"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Não se brinca com Quem é sério!


O terceiro mandamento ensina que não podemos tratar com leviandade tudo que se refere ao nosso Deus. Quando Ele advertiu o Seu povo ordenando “não tomarás o nome do SENHOR, teu Deus, em vão, porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão” (Êx 20:) recebemos a ordem de não blasfemar, ou não brincar com o que procede de Deus. O Catecismo Maior de Westminster comentando as suas implicações declara que esta ordem “exige que o nome de Deus, os Seus títulos, os atributos, as ordenanças, a Palavra, os sacramentos, as orações, os juramentos, os votos, as sortes, as Suas obras e tudo pelo qual Ele se dá a conhecer, sejam santa e reverentemente usados ao se pensar, meditar, falar e escrever; mediante uma santa profissão de fé e um viver digno, para a glória de Deus e o bem de nós mesmos e dos outros.”[1] Este mandamento se aplica de modo direto a algumas situações como 1.O uso desvalorizado dos nomes de Deus, de modo fútil, desautorizado, irrefletido e desnecessário; 2. A invocação do Seu nome numa falsa ou corrompida forma de adoração; 3. Recorrer ao Seu nome para apoiar uma mentira; 4. Frontalmente zombar de Deus. 

Toda irreverência em relação a Deus é pecado! É algo muito perigoso brincar, fazer piadas e mencionar de forma irreverente e irresponsável o nome ou as obras de Deus. Às vezes, ouço crentes fazendo piadas que ridicularizam ao SENHOR ou, mais especificamente de Jesus, fazem para entreter pecadores com o santo nome do Todo-Poderoso. Como é comum que pecadores corram inconseqüentemente, onde os anjos até mesmo temem pisar! Paulo nos adverte afirmando que “não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6:7). 

Quando pais contam piadas desta espécie diante dos seus filhos, eles estão ensinados a serem blasfemadores. Conseqüentemente, com dificuldades estas crianças, adolescentes, ou jovens se comportarão nos cultos, que é o ajuntamento solene do povo de Deus, com reverência necessária. Brian H. Edwards observa que “a nossa adoração também mostra o que pensamos do nosso Deus e, sendo que a adoração sincera a Deus é a culminação da existência humana, a adoração blasfema é o ponto mais baixo que um homem ou uma mulher pode chegar.”[2] Mas, aquilo que fazem nas reuniões nada mais é do que reflexo do culto a Deus prestado no seu dia a dia. Assim, podemos imaginar com tristeza no coração como é o relacionamento diário, e qual a seriedade com que vivem o evangelho de Cristo em cada momento de suas vidas. 

Não poucas pessoas, sem peso de consciência, fazem seus votos e juramentos sem calcular as conseqüências, simplesmente apelando para o nome de Deus. A Escritura diz que devemos ser conhecidos pela nossa seriedade e firmeza de convicção, de modo que a nossa palavra seja confiável. O nosso “sim” deve significar “sim”, e o nosso “não” realmente deve ter o absoluto sentido de “não” (Mt 5:37). Não é pecado jurar ou fazer votos quando somos exigidos pelas autoridades instituídas por Deus, mas não podemos recorrer aos juramentos de modo tão irresponsável, ou em situações em que são desnecessários. O nome de Deus somente deve ser invocado para ser testemunha do que dizemos ou fazemos, quando o nosso testemunho é insuficiente e a glória de Deus é ameaçada de escândalo (1 Ts 2:5 e 10). 

É possível blasfemar duas vezes numa mesma relação. Se já não bastasse o uso indevido, ou imoral de um dos nomes de Deus, há uma situação relativamente nova na desobediência deste mandamento, me refiro ao vício de linguagem no uso de alguns dos nomes de Deus, que em geral, cristãos e ateus mencionam o Seu nome sem realmente pensar nEle. J. Douma denuncia que “as pessoas mencionam a Deus, todavia, sem pensar realmente nEle. Na Bíblia maldizer tinha um significado religioso, mas na atualidade maldizer está tão secularizado que as pessoas utilizam a palavra ‘deus’ sem pretender nada dizer com ela. Para a maioria das pessoas que assim fazem, Deus está morto, alguém contra quem não se pode insultar.”[3] 

