"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O mundo não é digno de sofrer por Cristo


O capítulo de Hebreus conhecido como "galeria da fé" nos diz:

"Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem. Porque por ela os antigos alcançaram testemunho. Pela fé entendemos que os mundos pela palavra de Deus foram criados; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente. Pela fé Abel ofereceu a Deus maior sacrifício do que Caim, pelo qual alcançou testemunho de que era justo, dando Deus testemunho dos seus dons, e por ela, depois de morto, ainda fala. Pela fé Enoque foi trasladado para não ver a morte, e não foi achado, porque Deus o trasladara; visto como antes da sua trasladação alcançou testemunho de que agradara a Deus. Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam. Pela fé Noé, divinamente avisado das coisas que ainda não se viam, temeu e, para salvação da sua família, preparou a arca, pela qual condenou o mundo, e foi feito herdeiro da justiça que é segundo a fé. Pela fé Abraão, sendo chamado, obedeceu, indo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia. Pela fé habitou na terra da promessa, como em terra alheia, morando em cabanas com Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa. Porque esperava a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus. Pela fé também a mesma Sara recebeu a virtude de conceber, e deu à luz já fora da idade; porquanto teve por fiel aquele que lho tinha prometido. Por isso também de um, e esse já amortecido, descenderam tantos, em multidão, como as estrelas do céu, e como a areia inumerável que está na praia do mar.Todos estes morreram na fé, sem terem recebido as promessas; mas vendo-as de longe, e crendo-as e abraçando-as, confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra. Porque, os que isto dizem, claramente mostram que buscam uma pátria. E se, na verdade, se lembrassem daquela de onde haviam saído, teriam oportunidade de tornar. Mas agora desejam uma melhor, isto é, a celestial. Por isso também Deus não se envergonha deles, de se chamar seu Deus, porque já lhes preparou uma cidade. Pela fé ofereceu Abraão a Isaque, quando foi provado; sim, aquele que recebera as promessas ofereceu o seu unigênito. Sendo-lhe dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, considerou que Deus era poderoso para até dentre os mortos o ressuscitar; E daí também em figura ele o recobrou. Pela fé Isaque abençoou Jacó e Esaú, no tocante às coisas futuras. Pela fé Jacó, próximo da morte, abençoou cada um dos filhos de José, e adorou encostado à ponta do seu bordão. Pela fé José, próximo da morte, fez menção da saída dos filhos de Israel, e deu ordem acerca de seus ossos. Pela fé Moisés, já nascido, foi escondido três meses por seus pais, porque viram que era um menino formoso; e não temeram o mandamento do rei. Pela fé Moisés, sendo já grande, recusou ser chamado filho da filha de Faraó, Escolhendo antes ser maltratado com o povo de Deus, do que por um pouco de tempo ter o gozo do pecado; Tendo por maiores riquezas o vitupério de Cristo do que os tesouros do Egito; porque tinha em vista a recompensa. Pela fé deixou o Egito, não temendo a ira do rei; porque ficou firme, como vendo o invisível. Pela fé celebrou a páscoa e a aspersão do sangue, para que o destruidor dos primogênitos lhes não tocasse. Pela fé passaram o Mar Vermelho, como por terra seca; o que intentando os egípcios, se afogaram. Pela fé caíram os muros de Jericó, sendo rodeados durante sete dias. Pela fé Raabe, a meretriz, não pereceu com os incrédulos, acolhendo em paz os espias. E que mais direi? Faltar-me-ia o tempo contando de Gideão, e de Baraque, e de Sansão, e de Jefté, e de Davi, e de Samuel e dos profetas, Os quais pela fé venceram reinos, praticaram a justiça, alcançaram promessas, fecharam as bocas dos leões, Apagaram a força do fogo, escaparam do fio da espada, da fraqueza tiraram forças, na batalha se esforçaram, puseram em fuga os exércitos dos estranhos. As mulheres receberam pela ressurreição os seus mortos; uns foram torturados, não aceitando o seu livramento, para alcançarem uma melhor ressurreição; E outros experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões. Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados" (Hb 11:1-37).

Observe que o capítulo inicia dizendo-nos que a fé é necessária para ser parte do corpo de Cristo. Também nos diz que ela não é simplesmente acreditar, mas crer firmemente nas palavras da Bíblia. Os ímpios não sofrem por Cristo, não "pagam o preço", não passam por provações, não "transpõem muralhas", não combatem o inimigo, não são "filhos de Deus", pois são do mundo e sua recompensa encontra-se e acaba neste campo de batalha.

Isto posto, compreendemos que os cristãos devem sofrer de maneira diferente do que o mundo. Certamente que nós de igual forma passamos por provações físicas e recebemos a punição por nossos pecados, mas é necessário que também soframos por amor à causa de Cristo, isto é, que experimentemos a ignomínia diante do mundo vil e perverso e glorifiquemos a Deus em tudo o que fizermos (1 Co 10.31)

O mundo não O conheceu, pois não eram Seus.

Texto por Filipe Luiz C. Machado

Terceiro elemento constitutivo do culto público: Audição da Palavra de Deus - Sermão pregado dia 29.20.2011



Terceiro elemento constitutivo do culto público:
Audição da Palavra de Deus -
Sermão pregado dia 30.10.2011

Amados irmãos, dando prosseguimento aos elementos constitutivos do culto público (clique nos links e leia os anteriores: Primeiro ElementoSegundo Elemento), chegamos hoje ao terceiro elemento que constitui, que deve fazer parte do culto público, a saber, a audição da palavra de Deus. Em nossos cultos anteriores, primeiramente vimos a importância que a pregação a partir da Bíblia é essencial para a vida da igreja e que é nesse firme dever com que o pastor e ensinador deve se se esmerar. No segundo elemento - leitura da palavra de Deus - visualizamos a importância de temos a Bíblia como única fonte de ensino e repreensão para nossas vidas e a validade que a leitura pública tem sobre todos. Hoje, portanto, veremos a necessidade que o crente tem de vir "preparado" para ouvir a palavra de Deus.

Quando falamos sobre a importância de ouvir-se a palavra de Deus durante o culto público, estamos querendo dizer duas coisas: Primeiro que estamos indo a um lugar para ouvir a palavra de Deus, isto é, vamos até a igreja (local onde os crentes se reúnem frequentemente) não para ouvirmos um homem falar, mas para ouvirmos Deus comunicar-se conosco. E em segundo lugar, esperamos que de fato Deus fale aos nossos corações através do ministro do evangelho, isto é, cremos que ao ouvirmos um homem pregar, na verdade é Deus quem se comunica conosco através de seus servos.

Tenho convicção de que essas duas coisas foram distorcidas - muitíssimo infelizmente - por duas pragas que atingiram a igreja evangélica: o pentecostalismo e o neopentecostalismo. 

pentecostalismo veio de maneira sorrateira, introduzindo levemente alguns pensamentos mundanos à igreja com o intuito de "melhorar" o serviço cristão. "Mas houve também entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá falsos mestres, os quais introduzirão encobertamente heresias destruidoras, negando até o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição" (2 Pe 2:1 - grifo meu). Observe que Pedro diz que tais falsos profetas e mestres introduzirão de maneira encoberta, isto é, de modo obscuro, devagar, sem que seja percebido - mas não somente isso, eles também chegam a negar que o Senhor os resgatou. Como eles negam que o Senhor os resgatou? De muitas formas, certamente, mas a principal delas é dizendo que o seu próprio "livre arbítrio" as salvou do inferno e as fez trilhar o caminho do Salvador; Jesus ajudou, mas "eu" finalizei. 

Então, se o pentecostalismo tentou vir de forma sorrateira, o neopentecostalismo escancarou as heresias e fez com que o seu estado atual fosse pior que o anterior. "Porquanto se, depois de terem escapado das corrupções do mundo pelo pleno conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, ficam de novo envolvidos nelas e vencidos, tornou-se-lhes o último estado pior que o primeiro" (2Pe 2.20). Enquanto os pentecostais ainda tentavam manter a balança levemente equilibrada, os neopentecostais vieram e simplesmente chutaram a balança de medir e fizer o que era contrário à lei do Senhor - "A balança enganosa é abominação para o Senhor; mas o peso justo é o seu prazer" (Pv 11.1). Mas como eles fazem isso? Dizendo que é o homem que deve interpretar a Bíblia da melhor maneira que lhe convém, que é o homem a medida de todas as coisas, que é o homem quem deve decidir o seu futuro, que é o homem quem "compra" a salvação, que é o homem que determina e acontece, que o homem é o soberano, que o homem é o detentor do saber... a lista não tem fim.

Meus queridos, devemos também lembrar que nem sempre a heresias é tão "visível" a ponto de a percebermos no primeiro olhar, mas são justamente essas "pequenas heresias" que acabam contaminando toda a igreja de Cristo e fazendo com que os homens de Deus desviem-se do alvo e passem a servir a Satanás.

Quando então falamos sobre ouvir a palavra de Deus, precisamos compreender que SEMPRE que lemos e ouvimos a palavra de Deus (a verdadeira palavra de Deus e não a Bíblia como forma de dizer-se o que se deseja), é o próprio Senhor que está a se comunicar com os seus filhos e com todos aqueles que ainda não conhecem a Cristo mas que O leem e/ou O ouvem. Ouvir a palavra de Deus não é uma sugestão de Jesus ou de Paulo, mas uma ordem firmemente estabelecida nas Escrituras. Ir à igreja, reunir-se com os irmãos, falar sobre as Escrituras, lê-la, ouvi-la, cantá-la, não são "sugestões" bíblicas, mas mandamentos que TODOS os crentes devem seguir. Embora muitos crentes saibam disso (na teoria), negligencias tais mandamentos em seus cultos públicos.

A ideia moderna não é mais de que o culto público serve para o crente ouvir o Senhor e louvá-lo, mas sim que o culto público é o momento em que o crente faz o seu melhor "para Jesus". Tem-se disseminado a ideia de que o culto é um momento de - quase que - uma amostra de talentos humanos. Enquanto alguns apresentam-se tocando, solando, cantando, outros demonstram por meio da retórica e do bom falar o quão eruditos e ensinados são.

