de sua cidade são habitados por aqueles que são os escolhidos de Deus. Neste exato momento, você não pode identificá-los. Não pelo endereço, estilo de vida ou moralidade deles. Tampouco por estarem buscando a verdade. Para você, eles parecem mortos. Mas incuti em seus corações que venham a Mim; e eles virão. Apenas creia e seja fiel. Reconheça a sua própria incapacidade e ore. Permita que meu Espírito o guie à rua Trôade; alguns dos eleitos moram ali. Você encontrará outro na cadeia que fica na Av. Filipos. Eles o expulsarão daquele lugar, mas, ao fazerem isso, você encontrará mais eleitos na alameda Tessalônica. Faça uma visita à casa de Jasom. Novamente você terá de fugir para não ser morto, mas será extremamente frutífero na rodovia Nobre, em Beréia; não perca essa oportunidade. 

O Condomínio Cultural de apartamentos em Atenas será um teste árduo e não muito produtivo. Mas ali eu tenho uma pessoa sofisticada, Dionísio, e uma mulher, Damaris, e um casal de outros que pretendo trazer ao aprisco. Por isso, passe por lá e anuncie a minha Palavra. Não se preocupe com o que lhe chamarão; já lhe dei um novo nome. Seja forte nos condom ínios de Corinto. É um lugar maligno. Mas naquelas casas habitam muitos que viverão em minha casa eternamente. Eu lhe asseguro que o administrador, Gálio, não o perturbará. Seja forte. Não deixe de pregar a mensagem. Estarei com você em todos esses lugares. Juntos, Eu e você, encontraremos os meus eleitos. Todos que o Pai me deu virão a Mim através de você. 

Os únicos precedentes neotestamentários para a proclamação do evangelho são: vida santa, oração e testemunho ousado - Geoffrey Thomas 

Evangelização é um mendigo contando ao outro onde encontrar pão - D. T. Niles.

Por Kenneth D. Johns

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Leia a Bíblia contra você!


Sempre una a auto-reflexão com a leitura e o ouvir da Palavra de Deus. Quando você ler a Bíblia ou ouvir sermões, reflita e compare os seus caminhos com o que você leu ou ouviu. Pondere que harmonia ou desarmonia existe entre a Palavra e os seus caminhos. A Bíblia testifica contra todo tipo de pecado e tem direções para qualquer responsabilidade espiritual, como escreveu Paulo: "Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra" (2Tm 3.16,17; ênfase acrescentada). Portanto, quando ler os mandamentos dados por Cristo e seus apóstolos, pergunte-se: Vivo de acordo com essas regras? Ou vivo de maneira contrária a elas?

Quando ler histórias da Bíblia sobre os pecados e sobre os culpados, faça uma auto-reflexão enquanto avança na leitura. Pergunte a si mesmo se é culpado de pecados semelhantes. Quando ler como Deus reprovou o pecado de outros e executou julgamentos por seus pecados, questione se você merece punição semelhante. Quando ler os exemplos de Cristo e dos santos, questione se você vive de maneira contrária aos seus exemplos. Quando ler sobre como Deus louvou e recompensou seu povo pelas suas virtudes e boas obras, pergunte se você merece a mesma bênção. Faça uso da Palavra como um espelho pelo qual você examina cuidadosamente a si mesmo — e seja um praticante da palavra (Tg 1.23-25).

Poucos são aqueles que fazem como deveriam! Enquanto o ministro testifica contra o pecado, a maioria está ocupada pensando em como os outros falham em estar à altura. Podem ouvir centenas de coisas em sermões que se aplicam adequadamente a eles; mas nunca pensam que o que pregador está falando lhes diz respeito. A mente deles está fixa em outras pessoas para quem a mensagem parece se encaixar, mas eles nunca julgam necessitar dessa pregação.


terça-feira, 15 de novembro de 2011

Um breve comentário sobre os Calvinistas Inconsistentes


Confesso que não sei o porquê, mas mesmo assim fico indignado com certos calvinistas que, em primeiro lugar, se acham reformados, mas nem ao menos sabem o que isso significa; que em segundo lugar, fazem pouco caso das doutrinas por eles mesmos professadas e em terceiro, que constantemente se associam com arminianos de todo o tipo, como se pudesse haver duas ou mais interpretações acerca da glória de Deus, Sua Soberania, Eleição, Reprovação, Perseverança e tudo mais quanto diz respeito à crença bíblica verdadeira.

Estou perplexo com o número de calvinistas que não defendem com grande afinco as doutrinas que ostentam para si. Mal sabem eles que a "disputa" (como se pudesse haver alguma, haja vista a Bíblia ser mais do que clara sobre a Soberania absoluta de Deus sobre todas as coisas) entre calvinistas e arminianos quase gerou uma guerra civil durante a época dos puritanos, tamanha era a ênfase e vigor que pulsava em seus corações pelas leis de Deus. Porém, em nossos dias, o que vejo não são homens bradando em alta voz as doutrinas da reforma. Tais homens não fazem como a Sabedoria exemplificada em Provérbios que elevava a sua voz nas praças e cima dos muros para que todos pudessem ouvi-la; muitíssimo pelo contrário, contrariam as palavras do Mestre que nos ensina a não colocar uma candeia em lugar escondido, mas expô-la à todos!

Meus amados calvinistas que dizem ser mas não são, já está na hora de acordarmos para a verdadeira fé. Para vocês, faço a mesma pergunta que o Sr. Albert N. Martim fez aos seus alunos: "Pergunto à vocês: Vocês são calvinistas? Não, não estou perguntando se vocês leram algum livro sobre as doutrinas da graça e foram persuadidos, mas pergunto se foi Deus quem os tornou calvinistas, pois se foi Ele, suas vidas precisam ser mudadas".