Ninguém pode por descuido desrespeitar Àquele que é fonte de toda autoridade, ignorando momentaneamente que ofender a Deus com zombarias provoca a Sua santa ira. A sentença sobre este pecado está declarada “o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão”. Estas coisas foram escritas para que não pequemos, entretanto, se loucamente ofendermos a reputação de Deus, devemos urgentemente recorrer com sincero arrependimento e confessar o nosso pecado, pela intercessão dAquele que tem o nome sobre todos os nomes (Fp 2:9-11). Assim, diante do mau uso do nome do Senhor, devemos recorrer ao seu nome, para que sejamos perdoados com misericórdia, “porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm 10:13). 

A nossa língua deve se mover com santo temor. Ao orarmos a Ele, ou ao falarmos dEle diante ou para as pessoas, seja o nosso coração cheio de reverência e do prazer desta íntima comunhão, por meio de Cristo, de modo que, “não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para a edificação, conforme a necessidade e, assim, transmita graça aos que ouvem” (Ef 4:29). 

NOTAS: 
[1] Catecismo Maior de Westminster, perg/resp. 112 
[2] Brian H. Edwards, Los Diez Mandamientos para hoy (Ciudad Real, Editorial Peregrino, 2000), pág. 146 
[3] J. Douma, Los Diez Mandamientos – manual para la vida Cristiana (Grand Rapids, Libros Desafío, 2000), pág. 105

Por: Ewerton B. Tokashiki

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Lendo a Bíblia em vão - Spurgeon



Devemos entender aquilo que lemos na Palavra de Deus, sendo que de outra forma, lemos em vão, reconhecemos que quando passamos ao estudo das Escrituras Sagradas devemos esforçar-nos para ter nossa mente bem atenta. Parece-me que nem sempre estamos em boas condições para ler a Bíblia. As vezes, seria bom fazermos uma pausa antes de abrirmos o Livro. "Tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa." Você acabou de chegar de seus negócios seculares, com seus cuidados e ansiedades, e não consegue pegar naquele Livro e imediatamente penetrar nos seus mistérios celestiais.

Assim como você pede a bênção sobre sua refeição antes de começar a comer, também seria uma boa regra pedir uma bênção sobre sua leitura da Palavra antes de ingerir sua comida celestial. Ore para que o Senhor abra os seus olhos espirituais, antes de você ousar olhar para a luz eterna das Escrituras. A leitura bíblica é a hora de nossa refeição espiritual. É só tocar a sineta e convidar todas as faculdades mentais à mesa do próprio Senhor para fartar-se com a comida que agora está pronta; ou, melhor, que soe como o toque dos sinos da igreja em convite para a adoração, porque o estudo das Sagradas Escrituras deve ser uma ação tão solene como nosso ato de adoração na casa do Senhor.

Meditação na Palavra

Se a leitura começar dessa forma, você perceberá imediatamente que, para compreender aquilo que lê, precisará meditar a respeito. Alguns trechos bíblicos ficam claros diante dos nossos olhos — baixos abençoados onde os cordeiros podem chapinhar; existem, no entanto, profundezas onde nossa mente poderia antes afogar-se do que nadar com prazer, se ela chegasse até lá sem cautela. Existem textos das Escrituras que foram feitos e construídos com o propósito de nos levar a pensar. Por esse meio, inclusive, nosso Pai celestial quer nos educar para o céu — fazendo-nos penetrar nos mistérios divinos com a nossa mente. Por isso, Ele nos oferece a sua Palavra de uma forma às vezes complexa, para nos compelir a meditar sobre ela, antes de chegarmos à sua doçura.

Ele poderia ter explicado tudo de tal maneira que captássemos o pensamento num só minuto, mas não foi da vontade dEle fazer assim em todos os casos. Muitos dos véus que são lançados sobre as Escrituras não têm a intenção de ocultar o significado aos leitores diligentes, mas de compelir a mente a ser ativa, pois muitas vezes a diligência do coração em procurar saber a vontade divina faz mais bem ao coração do que a própria sabedoria obtida. A meditação e o esforço mental cuidadoso servem como exercício e fortalecimento da alma, que passa a ficar em condições de receber verdades ainda mais sublimes.