Meus irmãos, o que é que há em nós para dizermos que o culto é o momento de darmos o nosso melhor "para Jesus"? Acaso nosso grande mestre necessita de alguma coisa? Falta-lhe algum louvor nos céus para que precise de adoração vinda de um coração corrompido (ainda que regenerado)? Por algum motivo o Senhor Soberano está nos céus, mas não está satisfeito em si mesmo e por isso precise de louvores humanos? É necessário que compreendamos que o culto público não serve para o crente servir ao Senhor, mas justamente o contrário, isto é, são nesses momentos que o Senhor comunica-se conosco e agracia-nos com Sua presença. Certamente que durante o culto nós o louvamos, mas isso é diferente de dizer que o culto serve para darmos o nosso máximo - como se não precisássemos viver constantemente dessa forma.

Diante disso, pergunto: Qual deve ser nossa disposição para o culto ao Senhor? Nossa disposição deve ser a mesma do salmista quando disse: "Alegrei-me quando me disseram: Vamos à casa do Senhor" (Sl 122:1). Para os judeus do Antigo Testamento, Jerusalém era a cidade que representava a estadia do Senhor em meio ao seu povo. Para eles, ir à Jerusalém e louvar ao Senhor, era uma das maiores alegrias que poderiam lhes ocorrer, pois lá "encontravam-se" com o Senhor e juntos (em comunidade) louvavam e eram fortalecidos pelo Senhor.

Não temos mais a Jerusalém terrena como nosso ponto de referência, mas temos a reunião dos santos como o momento sublime de nossa semana. O ápice de nossos dias deveria ser o domingo, o dia do Senhor, o dia em que comungamos em torno da causa de Cristo e de Seu estandarte. Ao irmos para o culto dos crentes, deveríamos de ter em mente que não estamos indo para um mero ajuntar-se de amigos, mas que lá esperaremos de maneira REVERENTE o Senhor falar conosco. Porém, infelizmente não é isso que temos visto em muitas igrejas. A igreja atual tem pervertido o sentido do culto público. Tiraram-lhe o status de santidade e reverência devida e deram-lhe uma "roupagem nova" que para nada serve, exceto entreter os homens pecadores e atrair a ira do Senhor.

"O temor do SENHOR é o princípio do conhecimento; os loucos desprezam a sabedoria e a instrução" (Pv 1:7). Observe como o escritor chama aqueles que não têm o temor do Senhor: loucos! Homens sem juízo, cuja razão de existirem é tão somente para encherem e se fartarem do pão do mundo e para beberam da água que torna a dar sede. Homens que acham-se donos do próprio umbigo, que pensam que podem oferecer um fogo estranho ao Senhor, que não creem na suficiência das Escrituras para salvar e guiar o homem por esse mundo vil, que não atentam para as palavras do Senhor e por isso caminham em passos largos pela larga vereda, pensando consigo mesmos que estão a trilhar o reto caminho.

Tenho visto muitos crentes desperdiçarem o momento da palavra de Deus por muitos motivos fúteis e sem qualquer justificativa bíblica (aqui, não estou a falar sobre as vezes em que realmente estamos impossibilitados de ir ao culto público, seja por motivo de doença, necessidade urgente, ajuda ao próximo ou outra coisa qualquer). Amados, respondam para vocês mesmos: quantas vezes que vocês já vieram para a igreja com a cabeça "no mundo da lua"? Quantas vezes vocês fizeram mil e uma coisas antes de vir a igreja, exceto orar, ler e prepararem-se para esse momento? Quantas vezes vocês se "esqueceram" do horário do culto porque estavam entretidos com atividades que não eram lícitas para aquele momento? Quantas vezes que vocês deixaram de se organizar de maneira adequada e chegaram atrasados no culto por puro descaso para com a Palavra de Deus? Por algum motivo o culto público lhes é assim tão fútil e sem sentido que seus afazeres terrenos sejam de tal importância a ponto de cobrirem até mesmo esse momento dedicado ao Senhor? Quero crer que não e por isso passo a expor 3 motivos pelos quais devemos ouvir a palavra de Deus e também o porquê de precisarmos ouvir com um coração reverente - Rm 10.13-17.

1. Ouvir a palavra de Deus é a maneira que o Senhor usa para salvar o homem.

"Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados?" (vs. 13-15a). Embora ao homem moderno possa ser agradável a ideia de que Deus salvará homens que nunca ouviram falar do evangelho, não é assim que a Bíblia retrata a salvação. A salvação bíblica vem por meio da palavra de Deus, quer seja por meio da leitura das Escrituras ou pela pregação da verdadeira palavra de Deus.

O apóstolo Paulo nos ensina que " todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo", porém ele faz algumas perguntas aos romanos a fim de ensinar-lhes sobre como é possível o homem invocar o Senhor: "Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados?". O que Paulo está dizendo é que a palavra do Senhor precisa chegar ao homem ímpio para que ele seja regenerado. Certamente que a natureza revela-nos a criação do Sustentador de todas as coisas, mas ela não consegue comunicar-nos a salvação. Por mais que os rios, os pássaros e toda sorte de animais reflita e beleza e magnitude da criação, esses elementos não transmitem graça a ponto de retirar o homem de seu lamaçal de pecado em que está inserido. É a partir desse ponto que Paulo ensina os romanos dizendo-lhes que é necessário que o homem conheça o Senhor para então poder arrepender-se de seus pecados e ir a Cristo - pois como seria possível alguém ir até Cristo se nem ao menos O conhece ou ouvir falar?

Aqui, a ênfase de Paulo recai sobre a importância de pregarmos a palavra de Deus a toda criatura, mas implicitamente devemos lembrar que, se é necessário que preguemos a sã doutrina, é igualmente necessário que ouçamos atentamente o evangelho que é poderoso para nos salvar, isto é, se queremos pregar corretamente a palavra de Deus para nossos parentes, amigos, colegas e desconhecidos, precisamos estar firmemente estabelecidos sobre a rocha que é Cristo, pois caso contrário pregaremos um evangelho de homens e não de Deus.

2. Ouvir a palavra de Deus torna o homem formoso.


"Como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam o evangelho de paz; dos que trazem alegres novas de boas coisas" (v. 15b). Aqui, Paulo anima os irmãos a pregarem o evangelho e lhes dizem que grande e majestosa é essa tarefa! - "Como são belos os pés dos que anunciam boas novas!" (NVI). Paulo escreve aos romanos para que eles animem-se e preguem o evangelho, sabendo que esse dever não lhes é algo sem valor, mas que os torna belos ao olhos do Senhor, pois estão espalhando as boas novas, isto é, de que Cristo veio ao mundo para salvar pecadores. Aqui, é também necessário que tratemos como anteriormente, ou seja, de que se desejamos ser belos e formosos no serviço do reino de Deus, não podemos ser negligentes para com nossas disciplinas cristãs.

Escute bem o que vou lhes dizer: o jovem cristão não foi dotado de energia e grande vigor para aproveitar esses anos como bem lhe apraz. O jovem cristão não foi investido de grandes ideias para ganhar muito dinheiro e ficar viajando pelo mundo e conhecendo novos lugares. O jovem cristão não tem grande disposição para festas e encontros com os amigos, para ir dormir tarde no sábado e acordar "em cima da hora" do culto e praticamente dormir durante a pregação da palavra. O jovem cristão é aquele homem e aquela mulher que usa TODA a sua energia a fim de proclamar o evangelho de Cristo Jesus. O jovem cristão é aquele que aproveita sua "insônia" para ler, orar, pregar o evangelho e crescer em comunhão com Deus. O jovem cristão é aquele que sabe ser mordomo das coisas que lhe foram confiadas. O jovem cristão é aquele que planeja a sua semana a fim de poder descansar das atividades seculares e aproveitar o domingo como um momento de regozijo e restauração interior, pois teve uma semana de lutas e terá uma semana com grandes tentações que tentarão lhe persuadir o coração e fazer com que se desvie do reto caminho.

Quando Jesus disse, "porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem" (Mt 7.14), Ele não estava dizendo que a porta é estreita quando vista de longe, mas larga quando vista de perto. Não, não há aqui menção a qualquer teoria relativista ou humanista que busque acrescentar vãs filosofias do homem e que diga que na verdade o caminho é bastante largo, mas no intuito de amedrontar os homens, Jesus disse que era apertado e que por isso poucos há que encontrem a vida nele contida.. Há sim, e tão somente, a afirmação de que a porta é estreita e caminho que o crente deve seguir é um caminho apertado, isto é, ou pautamo-nos pelas Escrituras e encontramos a Vida ou estaremos no caminho largo e que leva à perdição e acharemos que estamos no caminho correto.

3. Ouvir a palavra de Deus não se traduz necessariamente em mudança de vida.

"Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem creu na nossa pregação? De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus" (vs. 16,17). Finalizando seu argumento iniciado no versículo 12 - "Não há diferença entre judeus e gentios, pois o mesmo Senhor é Senhor de todos e abençoa ricamente todos os que o invocam" - Paulo expõe aos irmãos de Roma que quando eles saíssem para pregar o evangelho, não deveriam esperar que todos se convertessem e voltassem-se para o Senhor, pois muitos os ouviriam, mas seriam cegados pelos seus pecados e rejeitariam a palavra do Mestre. Mas então, de que serviria a pregação se nem todos se convertem? Paulo responde dizendo que "a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus", isto é, ainda que muitíssimos não se dobrem diante do Altíssimo, a palavra de Deus é eficaz na vida de todo homem que se arrepende de seus pecados e torna a trilhar os caminhos do Reino.

De acordo com o que temos visto, devemos também saber que isso se faz presente em nossas vidas, pois o mero frequentar o culto público não se traduz obrigatoriamente em mudança vida. "Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou" (1 Jo 2:6). Neste ponto, vemos que João escreve dizendo que é um desdobramento natural da vida do crente o fato de ele buscar caminhar e viver conforme Cristo andou, "Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo" (Ef 4.13). Ao olharmos para a vida dos apóstolos de Cristo, certamente que encontramos muitas falhas e desvios, contudo uma coisa nos deveria chamar a atenção: eles buscavam estar perto do Mestre. Não me recordo de algum relato em que um dos apóstolos chegou "correndo" para o culto ou que no dia seguinte mandou uma carta para Jesus dizendo que não havia estado com ele no dia anterior porque lhe havia surgido uma oportunidade de encontrar-se com seus amigos ou viajar para algum lugar paradisíaco. O que encontro são homens falhos e pecadores, mas que deixavam tudo o que tinham para trás em busca e avançavam rumo ao Reino que lhes fôra prometido. "E Jesus lhe disse: Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus" (Lc 9.62).