Que Deus vos abençoe.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Quinto elemento constitutivo do culto público (parte 1): Administração dos Sacramentos (ceia do Senhor) - Sermão pregado dia 13.11.2011


Quinto elemento constitutivo do culto público (parte 1):
Administração dos Sacramentos (ceia do Senhor) -
Sermão pregado dia 13.11.2011

Amados irmãos, dando sequência à nossa série (clique aqui para ler as pregações anteriores), hoje veremos o que significa a Ceia do Senhor, quais são suas implicações e como ela deve ser administrada. Assim como os outros elementos constitutivos do culto público foram analisados, este também deve ser assim feito, pois muitos têm distorcido a palavra de Deus e tem transformado esses sublimes elementos em coisa qualquer, como se pouco ou até nenhum valor tivessem para nós.

Conforme temos visto, o Sola Scriptura é essencial para que entendamos a Bíblia como Deus requer. Certamente que isso não nos priva de erros, mas auxilia-nos na busca por uma reta doutrina e nos guia rumo à estatura do Senhor Jesus Cristo.

Quando falamos sobre sacramentos, devemos ter em mente que eles são uma expressão visível do poder de Deus. Sacramento é denominado assim porque diz respeito ao selo do Senhor estampado sobre os seus. Ao falarmos sobre sacramento, devemos ter em mente que eles não são a maneira como Deus salva o seu povo e nem os perdoa, mas sim que lhes confere graças a partir dessas feituras. Calvino explica da seguinte maneira: "O termo sacramento... abraça, de modo geral, a todos os sinais que Deus, em todos os tempos, outorgou aos homens, para que mais certos e seguros os tornasse quanto à veracidade de seus promessas. Esses sinais, com efeito, por vezes ele quis que subsistissem em coisas naturais, por vezes os exibiu em milagres. Concluímos, pois, que os sacramentos são verdadeiramente chamados testemunhos da graça de Deus, e, por assim dizer, selos de sua benevolência para conosco, os quais, ao nos selar, assim nos sustentam, nutrem, firma, aumentam a fé." [1]

No capítulo 29 da Confissão de Fé de Westminter, falando sobre a ceia do Senhor, lemos o seguinte:

I . Na noite em que foi traído, nosso Senhor Jesus instituiu o sacramento do seu corpo e sangue, chamado Ceia do Senhor, para ser observado em sua Igreja até ao Fim do mundo, a fim de lembrar perpetuamente o sacrifício que em sua morte Ele fez de si mesmo; selar aos verdadeiros crentes os benefícios provenientes desse sacrifício para o seu nutrimento espiritual e crescimento nele e a sua obrigação de cumprir todos os seus deveres para com Ele; e ser um vínculo e penhor da sua comunhão com Ele e de uns com os outros, como membros do seu corpo místico. (1 Cor. 11:23-26, e 10: 16-17, 21, e 12:13).


A igreja cristã - desde os tempos antigos - tem sido ensinada pelo Senhor Jesus a realizar duas ordenanças: a ceia e o batismo do Senhor (hoje trataremos apenas da ceia). Quando falamos nesses dois elementos, é preciso entender que eles não são dois conselhos do Senhor (como se pudéssemos escolher praticar ou não), mas duas ordens para o crente, isto é: ser batizado e cear. Sobre esse último, lemos o seguinte:

"Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha. Portanto, qualquer que comer este pão, ou beber o cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice. Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor. Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem" (1 Co 11:23-30).

De acordo com o que temos visto, o princípio regulador do culto não nos permite interpretar da maneira que quisermos as Escrituras, mas tão somente instrui-nos a buscar aplicar aquilo que vemos ser feito e/ou ensinado nas Sagradas Escrituras. Nesta conhecida passagem de 1 Coríntios, Paulo está diante da igreja mais bagunçada que já havia visitado (At 18). Os escritos de Paulo aos coríntios muitas vezes dão-nos a entender que ele estivesse escrevendo à ímpios, tamanha são as repreensões e admoestações que ele faz a eles. Diante desse quadro, Paulo lhes explica o que vem a significar a ceia do Senhor, qual a finalidade dessa ordenança e como deve ser feita.

1. O que significa a ceia do Senhor: "Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha. Portanto, qualquer que comer este pão, ou beber o cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice" (vs. 26-28).

Como bem sabemos, todos os sacrifícios do Antigo Testamento apontavam para àquele que haveria de vir, isto é, o Cristo Jesus. Todo sangue, todo pão sem fermento, todo ritual, toda cerimônia, tudo era uma sombra do que haveria de vir e concretizar-se em Cristo Jesus. É por esse motivo que a ceia do Senhor não significa - como querem os romanistas - que Cristo esteja sendo crucificado a cada ceia, e sim que ela representa de maneira eficaz a morte de Cristo e nos transmite bênçãos sem fim, pois podemos ser herdeiros da salvação em Cristo Jesus.

O propósito da Ceia não é de saciar a fome dos crentes e nem reuni-los para uma festa, mas serve tão somente com o propósito de anunciar "a morte do Senhor, até que venha". A ceia do Senhor tem como objetivo fazer com que os crentes renovem - assim como devem fazer diariamente - seus votos para com o Senhor, mas não de modo ritualístico, e sim com profunda devoção de coração, buscando sempre avançar em santidade e piedade ao Senhor.

"Portanto, qualquer que comer este pão, ou beber o cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor" - neste ponto, o apóstolo Paulo está a instruir os coríntios sobre o grandioso perigo que correm caso continuem a comer e beber do cálice do Senhor indignamente. Mas por que será que ele lhes diz isso? De acordo com o entendimento sobre salvação e regeneração, nenhum homem pode afirmar ser verdadeiramente salvo e continuar vivendo uma vida devassa e seguir os rumos desse mundo vil e pecador. Se assim é quanto à salvação, deduzimos que a ceia do Senhor é uma expressão visível daquilo que ele tem feito em seus e tão somente neles. Paulo está a dizer que os crentes devem compartilhar do pão e do vinho dignamente, isto é, com uma consciência - em primeiro lugar - de que são pecadores mas que também - em segundo lugar - estão arrependidos de seus pecados e notam um avançar na graça e na vida com Deus.