Precisamos meditar. Essas uvas não produzem vinho até serem pisadas por nós. Essas azeitonas precisam ser colocadas debaixo da roda, e prensadas repetidas vezes, para que o azeite flua delas. Olhando para um punhado de nozes, percebemos quais delas já foram comidas, porque há um buraquinho onde o inseto furou a casca — só um buraquinho, e lá dentro há uma criatura vivente comendo a noz.

Ora, é uma coisa maravilhosa furar a casca da letra, para então ficar por dentro comendo a própria noz. Bem que eu gostaria de ser um vermezinho assim, vivendo dentro da Palavra de Deus, alimentando-me dela, depois de ter aberto caminho através da casca e ter chegado ao mistério mais interior do evangelho bendito. A Palavra de Deus sempre é mais preciosa para o homem que mais se alimenta dela.

No ano passado, sentado debaixo de uma faia nogueira que se estendia em todas as direções, e admirando aquela árvore tão maravilhosa, pensei comigo mesmo: Não tenho nem a metade da estima por essa faia do que o esquilo tem. Vejo-o, pulando de galho em galho, e tenho certeza que ele dá muito valor àquela velha faia, porque tem seu lar em algum oco dentro dela, os galhos são o seu abrigo, e aquelas nozes de faia são o seu alimento. Ele vive da árvore. É seu mundo, seu pátio de recreio, seu celeiro, seu lar; realmente, é tudo para ele; mas para mim, não, porque obtenho meu repouso e minhas refeições em outro lugar.

No caso da Palavra de Deus, é bom sermos como esquilos, habitando nela e vivendo dela. Exercitemos nossa mente, pulando de galho em galho na Palavra; achemos nela o nosso repouso e façamos dela o nosso tudo. O proveito será todo nosso, se fizermos dela nosso alimento, nosso remédio, nosso tesouro, nosso arsenal, nosso repouso, nossa delícia. Que o Espírito Santo nos leve a fazer assim, tornando a Palavra tão preciosa à nossa alma!

Por: C. H. Spurgeon

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

"Porque eu sei em quem tenho crido" - Sermão pregado dia 28.08.201


"Porque eu sei em quem tenho crido" -
Sermão pregado dia 28.08.2011

Nosso texto: "Por cuja causa padeço também isto, mas não me envergonho; porque eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que é poderoso para guardar o meu depósito até àquele dia" (2Tm 1:12).

Louvado seja o nosso Deus e pai, criador dos céus e da terra e que muito nos abençoará - mais uma vez - nessa noite por meio de Sua palavra.

Nosso texto de hoje é uma tendência oposta ao que vemos proliferando pelos arraiais evangélicos - ou que acha que entende o evangelho - pois fala da certeza sobre em quem temos depositado nossa confiança. Veremos que para o homem de Deus permanecer firme diante das situações adversas da vida, se faz necessário que ele compreenda algumas - para não dizer, muitas! - questões referentes ao evangelho e sua mensagem. Paulo nos orientará mediante sua confissão inabalável quanto à certeza no seu Salvador.

Enquanto a primeira carta de Paulo a Timóteo teve um cunho mais eclesiástico - isto é, visava a estrutura daquela igreja - a segunda - parece - ser dirigida mais especificamente ao próprio destinatário e às dificuldades com que ele iria se deparar.

Paulo inicia sua segunda carta a Timóteo, afirmando - novamente, pois o fez também em 1Tm 1:1 - que era apóstolo pela vontade de Deus, mas não somente isso, mas que havia sido constituído para tal fim "segundo a promessa da vida que está em Cristo Jesus" (v.1). Paulo não invoca sobre si um mero título - como muitos o fazem hoje em dia - ou proclama a Timóteo que ele um apóstolo porque gostava de ter alguns "status" entre os crentes, mas lhe diz que assim é pois vive "segundo a promessa da vida que está em Cristo Jesus".