Que nessa manhã possamos ser renovados pelo poder de Deus. Que o Seu santo Espírito manifeste-se em nossas vidas de maneira grandiosa e nos livre de toda indiferença para com Sua palavra. Que o Senhor quebrante nossos corações e nos leve a dar mais valor à Sua palavra pregada, lida e ouvida. Que possamos mudar nossos hábitos e valores a fim de crescermos espiritualmente em santidade, "sem a qual ninguém verá o Senhor" (Hb 12.14).

Amém.

domingo, 30 de outubro de 2011

O Genuíno Leite da Palavra - Daniel Roland (1711-1790)


"Como bebês recém-nascidos, desejai o leite genuíno da palavra, para que possais crescer por esse meio."(1 Pe 2:2)

Esta escritura contém uma ardente e amorosa mensagem aos judeus crentes, na qual o apóstolo os exorta a crescer na fé e em cada característica divina e sagrada. Sendo a pregação viva da Palavra da Verdade o meio pelo qual este crescimento é promovido e aperfeiçoado, Paulo os incita a ansiar e anelar por esta Palavra de Deus. Pois assim como esta Palavra é a comida e a nutrição da alma, da mesma forma os bebês recém-nascidos anseiam e choram por aquele leite de suas mães o qual está determinado para nutri-las e mantê-las vivas. As palavras aludem a dois tipos de nascimento: um nascimento é terreno e carnal e implica em ser nascido do primeiro Adão, através de quem o pecado original, como o veneno de uma víbora, espalhou-se e corrompeu todo o nosso ser. 0 outro nascimento é celestial e espiritual, e implica em sermos nascidos do segundo Adão que é Jesus Cristo, através de quem graça e santidade são inseridas e crescem em nós. Neste último nascimento Deus é o Pai que nos gera e a igreja é a mãe que nos dá à luz. A semente com a qual nós somos gerados novamente é a Palavra de Deus. As amas que nos encorajam e alimentam são os ministros de Jesus Cristo. E os seios onde sugamos, são os seios do evangelho que produz o leite genuíno como propõe o texto. Com a assistência de Deus nós veremos cinco pontos extraordinários que fluem naturalmente das ramificações separadas desta passagem. Consideremos:

Um Requisito Vital

O requisito que deve estar implantado em todos que seriam aperfeiçoados e edificados pela Palavra de Deus, que é: eles devem ser "como bebês recém-nascidos". Sabemos que bebês são elogiados por sua simplicidade e inocência. Esta deveria ser nossa característica distintiva, quem quer que sejamos, se somos instruídos e beneficiados na escola de Cristo ou retiramos a luz e o conforto da pregação da Palavra. "Deixai as criancinhas", diz nosso bendito Salvador, "virem a mim" (Mc 10:14). Ninguém está apto a ser ensinado por Ele a não ser que esteja convertido e se torne como uma criancinha". "A intimidade do Senhor está com os que o temem" (SI 25:14), o que dá a entender que Deus não admite que nenhuma alma não regenerada saiba o que é intimidade. Aqueles, contudo, que terão o Senhor Jesus como seu mestre, para revelar neles Sua mente e querer, devem estar despidos de seus pecados e limpos de toda impureza. Pois a sabedoria não repousará numa alma profana ou fará sua habitação em um coração que está manchado pela culpa. Como Satanás não habitará uma casa onde a verdadeira religião tem algum alicerce, assim o Espírito de Deus não permanecerá muito tempo em qualquer habitação que não esteja limpa de toda impiedade e injustiça. Deus não colocará vinho novo em odres velhos (Mt 9:17). Se não desejamos ter corações novos, não procuremos bênçãos novas. É conselho de Jeremias lavrar terra desocupada e não semear entre os espinhos, isto é, no meio daquelas preocupações materiais que brotam e sufocam as plantas do ensinamento sadio (Jr 4:3). E Salomão diz: "Guarda o teu pé quando entrares na casa de Deus" (Ec 5:1).

Comparando o comportamento do mundo em geral com estes versículos e outros semelhantes, um homem de senso e reflexão verá razão suficiente para estar afligido no mais íntimo de sua alma. Ah! Que devemos pensar de nós mesmos quando refletimos quanto alvoroço e barulho a respeito do mundo há entre alguns! Que desejos tolos há entre outros e quanta zombaria e escárnio estão na boca da maioria das pessoas! Seguramente o olho da fé pode ver todos entrando nas igrejas com o diabo nos seus corações e muitos deles saindo com a maldição de Deus sobre suas cabeças. A maioria das pessoas troca suas roupas no dia do Senhor e acharia duro se lhe fosse negado este prazer necessário. Mas, elas não se importam de trazer o mesmo coração que tiveram durante toda a semana para o ofício divino do dia do Senhor. Seus filhos e filhas, na sua maioria, gastam mais tempo diante dos seus espelhos a fim de aparecerem diante dos homens do que empregam em oração para santificar-se e preparar suas almas para chegar diante de Deus. Ah! Pobres almas, que podem dizer destas coisas? Sua desatenção não os desculpará. Sua leviandade e seu olhar de desprezo por mim em reprová-los agravará, ao invés de diminuir sua culpa. Eu apenas me desobrigo do encargo que recebi do Senhor. E se qualquer um do Seu povo me ouve, deixe-me implorar-lhe como se fôra Cristo, para que abomine os ditos pecaminosos e a conversa corrompida de um mundo perverso. Anseiam por ser como uma criancinha e, não apenas como criancinhas mas, como bebês recém-nascidos, tendo corações novos, membros novos, uma nova vida e novos desejos gravados em vocês. Convertam-se, não de um pecado apenas, mas, de todas as suas iniqüidades de modo a se tornarem totalmente outros homens ou novas criaturas. O velho coração, a velha mão e o velho olho não servirão; eles devem todos ser modelados novamente (2 Co 5:17).

De hoje em diante, se querem ser ouvintes que retém o que lhes é dito, não ousarão ter qualquer comunicação com o pecado. Vocês nem o abriguem nem o acolham. Mas, como a serpente lança fora sua pele, assim vocês livrem-se de suas concupiscências e paixões e venham, como crianças, ouvir a Palavra de Deus. O ferro deve ser aquecido antes que seja moldado, assim a alma deve ser aquecida pelo fogo da contemplação divina antes que esteja pronta para manejar a Palavra da vida. Vocês não devem tocar as coisas impuras nem com a ponta do dedo (2 Co 6:17). Pois um pequeno ladrão albergado na casa, abrirá as portas para muitos mais; um espírito imundo, vocês sabem, leva com ele sete outros e cada um deles mais perverso do que ele próprio (Mt 12:45). Vejam, em resumo, este é o estado de espírito que deve estar em vocês quando forem ouvir a Palavra de Deus: devem ser simples, despidos de preconceitos e santamente separados do pecado. Tais sejam vocês, assim renovados no espírito das vossas mentes e correspondam à descrição dada no texto e sejam como bebês recém-nascidos.

Fonte: MayFlower

A Lei do Culto - João Calvino


... oferecerei sacrifício de louvores do que é levedado, e apregoai ofertas voluntárias e publicai-as, porque disso gostais, ó filhos de Israel, disse o SENHOR Deus - Amós 4.5

Ao afirmar que os israelitas gostavam de fazer essas coisas, Deus repreende a presunção de inventarem por conta própria novos modos de culto; é como se ele dissesse: "Não exigi de você nenhum sacrifício senão os apresentados em Jerusalém, mas vocês os ofereceram a mim em lugares profanos. Por isso considerem os seus sacrifícios como oferecidos a vocês mesmos, e não a mim". Sabemos verdadeiramente  como os hipócritas, quando praticam quaisquer de suas obras e cerimônias frívolas, sempre convertem Deus em devedor deles; pois acham que Deus está obrigado a eles. "Vocês deveriam ter me consultado e apenas obedecido à minha palavra, deviam ter atentado àquilo que me agrada, o que eu ordenei; mas vocês desprezaram a minha palavra, negligenciaram a minha lei e foram atrás do que lhes agrava e procedia das suas próprias fantasias. Assim, visto que a própria vontade é a lei de vocês, busquem a recompensa em si mesmos, pois eu não admito nada disso. O que eu exijo é submissão implícita, nada mais procuro senão obediência à minha lei; como vocês não cumprem nada disso, mas agem segundo a própria vontade, isso não adorar o meu nome".

Por João Calvino
Fonte: CALVINO, João. Devocionais e Orações - Ed. Monergismo, pág 44

sábado, 29 de outubro de 2011

A realização da alma não é o lucro terreno, mas Prazer no Salvador


A realização da alma não é o lucro terreno, mas Prazer no Salvador. A perda e ou o ganho são apenas instrumentos para promover a Glória de Cristo. Nossos sucessos oferecem oportunidade de refletir sobre a bondade de Deus no passado. Nossas provações oferecem oportunidade de depender de sua suficiência no presente. Nossos sofrimentos temporarios nos ensinam a ter prazer nas suas promessas para uma eternidade sem lágrimas. A oração persistente em todas as circunstâncias manter novas essas perspectivas e exercitar a fé que as mantém fortes. Se nunca chegassemos ao fim de nossos recursos, se nossos filhos não tivessem de amadurecer, se nossas igrejas nunca enfrentassem dificuldades que durassem mais que um dia, e se nossas provações sempre desaparecessem com um desejo, não sentiriamos necessidade de voltar para Deus diariamente e com fervor. Contudo, é na comunhão regular com Deus que recebemos os nutrientes espirituais que a alma requer para crescer à semelhança de Cristo.

Por Bryan Chapell
Fonte: CHAPELL, Bryan - Começando pelo Amém - Ed. Cultura Cristã, pág. 113

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A Pregação Reformada - Richard Baxter



Na providência de Deus, estamos vendo um renovado interesse pela fé reformada e um conseqüente aumento do número de homens que têm sido impulsionados a pregar as doutrinas a graça. Mas qualquer novo progresso pode chegar a extremos; e sempre existe o perigo de um homem, no primeiro ímpeto de entusiasmo em favor daquilo que descobriu, se tornar, em seus esforços para ser completamente reformado, uma caricatura daquilo que ele admira.