De acordo com o texto, entendemos que o crente não deve abster-se de tomar a ceia por sentir-se pecador - afinal, quem poderia ser encontrado em outro estado senão esse? - "Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice" (grifo meu). A instrução de Paulo é para que antes de tomar da Ceia, o crente examine-se e posteriormente coma do pão e beba do cálice, buscando reparar - sempre que possível - os danos feitos a outrem (ou a si mesmo) e resolver buscar com maior afinco à santidade de Deus. O auto-exame busca verificar se de fato estamos vivendo uma vida digna de nossa vocação (Ef 4.1) e se estamos trilhando o caminho posto pelo Senhor. O examinar-se a si mesmo não tem como finalidade única nos relembrar de que somos pecadores (embora isso faça parte do exame), mas sim levar-nos ao arrependimento e à fiel confissão diante do Senhor de que nada mais merecemos senão a morte eterna, e isso certamente deve nos guiar à mudança de vida e ao abandono de práticas contrárias à lei de Deus - embora já estejamos vivendo para tal fim.

A partir desse ponto, compreendemos que a Ceia do Senhor é o modo visível com que ele (o Senhor) comunica-se com seus filhos e os fortalece através dos elementos ali dispostos.

2. Qual a finalidade dessa ordenança: "Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor. Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem" (vs. 29,30).

Conforme Paulo explica para àquela igreja, a finalidade da Ceia é para a edificação dos crentes e não para sua maldição, contudo ele faz uma ressalva dizendo que muitas comem para sua própria condenação, pois não discernem - não compreendem, não se arrependem, não há contrição em seus corações - o corpo do Senhor. Agostinho expressou esse ponto da seguinte maneira: "Nós também recebemos hoje o alimento visível; mas uma coisa é o sacramento, outra o poder do sacramento. Por que é que muitos se aproximam do altar, e lhes serve de condenação o que ali recebem? Ora, inclusive o bocado do Senhor foi veneno para Judas, não porque recebeu o mal, mas porque sendo mau, recebem mal o bem". [2]

O que Agostinho nos diz é que não habita mal algum na ceia do Senhor, porém fazê-la de modo indigno, torna a pessoa culpável diante de Deus, pois em vez de anunciar "a morte do Senhor, até que venha", na verdade proclama para si a perdição, já que não vive segundo os padrões do evangelho, rejeitando assim a cruz e trazendo sobre si maior condenação. Assim como a santidade, a piedade, a oração, a comunhão, o ouvir e ler da palavra de Deus e todas as demais disciplinas espirituais contribuem para nosso crescimento em Cristo, do mesmo modo a Ceia foi estabelecida para que os crentes comunguem da esperança em Cristo Jesus e tornem viva a esperança da sua volta, anunciando a eles próprios e também a todos à sua volta a morte do Senhor até que ele venha.

3. Como deve ser feita: "Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim" (vs. 23-25).

Talvez aqui esteja o ponto mais controvertido dessa doutrina. Muitos homens têm se desviado da palavra de Deus e dado asas à imaginação mundana e assim perverteram o real sentido da Ceia do Senhor.

Para os romanistas, a Ceia do Senhor representa a transubstanciação dos alimentos, ou seja, no momento da Ceia os elementos tornam-se - literalmente - o corpo e sangue de Cristo. Para eles a ceia representa a morte - sim, toda missa é um novo sacrifício de Cristo pelo seu povo - incessante do Senhor por todo o mundo. Desde os tempos da reforma, os romanistas têm se negado ficarem com apenas o Sola Scriptura, o que os leva a afirmarem heresias dessa natureza.

Para os luteranos, a Ceia do Senhor representa a consubstanciação, isto é, o Senhor Jesus Cristo está em, sob e com os elementos ali apresentados. Para eles o pão e o vinho continuam sendo elementos naturais, mas  na hora da ceia, Jesus está verdadeiramente nos elementos, como se houvesse uma fusão entre Cristo e os elementos. Os luteranos acreditam que por Deus ser onipresente, ele também está ali representado nos elementos, não sendo os elementos, mas estando neles.

Para os reformados, a Ceia do Senhor não é nem transubstanciação nem consubstanciação, mas apenas "em memória", conforme falou nosso Senhor Jesus Cristo. O reformador Calvino expressou seu entendimento assim: "Que, pois, é um sacramento recebido à parte da fé, senão certíssima ruína da Igreja? Ora, como não se deve esperar nada daí fora da promessa, e como esta não menos ameaça aos incrédulos com ira, e que oferece graça aos fiéis, engana-se aquele que pensa que algo mais lhe é conferido pelos sacramentos além daquilo que a fé verdadeira recebe pela Palavra de Deus". [3]

O que Calvino estava dizendo era que na hora da Ceia não há nenhuma mutação dos elementos em si mesmos - ambos continuam tendo sua essência natural -, contudo, através da fé dada por Deus, os crentes podem desfrutar desse momento de comunhão com o Senhor, não porque os elementos em si sejam divinos ou santificados, mas sim porque a fé entende que os elementos representam e comunicam ao crente a morte de Cristo por todos os seus filhos.

Por fim, outro ponto importante que devemos nos ater é sobre os elementos dispostos da Ceia do Senhor.