Ele então continua dizendo que serve a Deus com uma consciência pura, não fingida, não egoísta, mas como uma espécie de amor altruísta, isto é, voltado para o próximo - "Dou graças a Deus, a quem desde os meus antepassados sirvo com uma consciência pura, de que sem cessar faço memória de ti nas minhas orações noite e dia" (v.2 - ênfase minha).

Após instar a Timóteo para que permanecesse nos retos caminhos em que havia sido ensinado (vs.4-6), Paulo anima o seu amado para que não se deixasse levar pelas situações adversas ou pensasse que o Senhor não o havia instituído para aquele ofício, mas sim que "Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, e de amor, e de moderação" (v.7) - pois era necessário que Timóteo entendesse que a força do Senhor estava com ele, apesar de tudo que teria de suportar.

Então, Paulo exorta Timóteo para que não perdesse as esperanças no evangelho - pois, se Paulo continuava a labutar em prol do reino porque tinha sido constituído apóstolo, "segundo a promessa da vida que está em Cristo Jesus" (v.1), isso também seria verdadeiro para Timóteo que havia recebido a bênção de Paulo (v.6) - e para que não se envergonhasse do evangelho, mas "antes participa das aflições do evangelho segundo o poder de Deus" (v.8). Contudo, a finalidade da exortação não era apenas para que Timóteo compartilhasse das aflições de Paulo, mas sim para mostrar que Paulo - e Timóteo também viria a experimentar (veja os versículos mais adiante) - estava sofrendo por aquele "nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos" (v.9), declarando a Timóteo a grandiosa obra que estava diante dele.

Porém, Paulo não prende-se ao tempo passado, mas diz que o propósito de sua vida - que já há muito havia sido predestinada - no tempo presente se dá por meio da "aparição de nosso Salvador Jesus Cristo, o qual aboliu a morte, e trouxe à luz a vida e a incorrupção pelo evangelho" (v.10).

Ou seja, por meio de Jesus Cristo, aquela "santa vocação" de Paulo e Timóteo que havia sido predestinada "antes dos tempos dos séculos", agora havia se tornado realidade mediante "aparição de nosso Salvador Jesus Cristo" e no qual Paulo havia sido "constituído pregador, e apóstolo, e doutor dos gentios" (v.11)

Finalmente, Paulo escreve dizendo como isso se traduz em sua vida: "Por cuja causa padeço também isto, mas não me envergonho; porque eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que é poderoso para guardar o meu depósito até àquele dia" (2Tm 1:12). Nesse momento, como que fazendo uma pausa para recuperar as energias, ele descreve a Timóteo como que conseguia ser prisioneiro (v.8) e viver a vida pela fé em Cristo Jesus, e a resposta encontrasse no meio de nosso versículo: "porque eu sei em quem tenho crido".

Muitos hoje em dia olham para a vida de Paulo e gritam: "Eu queria ser como Paulo! Ser mestre da Lei, apóstolo de Cristo, ter servido às igrejas, ter levado o evangelho da salvação, ter presenciado muitos milagres, ser reconhecido pela igreja, ter minhas palavras perpetuadas pelo tempo...", contudo, esquecem-se que a vida de Paulo - e de tantos outros! - não foi apenas isso.

"Porque tenho para mim, que Deus a nós, apóstolos, nos pôs por últimos, como condenados à morte; pois somos feitos espetáculo ao mundo, aos anjos, e aos homens.Nós somos loucos por amor de Cristo, e vós sábios em Cristo; nós fracos, e vós fortes; vós ilustres, e nós vis. Até esta presente hora sofremos fome, e sede, e estamos nus, e recebemos bofetadas, e não temos pousada certa, E nos afadigamos, trabalhando com nossas próprias mãos. Somos injuriados, e bendizemos; somos perseguidos, e sofremos; Somos blasfemados, e rogamos; até ao presente temos chegado a ser como o lixo deste mundo, e como a escória de todos. Não escrevo estas coisas para vos envergonhar" (1Co 4:9-14).