É exatamente nisso que Richard Baxter pode ajudar-nos, pois, naquilo em que ele foi vigoroso, muitos são fracos em nossos dias. Consideraremos três características da pregação de Baxter que ala à nossa situação contemporânea.

A PREGAÇÃO DE BAXTER ERA CARACTERIZADA POR INSTRUÇÃO CLARA E NOTÁVEL.

Ele acreditava que um pregador deve argumentar com seus ouvintes. Devemos estar munidos com todo tipo de evidência, de modo que cheguemos com uma torrente ao entendimento de nossos ouvintes; e munidos com todos os argumentos e postulações, para que envergonhemos as suas objeções vãs e vençamos todas elas, para que eles sejam forçados a renderem-se ao poder da verdade.

Ainda que Baxter estava bem consciente das trevas da mente não regenerada, ele sempre se preocupou em esclarecer todos os mal-entendidos possíveis e em explicar aquilo que dizia. Os sermões de Baxter tinham uma estrutura lógica: primeiro, a introdução do texto bíblico; em seguida, a explicação das dificuldades; depois, as aplicações e a exortação.

Mesmo estando em meio à mais comovente argumentação, Baxter recorreria ao auxílio da razão. Após implorar com grande ternura e poder, com o propósito de fazer Cristo e a salvação resplandecerem, Baxter terminava enumerando nove falsos fundamentos da certeza de salvação, seguidos pelos oito testes pelos quais seus ouvintes poderiam comprovar sua própria sinceridade.

Um orador erudito consideraria um desperdício o não utilizar esse impacto emocional, mas Baxter se propunha em deixar que a verdade causasse seu próprio impacto; e ele pregava não primariamente para mover os homens, e sim para ensiná-los.

As verdades que ele proclamava eram fundamentais.

Durante todo o nosso ministério, temos de insistir principalmente sobre as verdades primordiais, as verdades mais seguras e as verdades mais necessárias; e temos de ser mais escassos e esparsos nas demais verdades.
Há muitas outras coisas que são desejáveis de conhecermos; algumas, porém, têm de ser conhecidas, pois, de outro modo, o nosso povo ficará despreparado para sempre.Isto é muitíssimo diferente da pregação que elabora um exame, superficial de algumas passagens muito usadas ou, mais habitualmente, um exame de alguns versículos das Escrituras e da pregação que descarta qualquer outra coisa como algo que não faz parte do evangelho.

Baxter fazia uma abordagem profunda e argumentava com um conhecimento íntimo do texto bíblico. Ele apresentava as verdades fundamentais em toda a plenitude de seu inter-relacionamento, bem como em toda a plenitude de sua aplicação. Todavia, ele acreditava que a pregação deve alcançar as necessidades das pessoas; que se comete um erro quando as grandes necessidades delas deixam de ser alcançadas; e que a .questão das necessidades deveria estar sempre à frente.

As grandes verdades fundamentais eram ensinadas em linguagem simples, pois não existe maneira melhor de fazermos uma boa causa prevalecer do que por meio de torná-la bastante clara.

Visto que o propósito do pregador é ensinar, ele tem de falar de maneira que seja entendido. Naqueles dias em que havia os provadores de sermões, Baxter era criticado pela clareza de sua linguagem e teve de lutar contra o orgulho de seu coração, que o pressionava a utilizar um estilo mais polido de linguagem.

Deus nos mandou ser tão claros quanto pudermos, a fim de que os ignorantes sejam instruídos... mas o orgulho permanece ao nosso lado e contradiz tudo, produzindo suas trivialidades e suas brincadeiras. Ele nos persuade a pintar a janela, para que a luz se torne menos brilhante. Isto certamente nos desafia.

Nós temos como alvo o oferecer exposição argumentada da verdade para o nosso povo. No entanto, em nossa preparação, procuramos esclarecer qualquer dificuldade possível e fornecer argumentos que convencem as mentes de nossos ouvintes? Ou temos nos tornado negligentes por causa de sua aprovação sem críticas?

Nos sentimos tão receosos de ser rotulados como fundamentalistas que gastamos maior parte de nosso tempo nos cantinhos menos conhecidos das Escrituras? É possível um homem adquirir a reputação de administrador de um restaurante para gourmets reformados, produzindo raridades teológicas que são obtidas em algum lugar enquanto muitas das ovelhas famintas de seu rebanho olham para elas e não são alimentadas?.

É um erro trágico concentrar-se naquilo que desejamos conhecer e negligenciar aquilo que temos de conhecer . O nosso povo realmente entende as verdades centrais a respeito das alianças de Deus, da pessoa e obra de Cristo, do pecado, da regeneração, do arrependimento e da fé?

Até que os fundamentos da fé dos membros de nossa igreja não estejam firmemente estabelecidos, faremos bem se atribuirmos menos ênfase sobre a imensa estrutura doutrinária das Escrituras. Pregamos em linguagem simples? Sem dúvida, procuramos evitar expressões superacadêmicas. É verdade que muitos dos vocábulos poderosos das Escrituras nunca podem ser omitidos de nosso vocabulário. Sem dúvida, eles têm de ser explicados e, depois, incorporados à mente e à conversa de nossos ouvintes. Apesar disso, fazemos conscientemente todo o esforço necessário para evitar os chavões hipnóticos e paralisadores do pensamento, a fim de apresentarmos a verdade com uma roupagem nova e contemporânea? Baxter nos convida a realizarmos um ministério de pregação no qual os fundamentos da fé são apresentados com atratividade e clareza.

A PREGAÇÃO DE RICHARD BAXTER ERA CARACTERIZADA POR UM ARDENTE APELO EVANGELÍSTICO.

A grande realidade que moldava seu ministério era o fato de que todos comparecerão diante do tribunal de Cristo. Sua extrema fraqueza física aumentava sua consciência de que havia apenas um passo entre ele mesmo e a morte, que Baxter chamava de sua vizinha. Todos os deveres tinham de ser cumpridos, todos os sermões deveriam ser pregados à luz daquele grande Dia. Todos os dias, eu sei e penso que está se aproximando a hora, dizia Baxter.

Sua congregação foi descrita como um grupo de pecadores carnais, miseráveis e ignorantes, que tinham de ser transformados ou condenados. Parece que posso vê-los entrando na condenação final! Parece que eu os escuto clamando por socorro, pelo socorro mais urgente!.

Essa consciência da eternidade tornou Baxter um pregador emocional.

Se você deseja conhecer a arte de apelar, leia Richard Baxter, disse Charles Spurgeon. Entretanto, a emotividade de Baxter não era indisciplinada; era motivada por uma compreensão da verdade, pois ele não tinha tempo para um fervor simulado. Primeiramente, a luz; depois, o calor, este era seu moto: em primeiro lugar, a exposição da verdade; em seguida, as pungentes palavras de apelo, resultantes da verdade.

No final de seu livro: Uma Chamada ao Não-Convertido, Para que se Converta e Viva.

Baxter apelou aos seus ouvintes com uma seriedade tão amável que podemos quase ver as lágrimas em sua face. Meu coração está perturbado em pensar como deixarei vocês, para que eu não os deixe como os encontrei, até que acordem no inferno.... Hoje, entre vocês sou um pedinte tão ardoroso, por causa da salvação da alma de vocês, como se estivesse pedindo algo para satisfazer minha própria necessidade e estivesse obrigado a vir como um mendigo às portas das casas de vocês. Portanto, se vocês pretendem me ouvir, ouçam-me agora.

E, se vocês querem demonstrar piedade para comigo, suplico que nesse momento tenham piedade de vocês mesmos. Ó senhores, creiam: a morte e o julgamento, o céu e o inferno se tornam outra coisa quando nos aproximamos deles, diferentes daquilo que pensávamos quando deles estávamos distantes.

Quando deles se aproximarem, vocês ouvirão a mensagem que lhes estou apresentando, com corações mais despertos e atenciosos. O assunto central da pregação de Baxter era um urgente convite para que o ouvinte recebesse a Cristo.

Richard Baxter pregava esperando um veredicto; ele procurava levar os pecadores a perceberem que tinham de ser, inevitavelmente, convertidos ou condenados.

As palavras finais de Baxter em seu livro. Desprezando a Cristo e a Salvação são poderosas e pungentes: Quando Deus remover de seus corpos aquelas almas descuidadas, e você, leitor, tiver de responder, em seu próprio nome, por todos os seus pecados; então, o que você não daria por um Salvador? Quando você perceber que o mundo o abandonou, que seus companheiros de pecado iludiram a si mesmos e a você e que todos os seus dias de felicidade se acabaram; então, o que você não daria por Cristo e pela salvação que você agora não considera ser uma coisa digna de se esforçar por ela? Você que não menospreza uma pequena enfermidade, uma necessidade ou a morte natural, não, nem mesmo uma dor de dente, mas lamenta como se estivesse arruinado; como você despreza a fúria do Senhor, que arderá contra aqueles que condenam a sua graça?

Agora posso reconhecer qual será a sua determinação para os dias futuros. O que você tem a dizer? Você pretende continuar desprezando a Cristo e a salvação, como o tem feito até agora, e, apesar disso, ser o mesmo homem? Espero que não.

O gume afiado estava sempre presente nas mensagens de Baxter uma decisão tinha de ser tomada, um veredicto precisava ser dado, e uma oferta de misericórdia, aceitada ou rejeitada.

No entanto, isso está bem longe de corresponder ao decisionismo superficial.

O pregador arminiano tem receio do que a mente pode dizer ao coração, depois que terminar o culto; por isso, ele tenta compelir os ouvintes a uma decisão da vontade, antes que pensamentos posteriores deles os afastem de Cristo. Baxter não somente se mostrava corajoso em lidar com os pensamentos posteriores, mas também contava com tais pensamentos, esperando que seus ouvintes refletiriam profundamente sobre aquilo que havia sido pregado. Assim, vemos Baxter plantando bombas-relógios nas mentes de seus ouvintes, aplicações que continuariam a falar, depois que a voz de Baxter silenciasse. Não posso acompanhá-los até suas casas, para aplicar a Palavra às necessidades diárias de vocês. Oh! que eu possa transformar a consciência de vocês em um pregador, e que ela pregue para vocês mesmos, pois está sempre acompanhando-os! Da próxima vez que forem deitar-se ou dirigirem-se ao trabalho, sem haver orado, que a consciência de vocês grite bem alto.