De acordo com as Escrituras, devemos fazer tão somente aquilo que a palavra de Deus nos ordena e/ou nos ensina através de relatos bíblicos que visam instruir o povo de Deus a como viver diante do Senhor. Seguindo esse ponto, mister é notarmos que em momento algum a Bíblia fala sobre outro elemento na ceia do Senhor, isto é, não temos um versículo sequer que diga que em determinada região tomava-se água de coco e comia-se bolos de fubá e que isso era a ceia do Senhor. Olhemos o que o apóstolo Paulo nos fala:

"De sorte que, quando vos ajuntais num lugar, não é para comer a ceia do Senhor. Porque, comendo, cada um toma antecipadamente a sua própria ceia; e assim um tem fome e outro embriaga-se" (1 Co 11:20-21). Creio que muitos crentes sinceros tenham substituído o vinho pelo suco de uva com o intuito de amenizar os problemas alcoólicos que alguns irmãos poderiam ter, contudo essa atitude não tem respaldo bíblico, pois em que momento Paulo trata desse assunto, isto é, diante da embriaguez dos coríntios, quando é que vemos Paulo dizendo para substituir o vinho por algum suco? Paulo não troca os elementos, mas vai adiante e censura aqueles homens dizendo: "Não tendes porventura casas para comer e para beber? Ou desprezais a igreja de Deus, e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto não vos louvo" (1 Co 11:22). Certamente que ele não apenas os censurou, mas os admoestou para que compreendessem o que de fato representava aquele momento e então passassem a usufruir do mesmo como uma graça divina e não uma oportunidade para pecar.

A partir desse prisma, compreendemos que não é porque alguns irmãos têm dificuldade com bebidas alcoólicas que iremos substituir esse elemento. Se fosse assim, por que não eliminar o pão e trocar por uma bolacha de água e sal? Não estaríamos ajudando aqueles irmãos que não sabem cuidar do próprio corpo e estão muito além do peso? Ou ainda, por quê não substituímos a água do batismo por coca-cola, um suco ou ainda fazemos igual a certos homens contrários ao evangelho que batizaram pessoas por meio de uma descida em um tobogã num parque aquático? [4] Calvino foi sensato quando discorreu sobre esse quesito: "Mas, no que diz respeito ao rito externo da ação sacramental, que os fiéis o recebam à mão, ou não, ou o dividam entre si ou comam, um a um, o que lhes for dado; devolvam o cálice à mão do diácono, ou porventura o passem ao próximo; seja o pão fermentado ou ázimo; o vinho vermelho ou branco; nada importa. Essas coisas são indiferentes e deixadas à livre decisão da Igreja.". [5]

O que Calvino tinha em mente não era a total liberdade para se trocar os alimentos da ceia, mas que se fizesse de maneira conveniente aos irmãos da igreja, ou seja, não há uma marca correta para ser comprada com relação ao vinho nem ao pão. Se assim fosse, qual seria a vinícola eleita? Pão com ou sem fermento? Se fermentado, poderia ser comprado em uma padaria ou seria melhor que os diáconos o fizessem? Também com relação à prudência precisamos notar qual a quantidade adequada para os membros beberem e comerem. Certamente que não devemos estimular altas doses do vinho, haja vista muitos problemas decorrentes disso, como por exemplo a necessidade de muitos dirigirem na volta para casa e ainda algumas pessoas que tomam determinados remédios. Creio que não nos é mais necessário alongar nesse ponto, porém é preciso que compreendamos que os elementos da ceia são vinho e pão, pois assim foi designado pelo Senhor e seguido por sua Igreja.

Que o Senhor nos dê novo ânimo a fim de revigorar-nos a fé em sua Santa e Fiel palavra. Que não abafemos tão grande sacramento e nem o tratemos com desdém, mas que busquemos nos conformar à palavra Deus, a única esperança para todo aquele que n'Ele crê.

Amém.

Notas:
[1]: CALVINO, João - As Institutas, Edição Clássica, Volume 4. Editora Cultura Cristã - páginas . 273 e 284.
[2]: Ibid, citado nas páginas 280 e 281.
[3]: Ibid, página 280.
[4]: Clique aqui para ver o lamentável vídeo.
[5]: CALVINO, João - As Institutas, Edição Clássica, Volume 4. Editora Cultura Cristã - página 394 - Para um melhor entendimento desse assunto recomendo a leitura total dos capítulos concernentes aos sacramentos.

domingo, 13 de novembro de 2011

A Eucaristia para Luteranos, Reformados e Católicos


O e-mail abaixo é uma resposta ao e-mail de uma pessoa desconhecida que me fez algumas questões teológicas e históricas, duas das quais referem-se à Ceia do Senhor e às diferentes visões a respeito.

Olá, boa tarde!

Neste e-mail responderei apenas a primeira e última pergunta, devido ao tempo e por estarem relacionadas. As outras perguntas responderei aos poucos, conforme minha possibilidade.

1) Se, tal como o Luteranismo, o Calvinismo assenta as suas bases na soberania de Deus através das Escrituras, por que razão então os calvinistas não crêem no fenômeno da consubstanciação?

A doutrina luterana da consubstanciação não está fundamentada na soberania de Deus, mas na ubiqüidade do corpo de Cristo. Lutero acreditava que os atributos da natureza divina de Cristo foram comunicados à Sua natureza humana, inclusive a onipresença, de tal forma que o corpo de Cristo pode estar presente em mais de um lugar ao mesmo tempo (ubiqüidade). Por isso, o corpo e o sangue de Cristo estão presentes juntamente com o pão e o vinho na Eucaristia* (consubstanciação).

Os calvinistas não aceitam a doutrina da ubiqüidade do corpo de Cristo e, por conseqüência, não aceitam a consubstanciação. Para Calvino, a natureza humana de Cristo é em tudo semelhante à nossa, com exceção do pecado, sendo impossível para ela a onipresença. Não ocorreu comunicação de atributos divinos à natureza humana. Como Cristo subiu aos céus, em Sua natureza humana Ele não está mais entre nós, e sim assentado à direita de Deus Pai, como nos diz o Credo Apostólico. Por isso, é impossível que o corpo e o sangue de Cristo estejam presentes literalmente na Eucaristia.

Essa é a diferença essencial entre luteranos e calvinistas no que se refere à Eucaristia. Lutero queria entender as palavras de Cristo "isto é o meu corpo" de forma literal e para isso teve que afirmar a ubiqüidade do corpo de Cristo. Zwínglio e Calvino, com algumas diferenças, entendiam essas palavras figuradamente, crendo que o pão e o vinho eram apenas símbolos ou sinais do corpo e do sangue de Cristo. Cristo está presente na Eucaristia, mas apenas espiritualmente, em Sua natureza divina, já que a natureza humana está nos céus. Aqueles que participam da Eucaristia se alimentam de Cristo num sentido espiritual, pela fé.

Eu particularmente entendo a Eucaristia como Zwínglio e Calvino. Afirmar a literalidade das palavras da instituição "isto é o meu corpo, isto é o meu sangue" ignora a simplicidade das palavras de Jesus, gera muita especulação e pode levar a heresias, como a doutrina católica da transubstanciação. Jesus usava uma linguagem bastante figurada e devemos ter isso em mente ao interpretar Suas palavras. Eu não acredito, por exemplo, que Jesus seja uma porta literalmente, apesar de Ele ter dito que era a "porta das ovelhas" (Jo.10.7,9). Nem que Ele seja um pão real, embora Ele tenha dito que é o "pão vivo que desceu dos céus" (Jo.6.51).

5) Por que os protestantes rechaçam a idéia de que o pão e o vinho tenham se transformado em corpo e sangue de Cristo durante a consagração da Eucaristia ao longo da missa?

A doutrina segundo a qual o pão e o vinho se transformam literalmente em corpo e sangue de Cristo é a transubstanciação, que eu mencionei acima. Os protestantes rejeitam essa doutrina como heresia por causa do absurdo de afirmar-se uma transformação dessa espécie e devido aos problemas que ela acarreta, como a idolatria e a negação da suficência do sacrifício de Cristo.

Essa transformação é absurda porque o pão e o vinho, após a consagração, continuam sendo pão e vinho. Se eles se transformassem no corpo e no sangue de Cristo deveriam mudar sua aparência, gosto e odor. Mas isso não ocorre. Os católicos, desde Tomás de Aquino, tentam explicar esse fato apelando a Aristóteles e sua teoria sobre as transformações e seus "acidentes". Mas como essa teoria é extremamente especulativa e sem sentido, de modo que não explica nada, acabam dizendo que a transubstanciação é um mistério que deve ser recebido pela fé. Seria mais fácil admitir que as palavras de Jesus, ao instituir a Eucaristia, eram figuradas, como a maioria dos protestantes faz.

A idolatria ocorre porque, segundo a doutrina da transubstanciação, quando o pão e o vinho se transformam no corpo e no sangue de Cristo, eles passam a ser o próprio Cristo (corpo, sangue, alma e divindade), dignos de adoração, portanto. Mas a Bíblia proíbe a idolatria em diversos lugares (Ex.20-1-5; Dt.4.9-18).

A negação da suficiência do sacrifício de Cristo ocorre porque, de acordo com esta doutrina, a Eucaristia é um outro sacrifício de Cristo, que é oferecido todos os domingos, na missa, pelo sacerdote. A Bíblia, no entanto, nos ensina que o sacrifício de Cristo foi único, oferecido uma vez por todas na cruz, e tal sacrifício é suficiente para salvar os pecadores de todos os seus pecados (Hb.7.26-27; 9.11-28; 10.1-18).

Espero que tenha ficado claro.

Que a graça do Senhor Jesus Cristo seja contigo!

Abraços,

André Aloísio
O principal dos pecadores (I Tm.1.15)
* Eucaristia: Ceia do Senhor

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A Verdade Sobre a Compatibilidade Conjugal (solteiros e casados)


No que se refere à compatibilidade, eu e minha esposa somos muito diferentes.

Quando meu filho mais velho estava com três anos de idade, fui passear de carro com ele pela cidade. Um semáforo levou-o a me perguntar o que significava a luz amarela. "Filho," eu comecei a responder com minha sábia voz paternal, "uma luz amarela significa que precisamos ter cautela".

Sua mente inquisitiva queria testar essa teoria, por isso fez a mesma pergunta a minha esposa no dia seguinte. "Filho," ela lhe informou enquanto agitava suas mãos enfaticamente, "uma luz amarela significa ANDE DEPRESSA!"

Minha esposa precisava ir a muitos lugares. Tinha pressa. Mas eu gostava de andar devagar e desfrutar do cenário.

O que é Compatibilidade?

O dicionário define compatibilidade como "a capacidade de viver junto em harmonia". Nossa cultura valoriza muito a compatibilidade no casamento, mas acredita-se que é preciso achar a pessoa certa para se conseguir isso. Se você encontrar "aquela pessoa", vai haver harmonia. A Bíblia, entretanto, ensina que casamentos harmoniosos não são uma coisa natural. Desde a Queda em Gênesis 3, o pecado nos tornou incompatíveis porque os relacionamentos se tornaram naturalmente prejudicados e fraturados. Mas o Evangelho nos dá esperança de viver em harmonia com os outros quando Jesus reconstrói os relacionamentos. Nós focalizamos as outras pessoas em vez de nos focalizarmos (Rm 15.5).

Compatibilidade Bíblica

Então, o que especificamente a Bíblia diz sobre achar um cônjuge compatível? Um verdadeiro cristão deveria se casar com outro verdadeiro cristão (2 Co 6.14, 1 Co 7.39). É isso aí, mas significa muita coisa mais.