Você não se preocupa mais com Cristo e com a salvação de sua alma? Da próxima vez que se apressarem para a prática de um pecado conhecido, que a consciência de vocês clame: A salvação e Cristo não são mais dignos, para que você os despreze ou os arrisque por causa de suas concupiscências? Da próxima vez que vocês passarem o dia do Senhor em ociosidade ou esportes vãos, que a consciência lhes diga o que estão fazendo.

Baxter tomava cada um dos aspectos da vida e os arregimentava como um pregador, de modo que os pecadores ficassem cercados por um ambiente em que cada parte declarasse as reivindicações divinas.

Quer com justiça, quer não, em muitos lugares os pregadores reformados têm uma reputação de serem restritos e impessoais em suas mensagens.

Isso pode ser uma reação contra os excessos de nossa época, contra o zelo sem discernimento, o calor sem a luz, a sã doutrina sem o bom senso. Não tem sido esta uma reação excessiva? Nós, que vemos Deus em todos os aspectos de nossa vida, poderíamos ser mais profundamente impressionados pela realidade das coisas eternas.

Compreendendo a miséria da depravação humana e a maravilha da graça soberana, deveríamos nos sentir profundamente comovidos, quando essa verdade nos envolvesse. A evolução de nossa mente atrofiou de tal modo nosso coração, que nos leva a suspeitar das emoções autênticas?

Hesitamos em pregar com insistência o evangelho aos homens, por medo de sermos considerados arminianos? Um pregador reformado pode considerar os cinco pontos do calvinismo como um campo minado pelo qual ele anda na ponta dos pés; e isto pode levá-lo a sentir-se tão temeroso de explodir em meio a uma expressão mal-utilizada, que ele não chega a almejar a conversão de seus ouvintes.

O poder e o impacto de um sermão se perdem no emprego de milhares de termos qualificativos utilizados na mensagem.

Nossa pregação será uma caricatura, se faltar um apelo sincero para que os homens recebam o Cristo todo suficiente, que se oferece livremente a todos os que vierem a Ele. As verdades do calvinismo não são barreiras que têm de ser ultrapassadas, antes que o evangelho seja pregado; antes, elas são uma plataforma da qual pregamos com mais poder. É exatamente porque a graça é soberana e livre, que podemos proclamá-la com mais paixão; porque a redenção adquirida por Cristo é completa e certa, podemos recomendá-la com muito brilho; porque Deus, de acordo com sua própria vontade, escolheu alguns homens para a salvação, podemos pregar confiantemente.

Se os pastores reformados têm de permanecer em harmonia com as Escrituras, temos de gravar esse elemento da pregação de Baxter.

A PREGAÇÃO DE BAXTER ERA ACOMPANHADA POR ACONSELHAMENTO PASTORAL SISTEMÁTICO.

Ele não fazia qualquer divisão, como a que existe hoje, entre pregação e trabalho pastoral, pois ele entendeu o que Paulo quis dizer, quando recordou aos crentes de Éfeso, que lhes havia ensinado publicamente e de casa em casa. A tarefa do pastor é uma só a mesma verdade comunicada ao mesmo povo, tendo o mesmo propósito: a glória de Deus, por meio da salvação ou da condenação.

Talvez nisto Baxter se mostre mais útil aos pastores de nossos dias em estabelecer uma forte ligação entre o púlpito e o pastorado.

Baxter esperava que conversões resultassem de sua pregação. Ele aconselhou seus colegas de ministério: Se vocês não desejam ardentemente ver a conversão e a edificação de seus ouvintes, se não pregam nem estudam com esta esperança, provavelmente vocês não obterão muito sucesso.

Baxter dependia completamente do Senhor para obter sucesso em sua pregação; ele atacava com todo o vigor a abominável atitude de um pregador utilizar a soberania de Deus, em conceder ou não a salvação, como uma desculpa para a negligência. O pregador tem de desejar muito a conversão de seus ouvintes e encher-se de tristeza se eles não responderem ao convite do evangelho.

Sei que um pastor fiel pode consolar-se, quando lhe falta sucesso... mas o pastor que não empenha-se por ser bem sucedido em seu trabalho não pode ter qualquer consolo, porque não é um trabalhador fiel.

Esse desejo intenso por resultados levou Baxter a visitar as casas de seus ouvintes e fazer a obra de catequização pessoal. Ele procurava descobrir quanto os seus ouvintes haviam entendido da pregação, que efeito a pregação tivera sobre eles e se haviam ou não recebido a oferta de misericórdia por meio do evangelho. A semente que ele havia plantado precisava de cultivo posterior? As ervas daninhas precisavam ser arrancadas daquele solo? Essas perguntas poderiam ser respondidas somente através da conversa pessoal.

A princípio, Baxter esquivou-se da obra. Muitos de nós temos uma vergonha tola que nos faz recuar, em começar a obra com os ouvintes e conversar claramente com eles. Mas, à medida que ele ganhou experiência, esse aconselhamento pastoral se tornou a obra mais confortável, exceto a pregação pública, na qual eu já coloquei minhas mãos a realizarem.

Devemos ressaltar que foi a seriedade de Baxter como pregador que o tornou um pastor tão diligente. Sua visitação aos lares serviu-lhe de instrumento para explicar e aplicar posteriormente aquilo que havia dito no púlpito.

Na verdade, ele descobriu que as pessoas não receberiam a sua pregação com a devida seriedade, a menos que ela fosse reforçada por uma abordagem pessoal e achegada.

Em uma passagem clássica de seu livro O Pastor Aprovado, Baxter disse:

Os seus ouvintes lhe darão oportunidade de pregar contra os pecados que eles cometem, assim como clamar do púlpito em favor da piedade, se você não os confrontar depois, ou em contato pessoal posterior for favorável ou demasiadamente amigável com eles... Eles consideram o púlpito como um palco, um lugar onde os pregadores têm de apresentar-se e realizar o seu papel; onde você tem a liberdade de falar, durante quase uma hora, sobre o que você escreveu em seu esboço; e o que você pregou eles não levam em consideração, se não lhes mostrar, por falar-lhes face a face, que você estava pregando com seriedade e realmente pretendia dizer o que pregou em sua mensagem. 

A obra pastoral de Baxter não somente reforçava o que ele havia pregado, mas também o ajudava a pregar com mais pungência e relevância no futuro. Conversar uma hora ou mais com um pecador ignorante e obstinado lhe fornecerá, tão bem quanto uma hora de estudo no escritório, assuntos úteis a serem apresentados em seus sermões; pois você saberá sobre que assunto precisa insistir e quais objeções desses pecadores você terá de repelir.

Baxter conheceu o seu povo, a personalidade, os problemas, as tentações, a maneira de viver deles. Ele se assentava onde eles se assentavam; assim foi capacitado a pregar sermões elaborados para as necessidades particulares deles. Para um homem ser um verdadeiro pregador, ele tem de ser um verdadeiro pastor. Temos de reconhecer a centralidade da pregação, mas será que não utilizamos isso como desculpa para a covardia e a indiferença pastoral? O fato de que pregamos publicamente contra os pecados dos homens nos absolve da responsabilidade de confrontá-los, em seus lares, a respeito dos mesmos pecados? Somos chamados para ser estudantes diligentes, para trabalhar na Palavra, para estar em nosso lugar secreto.

No entanto, o estudo pode se tornar um refúgio conveniente para fugirmos da realidade, e podemos facilmente por meio da leitura de mais um livro tranqüilizar nossa consciência no que diz respeito a uma visita não realizada. Muitos de nós temos descoberto, para nossa vergonha, que a coragem com que temos pregado pode evaporar-se durante o trajeto até à porta da casa da pessoa para a qual estamos nos dirigindo, a fim de visitá-la. Havendo trovejado, com ousadia, contra o pecado, nos encontramos procurando conciliar-nos, por meio de um sorriso e de um aperto de mãos, com aquelas mesmas pessoas cujas consciências estávamos procurando ferir; estamos procurando ser amigos e nos alegrarmos com eles; estamos preferindo que Deus fique irado com eles, ao invés de eles ficarem irados conosco.

Na tentativa de ressaltarmos a importância da pregação, é possível reagirmos de maneira errônea, por minimizarmos a obra pessoal.

O aconselhamento pessoal não pode ser um substituto para a Palavra pregada, mas, como um instrumento de reforçar e aplicar a Palavra à consciência do indivíduo, o aconselhamento pastoral cumpre uma função singular.

Além disso, serve também para nos tornar pregadores melhores, e não piores. Quando visitamos de casa em casa, a neblina de nosso estudo será desfeita e voltaremos a fim de preparar sermões de acordo com a vida e na linguagem do povo.

Este foi Richard Bartex de Kidderminster, um pregador que trabalhou muito para tornar clara a verdade de Deus, que falava com um coração ardente, enquanto apelava ao seu povo que se aproximasse de Cristo; um pastor que conhecia suas ovelhas por nome, que falava com elas pessoalmente a respeito das grandes preocupações de sua alma.

Richard Baxter não é simplesmente uma curiosidade histórica, um fóssil para ser admirado; ele é um estímulo, uma reprovação, um encorajamento.

Em suas Meditações Sobre a Morte, Baxter revela o coração do pregador: Meu Senhor, não tenho nada a fazer neste mundo, exceto buscar-Te e servir-Te; não tenho nada a fazer com o coração e suas afeições, exceto amar-Te intimamente; não tenho nada a fazer com os lábios e com a caneta, exceto falar sobre Ti, a favor de Ti, e publicar a tua glória e a tua vontade.

Por: Edward Donnely
Fonte; MayFlower

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Deus Escreve Certo por Linhas Tortas?


Pergunta: "Algumas pessoas quando exortadas sobre procedimentos errados de evangelização ou explanação do evangelho fazendo que as pessoas que estejam ouvindo ou assistindo tenham um entendimento no minimo equivocado sobre a conversão, se defendem dizendo que "se Deus quiser aquela pessoa mesmo exposta a tais erros serão alcançadas"... Não estou questionando o poder de Deus, só quero saber biblicamente se realmente é possível a pessoa ser alcançada sem a correta explanação da palavra ou pode mesmo que esta explanação venha com alguns erros?"

Meu irmão, é o seguinte: Deus pode transformar o mal em bem, a exemplo da história de José, vendido por seus irmãos como escravo e que depois se tornou governante do Egito para "salvar" não somente seus irmãos mas toda a casa de Israel da destruição. O mesmo pode ocorrer quando muitos, mesmo evangelizados incorretamente, se arrependem e reconhecem Cristo como Senhor e Salvador das suas almas; pois o chamado do Senhor para aquela alma que se arrepende verdadeiramente persiste e é verdadeiro [creio que no futuro, Deus "consertará" os erros na vida daquela pessoa que foi evangelizada incorretamente, seja por algum erro doutrinário ou pelo emocionalismo/pragmatismo]. Mas o fato é que ninguém pode agir, ou melhor, levar uma falsa doutrina ou um método que não seja bíblico de evangelização sem estar em rebeldia e desobediência a Deus. Com isso, quero dizer que, mesmo Deus consertando as coisas, aquele que evangeliza errado, por culpa ou dolo, está em pecado, e será cobrado por isso. O fato dele não se aperceber do seu erro, e achar que está fazendo a "vontade de Deus" não o exime da culpa, de estar em rebelião, cometendo pecado.

Alguns dirão que o importante é levar a alma perdida ao arrependimento, ao encontro com Jesus, mas, pergunto: por que é necessário usar de doutrina e método não bíblico para isso? E o número ainda maior daqueles que acreditarão estarem salvos e, na verdade, estarão se iludindo com uma salvação que não têm? O mal que a doutrina errada e o método errado de evangelização provocam é muito maior do que o suposto bem que eles trazem. O Senhor Jesus ao dizer que muitos se aproximariam dele argumentando: em teu nome fizemos isso, em teu nome fizemos aquilo, etc, se referia também a esse problema. E a resposta do Senhor é clara: apartai-vos, vós que praticais a iniquidade. Pois muitos creem servi-lo, quando não o servem; e a ignorância não é desculpa para o engano, e para enganarem também.

Paulo nos diz que muitos pregam o Evangelho dolosamente, mas importa que o Evangelho seja pregado. Deus poderá se utilizar de toda a obra humana para fazer o bem aos eleitos, mas isso não tirará a culpa nem a condenação daqueles que agiram assim contra a sua vontade. Também percebemos que Paulo não está dizendo que não importa sobre o que se pregue do evangelho, mas sim sobre que "não importa o motivo", isto é, ainda que uns preguem a sã doutrina, mas a façam pelo orgulho, Paulo diz que o importante é que o evangelho esteja sendo pregado - pois estava preso e não podia pregar.

Se tomarmos essa ideia de que Deus escreve certo por linhas tortas, o foco deixa de ser a alma evangelizada para ser a alma que evangelizou de forma errada. Deus consertou o erro salvando a pessoa mal-evangelizada, pois a salvação procede dele, mas quem agiu erradamente será cobrado, e muitos ouvirão do Senhor: apartai-vos de mim, pois não vos conheço!

Não podemos misturar as coisas, pois Deus quer primeiramente a nossa obediência, e sabemos que os frutos que produzimos somente os produzimos pelo poder de Deus. Com isso, quero dizer que uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa. Através de uma mensagem pregada erradamente, Deus pode salvar, mas quem pregou erradamente será responsabilizado por não obedecer nem cumprir os preceitos divinos, e por levar um número muito maior de pessoas a suporem-se salvos quando estão condenados. Deus pode usar o erro para que o bem seja feito, mas o erro sempre trará consequências danosas para as almas daqueles que creem nele, e persistem nele. Por isso, somos constantemente exortados pela Escritura a não errar, e a nos afastar do erro, que nada mais é do que o pecado contra Deus.

Por último, é também necessário notarmos que Deus não fica "consertando" os erros dos homens, como se os homens fizessem coisas sem a autorização de Deus. O que ocorre é que Deus decreta o mal aos homens; em seus eleitos o mal serve para instruir e levar-os ao pleno conhecimento da verdade, e aos ímpios para levá-los à perdição.

Cristo o abençoe!

Texto por: Jorge e Filipe

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Segundo elemento constitutivo do culto público: Leitura da Palavra de Deus - Sermão pregado dia 23.10.2011 -


Segundo elemento constitutivo do culto público:
Leitura da Palavra de Deus -
Sermão pregado dia 23.10.2011

Queridos irmãos, dando continuidade ao que vimos na semana passada, a saber, que a pregação a partir da Bíblia é o primeiro elemento do culto público (clique aqui para ler), hoje veremos o segundo elemento que constitui o culto público do Senhor: a leitura da Palavra de Deus.

Antes de iniciarmos esse ponto, é importante salientar que quando falamos sobre "elementos constitutivos do culto público", estamos a dizer que a Bíblia nos relata uma série de feituras durante a reunião dos crentes em Cristo Jesus e que esses feitos devem ser continuados pelos cristãos de hoje. Isso também significa dizer que quando nos reunimos, buscamos fazer somente aquilo que temos aval bíblico (em forma de doutrina ou exemplo), para não corrermos o risco de acrescentarmos "atos de louvor" não prescritos e autorizados pelas Escrituras. "Tudo o que eu te ordeno, observarás para fazer; nada lhe acrescentarás nem diminuirás" (Dt 12:32).

Ainda em tempo: mas como podemos saber o que Jesus e os próprios apóstolos faziam durante o culto público? Certamente que a resposta não nos é muito fácil de responder, contudo quando lemos as Escrituras percebemos que em momento algum nos é dito que os apóstolos fizeram um teatro, convidaram alguns jovens para dançar em frente à congregação ou que convidaram um grupo musical para servir de "mediador" entre os que cantam e Deus. Não temos esses (e muitas outras práticas corriqueiras da igreja moderna) exemplos bíblicos para nos basearmos. Porém, isso não significa que teatro, dança e banda musical sejam algo errado e pecaminoso, mas sim que essas atividades têm o seu lugar específico em outros momentos da vida cristã, isto é, podem ser feitos (desde que com moderação - como convém aos santos), mas não durante o culto.

Também nos é importante notar que não há na Bíblia um versículo que nos diga o que podemos e o que não podemos fazer durante o culto público e é justamente por isso que precisamos "garimpar" as Escrituras para entendermos o que os apóstolos faziam quando se reuniam para louvar ao Senhor. Nossa defesa será fraca se procurarmos por algum "versículo prova" (um versículo que prove que todos os elementos que estamos estudando são requeridos pelo Senhor), porém ao analisarmos TODA a Escritura, podemos visualizar uma série de elementos que constituíam a vida daqueles santos homens. Traduzindo: embora não tenhamos um versículo específico em que podemos nos embasar, há vários deles e muitas situações que nos mostram o que de fato os apóstolos e a igreja primitiva fazia durante as suas reuniões públicas de louvor e adoração.

O segundo elemento constitutivo do culto público é uma sequencia do primeiro, ou seja, se pregamos somente a partir da Bíblia, também precisamos ler a Bíblia para que sejamos fortalecidos e instruídos no Senhor. 

"Persiste em ler, exortar e ensinar, até que eu vá" (1 Tm 4:13). Quando Paulo exorta Timóteo sobre como ele deveria guiar a sua igreja até que ele o visitasse, ele o instrui a persistir na leitura da palavra durante a reunião dos santos. Deixem-me dar 3 motivos pelos quais creio que a Bíblia requeira de nós essa prática durante o culto público (veja que há uma diferença entre pregação e leitura da palavra - são dois momentos distintos):

1. A leitura da Palavra de Deus lembra-nos do quão importante ela é.

"Amo os teus mandamentos mais do que o ouro, e ainda mais do que o ouro fino. Por isso estimo todos os teus preceitos acerca de tudo, como retos, e odeio toda falsa vereda. Maravilhosos são os teus testemunhos; portanto, a minha alma os guarda. A entrada das tuas palavras dá luz, dá entendimento aos símplices" (Sl 119:127-130). "A lei do Senhor é perfeita, e revigora a alma. Os testemunhos do Senhor são dignos de confiança, e tornam sábios os inexperientes. Os preceitos do Senhor são justos, e dão alegria ao coração. Os mandamentos do Senhor são límpidos, e trazem luz aos olhos. O temor do Senhor é puro, e dura para sempre. As ordenanças do Senhor são verdadeiras, são todas elas justas. São mais desejáveis do que o ouro, do que muito ouro puro; são mais doces do que o mel, do que as gotas do favo. Por elas o teu servo é advertido; há grande recompensa em obedecer-lhes" (Sl 19:7-11). 

A leitura da Palavra de Deus leva-nos a vislumbrar o quão precioso é o texto que temos em mãos e que importância ele deve ter em nossas vidas. Os salmistas constantemente expressavam sua paixão pela lei do Senhor e por tudo aquilo que Ele havia instituído para o Seu povo. 

Quando lemos as Escrituras, é importante notarmos que as "proibições" e exortações que ali estão, são para nossa advertência e admoestação, mas também para nossa bênção! Muitos crentes queixam-se de que a Bíblia dispõe de muitas "regrinhas" para suas vidas, porém esquecem-se que, em primeiro lugar, essas "regrinhas" são meios para que o caráter e a vida do homem temente a Deus seja transformado durante sua peregrinação na terra e, em segundo lugar, que essas "regrinhas" não foram feitas por um mero mortal, mas pelo Senhor dos Exércitos, cuja índole impenitente do homem não regenerado não estará livre da ira de Suas mãos e certamente será castigada no tempo oportuno. Tal qual um pai que proíbe seu filho de voltar tarde para casa porque o ama, assim também o Senhor nos traça limites para que trilhemos um caminho Santo por esse mundo, pois "sem santidade ninguém verá o Senhor" (Hb 12.14).

A palavra de Deus deve ser regularmente lida durante o culto, porque isso demonstra à toda congregação (e também aos visitantes) que o povo de Deus que ali se reúne, reúne-se em volta da Palavra de Deus e não à procura de entretenimento e felicidade passageira. Neste ponto, os puritanos foram excepcionais. Após romperem com o anglicanismo e toda sorte de acréscimos que havia dentro da igreja, passaram a eliminar do culto toda e qualquer forma litúrgica e estética que pudesse levar os homens a acharem que o momento do culto era feito para eles próprios e não para Deus. Os puritanos tinham como certo que a centralidade do culto público deveria estar na Palavra de Deus e por isso mesmo fizeram questão de colocar o púlpito exatamente em frente à congregação e no meio dela, pois desejavam que todo homem que entrasse pelas portas da santa igreja, visualizasse imediatamente a centralidade daquele lugar: a palavra Deus. Mas o que encontramos nos dias de hoje? Muitas vezes um imenso palco é o que nos sobe às vistas quando entramos em determinadas igrejas. Grandes e ostensivos sistemas de iluminação e som é que predomina em muitos ambientes - gerando grande dúvida se de fato tem-se a Palavra de Deus como centralidade daquele momento.