Em vez de procurar uma pessoa compatível, os cristãos são instruídos que se casem com um outro cristão e que se tornem cônjuges compatíveis. A transformação exige a graça e o poder de Jesus — boas novas para aqueles que procuram se casar ou que já estão casados, pois Deus não deixa as mudanças para os nossos próprios esforços.

Perguntas para os solteiros quando estiverem procurando um companheiro biblicamente compatível:

1 - Como saber se ele ou ela submetem-se de boa vontade à autoridade divina?

Senhoras, se ele não se submete à autoridade divina, é um homem perigoso. Ponto. Homens, se ela não se submete a uma autoridade piedosa agora (a um homem que, a propósito, não é você), ela é o tipo de mulher que Provérbios adverte evitar.

2 - Como saber se ele ou ela é submisso aos ensinamentos?

Se alguém gosta de discutir, está mais preocupado em ter razão do que ser justo. Quando você pensa que venceu a discussão no casamento, na realidade perdeu. O casamento é amadurecimento manso, com muito para aprender o restante de sua vida.

3 - A pessoa em questão é conhecida e está envolvida na comunidade cristã?

É fácil usar uma máscara quando se está atraído por alguém e motivado para casar. Se essa pessoa não é conhecida na comunidade, você não a conhece. Outras pessoas precisam testemunhar sobre o caráter, a integridade e a fé dela.

4 - Como ele ou ela fala dos outros?

Se a pessoa é crítica, exigente, ou petulante em suas atitudes e palavras agora, vai continuar assim no casamento. Logo, você vai se tornar o alvo de sua ira e orgulho.

5 - Como ele ou ela reagem quando confrontados com o pecado?

Quando alguém tenta esconder, disfarçar, acusar, desculpar ou racionalizar seu pecado, tem uma visão distorcida do Evangelho. Por causa de Jesus, podemos confessar os pecados (1 João 1.0), arrepender-se (Rm 2.4), andar na luz (Ef 5.8,9), e sermos reconciliados com Deus (2 Co 5.17-21).

Perguntas para os casados que desejam se tornar biblicamente mais compatíveis.

1 - O que você percebe com mais freqüência que está errado ou certo com o seu casamento?

Se você é cristão, há muita coisa certa com você porque Jesus o salvou da ira de Deus e você lhe pertence. Você tem todos os recursos em Cristo à sua disposição (2 Pe 1.3). Como filho remido de Deus, o perdão e a graça podem fluir livremente do seu coração deixando que você ministre nas fraquezas do seu cônjuge. Mas você vive desse modo?

2 - Quando foi a última vez que você fez alguma coisa intencional para o seu cônjuge?

A bondade e a consideração fortalecem o casamento. Mas muitos casais acham que podem falar com aspereza, desdém ou falta de perdão. "Para o melhor ou pior" não é permissão para pecar. É preciso fé e humildade para reagir com graça quando estiver irado, magoado ou for mal interpretado.

3 - Você crê que Deus sabia o que estava fazendo quando fê-lo se casar com o seu cônjuge?

Quando o casamento é difícil, fica tentador pensar que você cometeu um engano, esquecendo que o casamento nos molda, com freqüência de maneiras dolorosas. Volte no tempo e pense no que vocês apreciaram e 1admiraram um no outro. É possível que essas qualidades ainda estejam aí, mas você permitiu que o pecado e o egoísmo entraram sorrateiramente e obstruíram sua visão.

4 - É preciso que você se arrependa da insatisfação e das queixas no seu casamento.

É preciso que haja uma intervenção sobrenatural do Espírito Santo para que sejamos gratos. Nossa tendência é comparar e se queixar. A gratidão é um estilo de vida ordenado pelas Escrituras (Cl 3.15-17), não uma simples sugestão para os feriados de verão. Pelo que você se sente grato? O que você gosta no seu cônjuge?

5 - Você e seu cônjuge oram juntos? Vocês oram um pelo outro?

É difícil ficar com o coração endurecido e amargurado com alguém por quem você ora freqüentemente. Deus fará uma grande obra no seu casamento enquanto você estiver orando. A oração mostra a nossa necessidade de Deus e é um ato de adoração.

Por Phil Smidt
Traduzido por: Yolanda Mirdsa Krievin
Copyright © Editora Fiel 2011

Fonte: Bereianos

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Onde o Espírito do Senhor está há liberdade - o que isso sigifica?


Onde o Espírito do Senhor está. - Paulo nos informa como Cristo imprime vida à lei, a saber, concedendo-nos o seu Espírito. A palavra 'espírito' tem aqui um significado diferente daquele do último versículo. Ali ela significa alma, e se aplica metaforicamente a Cristo, mas aqui ela significa o Espírito Santo que Cristo mesmo nos concede. Cristo, ao regenerar-nos, dá vida à lei e se revela como a fonte da vida, assim como a alma é a fonte da qual emanam todas as funções vitais do homem. Portanto, Cristo é, por assim dizer, a alma universal de todos os homens (universalis omnium anima), não no tocante à sua essência, mas no tocante à sua graça. Ou, pondo de outra forma, Cristo é o Espírito porque ele nos vivifica com o poder gerador de vida do seu Espírito.

Paulo menciona também o beneficio que deste fato recebemos, ao dizer: há liberdade. Pelo termo 'liberdade' não entendo como sendo só o livramento da escravidão do pecado e da carne, mas também a confiança que recebemos de seu testemunho acerca de nossa adoção. Isto concorda com Romanos 8.15: "Porque não recebemos outra vez o espírito à e escravidão para temor etc." "Nesta passagem Paulo menciona escravidão e temor, e temos os opostos destes, que são liberdade e confiança.