É necessário que entendamos que centralidade implica em dizer que precisamos fazer TUDO baseando-nos nas Escrituras. Se cantamos, por que cantamos? Se tocamos, por que tocamos? E ainda: podemos cantar o que estamos cantando? Podemos tocar o que estamos tocando? Parece-me que as vezes a igreja de Cristo tem se tornado "inocente" além do requerido pelas Escrituras. Muitos homens dizem: "Mas isso não tem importância, irmão, é um assunto de pouca importância quando comparado a outras coisas - deixe disso e nos foquemos no amor..." - a estes eu pergunto: como algo pode ser pequeno diante de Deus tão grande e poderoso? Se Deus é soberano e nos deixou Sua Palavra viva para nós, como podemos fazer "pouco caso" daquilo que fazemos em nossos cultos e em nossas vidas?! Acaso o Senhor Jesus fez pouco caso de Seu Pai que havia-o enviado pelos Seus? Em algum momento vemos Jesus dizendo que determinado assunto não tinha importância, pois se eles estavam fazendo um pouco certo e um pouco errado isso já era melhor do que fazer tudo errado? Se "a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais afiada que qualquer espada de dois gumes; ela penetra ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e julga os pensamentos e intenções do coração" (Hb 4.12), como pode ser possível que o coração do evangelho que habita nos crentes, por vezes pare de bater, apenas porque alguns homens mesquinhos dizem que não precisamos nos pautar em todo o tempo nas Escrituras? Se queremos ver o sangue do evangelho circulando em nossas veias, é necessário que tenhamos a Bíblia pulsando em nossos corações.

2. A leitura da Palavra de Deus exorta-nos a buscar o Seu conhecimento.

"Meu povo foi destruído por falta de conhecimento" (Os 4.6). "Pois desejo misericórdia, não sacrifícios, e conhecimento de Deus em vez de holocaustos" (Os 6:6).

Quando lemos as Sagradas Escrituras e percebemos algum desvio de determinado homem ou do povo de Deus,  na sua totalidade de vezes (de forma explícita ou implícita), esse desvio se deu por conta do esquecimento da lei do Senhor e de Seus santos e retos propósitos.

Infelizmente temos vivido em uma geração de comida rápida, de computadores rápidos, de conversas rápidas, de amizades rápidas, de casamentos rápidos, de empregos rápidos, de carros rápidos, de viagens rápidas... Tudo tem se tornado passageiro e tudo vem com a mesma facilidade com que vai - e é nesta ceara que os crentes devem labutar arduamente.

O profeta Oséias declara ao povo que o motivo de terem sido destruídos não foi porque tinham boas intenções nem porque eram um povo que buscava conhecer ao Senhor, mas sim porque lhes faltou conhecimento! É sempre importante notarmos que a Igreja de Cristo constitui-se de duas classes de pessoas: dos verdadeiros crentes em Cristo e dos "simpatizantes do evangelho" que na verdade nunca se tornaram filhos de Deus - e é justamente por essa causa que os verdadeiros crentes em Cristo precisam buscar a cada dia o conhecimento de Deus, pois caso contrário serão levados por falsos irmãos e trilharão caminhos contrários à palavra de Deus. 

Paulo escrevendo à igreja de Éfeso e falando sobre a importância da vocação para que eles haviam sido chamados e instruindo-os sobre que deveriam viver em harmonia, diz-lhes que "O propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro" (Ef 4:14). O mal deve ser erradicado de dentro da igreja. Essa conversa de que é melhor que o jovem venha para a igreja e não preste atenção e viva de maneira indigna, do que vá em alguma "festinha" e peque descaradamente, é pretexto para que toleremos o mal dentro da Santa Igreja de Cristo e assim a tornemos impura e sem valor.

Muitos perguntam-se porque é que no Antigo Testamento as pessoas morriam quase que instantaneamente ao cometerem pecado. A resposta é simples: porque o povo de Deus precisava compreender que o pecado é algo horrível e punível com a morte eterna. Homens eram punidos porque violavam o sábado, homens eram mortos porque traíam suas esposas, homens eram mortos porque roubavam e furtavam - homens eram mortos por todo ato contrário à lei de Deus e que merecia a morte. Infelizmente essa doutrina - da punição de Deus - tem sido esquecida pelos crentes nos dias de hoje. Pastores, presbíteros, homens, mulheres, jovens e crianças não têm sido ensinados sobre a ira de Deus e o que acontece aos pecadores impenitentes. A preguiça, o ócio, a rebeldia, a "juventude" teimosa e toda sorte de imundícia tem sido tolerada em nossas igrejas. Mas por que? Porque tem faltado conhecimento aos líderes e ao rebanho que se diz de Cristo Jesus. Conforme o puritano Richard Baxter já escrevera: "Com conhecimento pode-se ir para o inferno, mas sem ele certamente se irá".

É necessário que leiamos a Palavra de Deus para sermos exortados e nos tornarmos santos como Ele é santo. "Não se desviem, nem para a direita nem para a esquerda, de qualquer dos mandamentos que hoje lhes dou, para seguir outros deuses e prestar-lhes culto" (Dt 28.14).

3. A leitura da Palavra de Deus nos torna sábios.

"Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra" (2 Tm 3:16-17).

Amados, nós já pontuamos sobre essa passagem na semana passada, mas convém que mais uma vez a usemos para nossa edificação e transformação à imagem e semelhança de Deus.

Ao lermos as Escrituras no culto público, renovamos nossos votos de que a Palavra de Deus é a nossa regra de fé e conduta prática. Professamos em unidade que não nos submeteremos à vãs imaginações e filosofias alheias à Palavra de Deus e que somente a Santa Escritura - divinamente inspirada - é que pode-nos fazer perfeitos e perfeitamente instruídos para toda a boa obra. Ao lermos as Escrituras temos o dever de passar por pontos "obscuros" da Palavra, pontos esses muitas vezes controvertidos, outras vezes quase indecifráveis, contudo, importantes, pois fazem parte da revelação deixada a nós.

Certa vez ao comentar sobre a importância de ser ter a Palavra de Deus e o Senhor como única fonte de segurança e prazer, Spurgeon disse: "Reunam-se em torno do antigo estandarte. Lutem até à morte pelo evangelho imutável, pois é a sua vida. Que a cruz de Cristo esteja sempre em proeminência, e que todas as benditas verdades que a cercam sejam mantidas com todo o coração. Precisamos ter fé — não só na forma de credo fixo — mas também na forma de constante dependência de Deus. Se me perguntasse qual a mais agradável disposição de ânimo dentro de toda a gama dos sentimentos humanos, não falaria do poder da oração, ou da abundância de revelação, ou de gozos arrebatados ou vitória sobre os espíritos maus; mencionaria como o mais estranho deleite do meu ser, o estado em que se experimenta uma consciente dependência de Deus. Freqüentemente esta experiência tem vindo acompanhada de enormes dores físicas e profundas humilhações do espírito, mas é inexplicavelmente agradável cair passivamente nas mãos do amor e morrer absorvido na vida de Cristo. É um deleite chegar à compreensão de que você não sabe, mas seu Pai celestial sabe; você não pode falar, mas "temos um advogado"; quase não pode levantar a mão, porém Ele opera todas as coisas em você. A absoluta submissão das nossas almas ao Senhor, o pleno contentamento do coração ante a vontade e os caminhos de Deus, a segura confiança do espírito quanto à presença e ao poder do Senhor; isto é o mais próximo ao céu que pode ocorrer conosco. É melhor que o êxtase, pois qualquer um pode permanecer nessa experiência sem esforço ou reação" [1]. Não menos intenso isso, é a forma como devemos buscar conhecer ao Senhor.

Muitos homens têm visto suas vidas fracassarem e seus relacionamentos desmoronarem, mas sequer questionam-se sobre o estado de suas almas. Muitos crentes passam o domingo inteiro em frivolidades, em atividades não essenciais para esse dia. Muitos esperam ansiosos a corrida da Fórmula 1 pela manhã, outros "salvam" seu domingo da chatisse quando assistem à uma rodada de futebol na televisão, mas poucos - muitíssimo infelizmente - dedicam e arquitetam o seu tempo de forma à maximizarem o tempo que terão disponíveis para a leitura, oração, devoção e reflexão na Palavra de Deus. Homens e mulheres têm vivido para os seus próprios umbigos, para satisfazerem as vãs concupiscências "santificadas" pela igreja.

Que possamos reconhecer a importância da Palavra de Deus em nossas vidas. Que ela não transforme apenas os nossos pensamentos, mas atinja também os nossos corações e nossas atitudes. Que nos empenhemos para conhecer a Cristo e sua morte na cruz, mas que não paremos por aqui, e sim que continuemos rumo a conhecer quais são as aplicações de sua morte por nós. Que não sejamos como aqueles que dormem, que não vêm a hora passar e acordam desesperados em meio às trevas da ignorância do pecado. Que Cristo resplandeça em nossas vidas de tal forma que sejamos profundamente constrangidos e instigados a mudar nosso comportamento diante de Sua glória.

Amém.

Nota:

domingo, 23 de outubro de 2011

"E não nos deixa cair em tentação, mas livra-nos do mal"


Não pedimos aqui não ter que sofrer nenhuma tentação. Temos grandíssima necessidade de que as tentações nos despertem, estimulem e sacudam, pois corremos o perigo de converter-nos em seres amorfos e preguiçosos se permanecermos numa calma excessiva. Cada dia o Senhor prova seus escolhidos, adestrando-os por meio da ignomínia, a pobreza, a tribulação e outras classes de cruzes.

Porém nossa demanda consiste em pedir que o Senhor nos dê também, ao mesmo tempo que as tentações, o meio de sair delas, para não sermos vencidos e esmagados; antes, fortalecidos com a força de Deus, poder manter-nos constantemente contra todos os poderes que nos assaltam.

Mais ainda: uma vez salvaguardados e protegidos por Ele, santificados com as graças de seu Espírito, governados pela sua direção, seremos invencíveis contra o Diabo, a morte e toda classe de artifício do inferno -que é o que significa estarmos livres do mal e do Maligno.

Devemos perceber como quer o Senhor que nossas orações estejam conformes à regra do amor, pois não nos ensina a pedir cada um para si o que é bom, sem olharmos para o nosso próximo, senão que nos ensina a preocupar-nos pelo bem de nosso irmão como do nosso próprio.

Por João Calvino
In: Breve Instrução Cristã

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Arrebatados na busca da vida santificada - João Calvino



Temos de ser inflamados para seguir a Deus aonde quer formos por Ele chamados. Sua Palavra tem de ter tal autoridade para conosco como ela merece, e, havendo-nos retirado deste mundo, temos de nos sentir arrebatados na busca da vida santificada. Porém, é mais que estranho que, embora a luz de Deus esteja brilhando mais radiantemente que nunca, haja uma lamentável falta de zelo. Em resumo, é impossível negar que é para nossa grande vergonha, para não dizer temível condenação, que conhecemos tão bem a verdade de Deus e temos tão pouca coragem em defendê-la.

Acima de tudo, quando olhamos para os mártires do passado, nos envergonhamos de nossa covardia! Em sua maioria não eram pessoas muito versadas nas Santas Escrituras para poderem disputar cm todos os assuntos. Eles sabiam que havia um Deus, a quem convinham adorar e servir; que haviam sido remidos pelo sangue de Jesus Cristo a fim de colocarem a confiança de salvação nEle e em sua graça; e que todas as invenções dos homens, sendo mera inutilidade e lixo. eles deviam condenar todas as idolatrias e superstições. Numa palavra, sua teologia era, em substância, esta: Há um Deus que criou todo o mundo e nos declarou sua vontade por Moisés e pelos profetas, e, finalmente, por Jesus Cristo e seus apóstolos; e temos um Redentor exclusivo, que nos comprou por seu sangue e por cuja graça esperamos ser salvos. Todos os ídolos do mundo são amaldiçoados e merecem abominação.

Com um sistema abarcando nenhum outro ponto que não esses, eles foram corajosamente às chamas ou a qualquer outro tipo de morte. Não entravam de dois em dois ou de três em três, mas em tamanhos grupos, cujo número dos que caíram pelas mãos dos tiranos é quase infinito.

O que então deve ser feito para inspirar nosso peito com a verdadeira coragem? Temos, em primeiro lugar, de considerar quão preciosa é a confissão de nossa fé aos olhos de Deus. Pouco sabemos o quanto Deus preza isso, se nossa vida, que não é nada, é estimada mais altamente por nós. Quando isso se dá, manifestamos maravilhoso grau de estupidez. Não podemos salvar nossa vida à custa de nossa confissão sem reconhecermos que a mantemos em mais alta estima que a honra de Deus e a salvação de nossa alma.

Um pagão poderia dizer: "Foi coisa miserável salvar a vida deixando as únicas coisas que tornavam a vida desejável!" E, não obstante, tal indivíduo e outros como ele nunca souberam porquê propósito os homens são colocados no mundo, e por que vivem aqui. Sabemos muito bem qual deve ser a principal meta de vida, isto é, glorificar a Deus, para que Ele seja nossa glória. Quando isso não é feito, ai de nós! Não podemos continuar vivendo por um único momento na terra sem amontoarmos outras maldições sobre nossas cabeças. Contudo, não estamos envergonhados de obter alguns dias para nos enlanguescer [perder as forças] aqui embaixo, renunciando o Reino eterno ao nos separarmos dEle, por cuja energia somos sustentados em vida.

Mas como a perseguição sempre é severa e amarga, consideremos: Como e por quais meios os cristãos podem se fortalecer com paciência, para resolutamente exporem a vida pela verdade de Deus? O texto que lemos em voz alta, quando corretamente compreendido, é suficiente para nos induzir a agirmos assim. O apóstolo diz: ''Saiamos da cidade para o Senhor Jesus, levando seu vitupério". Em primeiro lugar, Ele nos lembra que, embora as espadas não sejam desembainhadas contra nós, nem o fogo aceso para nos queimar, não podemos ser verdadeiramente unidos ao Filho de Deus, enquanto estamos arraigados neste mundo. Portanto, um cristão, mesmo em repouso, sempre tem de ter um pé pronto a marchar para a batalha, e não só isso, mas tem de ter seus afetos retirados do mundo, ainda que o corpo esteja habitando aqui.

Enquanto isso, para consolar nossas enfermidades e mitigar a vexação e tristeza que a perseguição nos causa, é-nos oferecida uma boa recompensa. Sofrendo pela causa de Deus, estamos caminhando passo a passo após o Filho de Deus e o temos por nosso Guia. Fosse dito simplesmente que para sermos cristãos tivéssemos de corajosamente passar por todos os insultos do mundo, encontrar a morte em todo momento e da maneira que Deus se agradasse designar, teríamos aparentemente algum pretexto para replicar. É um caminho desconhecido para irmos na dúvida. Mas quando somos ordenados a seguir o Senhor Jesus, sua direção é muito boa e honrada para ser recusada.

Somos tão melindrosos quanto à disposição de suportar qualquer coisa? Então temos de renunciar a graça de Deus pela qual Ele nos chamou à esperança de salvação. Há duas coisas que não podem ser separadas — ser membro de Cristo e ser provado por muitas aflições. Quem dera fosse realmente fácil, mesmo para Deus, nos coroar imediatamente sem exigir que sustentássemos qualquer combate. Mas assim como é seu prazer que Cristo reine em meio aos seus inimigos, assim também é sua vontade que nós, sendo colocados no meio deles, soframos a opressão e violência que nos infligem até que Ele nos liberte. Sei, de fato, que a carne esperneia quando deve ser levada a este ponto, mas não obstante a vontade de Deus tem de sobrepor-se.

Em tempos passados, muitas pessoas, para obter simples coroas de folhas, não recusavam o trabalho duro, a dor e a dificuldade. Até mesmo a morte não lhes era grande preço, e, ainda assim, cada um deles disputava uma corrida, não sabendo se iria ganhar ou perder o prêmio. Deus nos oferece a coroa imortal pela qual nos tornarmos participantes da sua glória.

Ele não quer dizer que devemos lutar a esmo, mas todos temos a promessa do prêmio pelo qual nos empenhamos. Temos algum motivo para nos recusarmos a lutar? Achamos que foi dito em vão: "Se morremos com Jesus, também com ele viveremos"? Nosso triunfo está preparado, e contudo fazemos tudo o que podemos para evitar o combate. para não deixar meios sem serem empregados que sejam adequados para nos estimular, Deus coloca diante de nós Promessas, de um lado, e Ameaças, do outro. Sentindo que as promessas não têm influência suficiente, fortaleçamo-nos acrescentando as ameaças. É verdade que devemos ser obstinados no extremo de não pôr mais fé nas promessas de Deus, quando o Senhor Jesus diz que Ele nos confessará como seus diante de seu Pai, contanto que o confessemos diante dos homens.

Mas se Deus não pode nos alcançar por meios gentis, não devemos ser meros obstáculos se suas ameaças também falham? Jesus convoca todos aqueles que, por medo da morte temporal, negam a verdade, a comparecerem no tribunal de seu Pai, e diz que então o corpo e a alma serão entregues à perdição. Em outra passagem, Ele afirma que negará todos o que o tiverem negado diante dos homens. Estas palavras, se não somos completamente impérvios [francos] para sentir, bem que podem fazer nossos cabelos se levantarem enfim!

É em vão alegarmos que piedade deve nos ser mostrada, já que nossas naturezas são tão delicadas; pois é dito, pelo contrário, que Moisés, tendo buscado a Deus pela fé, foi fortalecido para não se entregar sob tentação. Portanto, quando somos flexíveis e fáceis de dobrar, é sinal manifesto. Não estou dizendo que não temos zelo, nem firmeza, mas que não sabemos nada de Deus ou de seu Reino. Há dois pontos a considerar. O primeiro é que todo o Corpo da Igreja em geral sempre esteve, e até ao fim estará, sujeito a ser afligido pelos ímpios. Vendo como a Igreja de Deus é pisoteada nos dias atuais pelos orgulhosos indivíduos mundanos, como um late e outro morde, como torturam, como conspiram contra ela, como ela é assaltada incessantemente por cães raivosos e bestas selvagens, não nos esqueçamos de que a mesma coisa foi feita em todos os tempos passados.

Enquanto isso, o assunto de suas aflições sempre foi afortunado. Em todos os eventos, Deus fez com que, embora fosse oprimida por muitas calamidades, ela nunca tenha sido completamente esmagada; como está escrito: "Os ímpios com todos os seus esforços não tiveram sucesso no que intentaram". O apóstolo Paulo se gloria no fato e mostra que este é o curso que Deus, em misericórdia, sempre toma. Ele diz: "Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados; perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos; trazendo sempre por toda parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também em nossos corpos" (2 Co 4.8-10).

Só menciono brevemente neste sermão para ir ao segundo ponto, que está mais a nosso propósito, que devemos tirar vantagem dos exemplos particulares dos mártires que foram antes de nós. Não são limitados a dois ou três, mas são, como diz o apóstolo, "uma tão grande nuvem". Com esta expressão, ele intima que o número é tão grande que deve ocupar toda nossa visão. Para não ser tedioso, mencionarei somente os judeus, que foram perseguidos pela verdadeira religião, não apenas sob a tirania do rei Antioco, mas também um pouco depois da sua morte. Não podemos alegar que o número dos sofredores foi pequeno, pois formava um grande exército de mártires. Não podemos dizer que consistia em profetas a quem Deus tinha separado das pessoas comuns, pois mulheres e criancinhas faziam parte do grupo. Não podemos dizer que eles escaparam por pouca coisa, porque foram torturados tão cruelmente quanto possível. Por conseguinte, ouvimos o que o apóstolo diz: "Uns foram torturados, não aceitando o seu livramento, para alcançarem uma melhor ressurreição; e outros experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões. Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos a fio de espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados (homens dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra (Hb 11.35-38).

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