Assim podemos, com propriedade, seguir Agostinho, ao inferir desta passagem que somos, por natureza, escravos do pecado e libertos através da graça da regeneração. Porque, onde houver a letra nua da lei, aí estará presente o senhorio do pecado. Porém, como já disse, interpreto o "termo 'liberdade' num sentido mais amplo. Seria possível restringir a graça do Espírito, especialmente no que toca aos ministros, a fim de que esta declaração corresponda ao início do capítulo, de haver nos ministros uma graça espiritual diferenciada e uma liberdade diferenciada da que há nos demais. Porém, a primeira interpretação me agrada mais, ainda que não tenho qualquer objeção em aplicar isto a todos segundo a medida do seu dom. Mas é bastante observarmos que Paulo está realçando a eficácia do Espírito que todos nós, os que fomos regenerados por meio da sua graça, experimentamos para a nossa salvação.

Por João Calvino

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Eleição é uma doutrina detestada!


Esta é uma doutrina detestada. Alguém naturalmente pensaria que uma verdade que honra tanto a Deus, que exalta tanto a Cristo, e tão abençoada, tenha sido cordialmente sustentada por todos cristãos professantes que tenham tido ela claramente apresentada diante deles. Devido aos termos “predestinados”, “eleitos”, e “escolhidos”, ocorrem tão freqüentemente na Palavra, alguém certamente concluirá que todos que reivindicam aceitar as Escrituras como divinamente inspiradas receberiam com implícita fé esta grande verdade, referindo ao ato por si mesmo - como tornando pecadores e ignorantes as criaturas que assim façam - diante da soberana boa vontade de Deus. Mas tal está longe, muito longe de ser a situação real. Nenhuma doutrina é tão detestada pelo orgulhoso homem natural como esta, que faz da criatura nada e do Criador tudo; sim, em nenhum outro ponto a inimizade da mente carnal é tão patente e vigorosamente evidente.

Nós começamos nossas palestras na Austrália dizendo: “Eu vou falar esta noite sobre uma das doutrinas mais odiadas da Bíblia, a saber, a da soberana eleição de Deus”. Desde então temos rodeado este globo, e chegado à um contato próximo com milhares de pessoas pertencentes a muitas denominações, e milhares destes cristãos professos não aceitaram esta declaração; e hoje a única mudança que fazemos naquela declaração é que enquanto a verdade do castigo eterno é uma das mais desagradáveis aos não professos, a da soberana eleição de Deus é a verdade mais odiada e insultada pela maioria daqueles que reivindicam ser crentes. Anuncie claramente que a salvação não é originada na vontade do homem, mas na vontade de Deus (veja João 1:13; Romanos 9:16), que não há ninguém que queira ou possa ser salvo - porque como resultado da queda do homem, todo desejo e vontade para o que é bom foi perdido (João 5:40; Romanos 3:11) - e que até mesmo os eleitos precisam serem feitos dispostos (Salmos 110:3), e estrondosos gritos de indignação se levantarão contra tal ensino.

Neste ponto a questão é tensa. Comerciantes de méritos não permitirão a supremacia da divina vontade e a impotência para o bem da vontade humana, conseqüentemente eles são aqueles mais amargos em denunciar a eleição pelo soberano prazer de Deus, são os mais entusiasmados em gritar pelo livre-arbítrio do homem caído. Nos decretos do concílio de Trento - no qual o Papado definitivamente determinou sua posição sobre os pontos levantados pelos Reformados, e que Roma nunca rescindiu - aparece o seguinte: “Se qualquer um afirmar que desde a queda de Adão, a vontade do homem foi eliminada, que seja amaldiçoado”. Foi devido a sua fiel aderência à verdade da eleição, com tudo o que ela envolve, que Bradford e centenas de outros foram queimados pelos agentes do Papa. Indizivelmente triste é ver tantos Protestantes professos concordarem com a mãe das meretrizes neste erro fundamental.

Mas seja qual for a aversão que os homens possam agora ter à esta bendita doutrina, eles serão compelidos a ouvi-la no último dia, ouvi-la como a voz da final, inalterável e eterna decisão. Quando a morte e o inferno, o mar e a terra, derem os mortos, então o Livro da Vida - o registro no qual foram gravados antes da fundação do mundo toda a eleição da graça - será aberto na presença de anjos e demônios, na presença de salvos e perdidos, e esta voz soará às alturas do Céu, às profundezas do inferno e aos extremos finais do universo - “E todo aquele que não foi achado inscrito no livro da vida, foi lançado no lago de fogo” (Apocalipse 20:15). Assim, esta verdade que é odiada pelos não eleitos acima de todos os outros, é uma que soará nos ouvidos dos perdidos a medida que eles entrarem na sua eterna perdição! Ah, meu leitor, a razão pela qual o povo não recebe e devidamente prezam pela verdade da eleição, é porque eles não sentem a devida necessidade dela. 

Por A. W. Pink

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Não tememos o Homem - C. H. Spurgeon


"E todos os povos da terra verão que és chamado pelo nome do SENHOR e terão medo de ti".(Deuteronômio 28.10).

Não temos motivo para sentir medo dos homens. Temê-los demonstraria um espírito frágil e poderia ser entendido como incredulidade e não como uma atitude de fé. Deus pode nos tornar tão semelhantes a Si mesmo, que os homens serão forçados a perceber que realmente portamos o nome do Senhor e, na verdade, pertencemos a Jeová, o Santo. Oh! que obtenhamos essa graça que o Senhor deseja nos conceder!

Devemos estar certos de que os homens têm medo dos verdadeiros crentes. Os homens odeiam os verdadeiros crentes, mas também os temem. Hamã tremeu por causa de Mordecai, mesmo que procurou a destruição desse homem bondoso. Na verdade, o ódio dos homens surge de um temor sobre o qual eles são bastante orgulhosos para confessar. Sigamos o caminho da verdade e da retidão sem o menor temor.

O temor não é apropriado para os verdadeiros crentes, e sim para aqueles que praticam o mal e lutam contra o Senhor dos Exércitos. Se realmente somos chamados pelo nome do Deus eterno, estamos seguros; pois, assim como no passado um cidadão romano tinha apenas de falar "Romanus sum" (eu sou um romano), para invocar a proteção de todas as legiões do vasto império, assim também todo aquele que é um homem de Deus tem a onipotência como seu guardião. 

Será mais fácil Deus esvaziar o céu, removendo todos os anjos do que permitir que um crente fique sem defesa. Ó crente, seja mais bravo do que um leão, em favor daquilo que é correto, pois Deus está com você.

A Improcedência do Voto de Pobreza como Expressão Cristã, à Luz de Mateus 19.21


Com efeito, apresentam outro argumento de sua perfeição que acreditam ser-lhes bem sólido. Ora, disse o Senhor ao jovem que indagava a respeito da perfeição da justiça: "Se queres ser perfeito, vende tudo o que tens e dá aos pobres" (Mt 19.21). Ainda não estou discutindo se porventura eles fazem isto, concedamos-lhes isto no presente. Portanto, vangloriam-se de que já se tornaram perfeitos abrindo mão de todas as suas coisas. Se nisto está situada a suma da perfeição, que significa o que Paulo ensina: que aquele que distribuiu todas as suas coisas aos pobres nada é, se não tiver amor? (1Co 13.3). Que natureza de perfeição é esta que, se o amor estiver ausente, é reduzida a nada, juntamente com a pessoa que a pratica? Aqui se faz necessário que respondam que certamente esta é a perfeição suprema, contudo não a expressão única dela. Mas aqui Paulo também brada em contrário, o qual não hesita em fazer do amor, sem renúncia deste gênero, o vínculo da perfeição (Cl 3.14).

Se é certo que não há nenhuma discrepância entre o Mestre e o discípulo, mas um deles nega claramente que a perfeição do homem consiste em que renuncie a todas as suas coisas, e por outro lado afirma que ela subsiste sem isso, é preciso ver como se haverá de receber esta declaração de Cristo: "Se queres ser perfeito, vende tudo o que tens" (Mt 19.21).  Com efeito, o sentido longe está de ser obscuro, se ponderarmos (o que em todos os discursos de Cristo convém sempre observar) a quem estas palavras são dirigidas. O jovem pergunta que tipo de obras ele precisa fazer para poder entrar na vida eterna (Mt 19.16; Mc 10.17; Lc 18.18). Uma vez que era interrogado acerca de obras, Cristo o remete à lei (Mt 19.17-19; Mc 10.18,19; Lc 18,19,20). E com razão, pois se for considerada em si mesma, ela é o caminho da vida eterna; e sua incapacidade de garantir-nos a salvação a nada mais se deve senão à nossa depravação. Com esta resposta Cristo declarou que não estava ensinando outra forma de governar nossa vida senão aquela que havia sido antigamente ensinada outrora na lei do Senhor. Assim sendo, não só testificava que a lei divina é a doutrina da justiça perfeita, mas também prevenia ao mesmo tempo as calúnias, para que não parecesse estar, com alguma nova regra de viver, incitando o povo à apostasia da lei.

De fato o jovem, não movido por um espírito indisposto, mas cheio de vã confiança pessoal, responde que guardava todos os preceitos da lei desde menino (Mt 19.20 - sem adjunto temporal - Mc 10.20; Lc 18.21). De fato, mais que certo é que ele estava muitíssimo afastado daquilo de que se gabava haver atingido. E se sua vanglória fosse verdadeira, nada lhe teria faltado para a suma perfeição. Ora, já foi demonstrado previamente que a lei em si contém a perfeita justiça, e desse mesmo fato se faz patente que ele chama a observância o caminho da eterna salvação. Para que fosse ensinado quão pouco avançara nessa justiça, que mui ousadamente respondera haver cumprido, era preciso que sua deficiência íntima fosse perscrutada com proveito. Como, porém abundava em riquezas, havia fixado nelas o coração. Portanto, visto que não sentia esta chaga secreta, é ela espetada por Cristo. "Vai", diz ele, "vende tudo o que tens" (Mt 19.21). Se fora tão bom observador da lei quanto pensava, não se retiraria triste ao som desta palavra (Mc 19.21; Mc 10.22). Pois quem ama a Deus de todo o coração não só tem por esterco, mas até mesmo abomina como uma peste, a tudo quanto se põe em conflito com sua afeição. Portanto, o fato de que Cristo manda ao rico avarento abrir mão de tudo o que tem, é exatamente como se ao ambicioso ordenasse renunciar a todas as honras; ao voluptuoso, a todos os prazeres; ao impudico, a todos o instrumentos de lascívia. Daí, é que preciso induzir as consciências ao senso particular de seu mal, quando não se deixam comover por nenhum senso de advertência geral.

Portanto, em vão tomam este preceito num sentido geral, como se Cristo estabelecesse que a perfeição do homem está na renúncia dos bens, quando com este dito ele não quis dizer outra coisa senão forçar o jovem, que alentava seu egoísmo além da medida, a sentir sua chaga, para que entendesse que havia ainda uma longa distância da perfeita obediência da lei, a qual, aliás falsamente, para si reivindicava. Confesso que essa passagem foi mal entendida por alguns dentre os pais; e daí nasceu a afetação de pobreza voluntária, pela qual, enfim, se reputavam bem-aventurados aqueles que, abdicando todos os bens terrenos, se devotassem a Cristo despidos de tudo. Confio, porém, que todos os bons doutores, que fogem de toda contenda, haverão de ficar satisfeitos com esta minha explicação, para que não ponham em dúvida a mente de Cristo.

Texto por João Calvino.
Fonte: CALVINO, João. As institutas - Edição Clássica, Volume 4. Ed. Cultura Cristã, págs 259 e 260.

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