"Recebi dos judeus cinco quarentenas de açoites menos um. Três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma noite e um dia passei no abismo; Em viagens muitas vezes, em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos dos da minha nação, em perigos dos gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre os falsos irmãos; Em trabalhos e fadiga, em vigílias muitas vezes, em fome e sede, em jejum muitas vezes, em frio e nudez. Além das coisas exteriores, me oprime cada dia o cuidado de todas as igrejas" (2Co 11:24-28).

Paulo também teve alguns - na verdade, muitos! - conhecidos e companheiros engolidos pelos mares da incredulidade - "Conservando a fé, e a boa consciência, a qual alguns, rejeitando, fizeram naufrágio na fé. E entre esses foram Himeneu e Alexandre, os quais entreguei a Satanás, para que aprendam a não blasfemar" (1Tm 1:18-20). "Procura vir ter comigo depressa, Porque Demas me desamparou, amando o presente século, e foi para tessalônica" (2Tm 4:9,10). "Alexandre, o latoeiro, causou-me muitos males; o Senhor lhe pague segundo as suas obras. Tu, guarda-te também dele, porque resistiu muito às nossas palavras. Ninguém me assistiu na minha primeira defesa, antes todos me desampararam" (1Tm 4:14-16).

Contudo, esse homem ainda podia dizer: "eu sei em quem tenho crido".

Amados irmãos, certamente que temos muito a aprender com essas poucas palavras. Aqui, gostaria de frisar 3 apontamentos importantes para a vida cristã:

1. É necessário que Deus se revele ao homem e o fortaleça

A força motivadora de Paulo é encontrada no primeiro versículo: "Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus" (v.1).

Assim como em suas outras cartas, Paulo procurou deixar claro que o fato dele sofrer o que sofria, era porque havia recebido o apostolado de Jesus Cristo - isto é, havia sido chamado para proclamar a bênção de Deus e implantar novas igrejas por onde Ele o guiasse - e que não era ele mesmo quem batalhava, mas Cristo por ele: "Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim" (Gl 2:20)

Paulo sabia que se não fosse pelo Senhor, ele não iria a lugar algum e certamente já teria abandonado a fé. - "Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade" (Fp 2:13).

O apóstolo Paulo - e também todos os demais grandes homens da Bíblia - tinha a certeza de que era Deus quem o fortalecia, que era Ele quem o guiava, que era Ele quem o inspirava: "Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém" (Rm 11:36). Paulo não via-se lutando inutilmente, mas "Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus" (Fp 3:14) - ele sabia em que cria.

Paulo era consciente de que havia sido instituído como apóstolo "pela vontade de Deus" e não por suas próprias forças - ou por seu "livre arbítrio" - pois quem em sã consciência escolheria viver uma vida sofredora em vez de poder desfrutar dos "prazeres" - ainda que efêmeros e ínfimos - dessa vida? Que razões Paulo teria para seguir um Cristo crucificado e que era zombado por todos? De que valeria viver uma vida seguindo um homem que se dizia ser filho do Rei, mas que no entanto não pôde nem ao menos descer de uma cruz?

Certamente que Paulo levava cativo em seu coração as palavras ditas aos romanos: "Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece" (Rm 9:16).

2. O homem de Deus precisa conhecer muito bem o evangelho

É um erro extremamente grosseiro o fato de hoje em dia vermos pessoas serem tão avessas à intelectualidade. Está "na moda" ser relativo, ser indiferente, ser voltado para si mesmo, buscar o seu próprio prazer, ganhar dinheiro à custa de outros e uma série de atos estranhos à Escritura. É lamentável vermos a deterioração dos inúmeros "ministérios" que proliferam mais que postos de gasolina, farmácias ou padarias, sem ao menos atentarem para as palavras de Jesus: "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!" (Mt 23:37). Tais "ministérios" não percebem que mais pregam as "boas novas" do homem pecador do que as boas novas do Santo Salvador.

Quando falamos sobre intelectualidade e o repulso que isso causa nas pessoas - afinal, para tais, ser intelectual é ser "nerd", retrógrado, sem alegria pela vida, um indivíduo taciturno, quase que desconectado da sociedade - isso não significa que somente os crentes que souberem grego, hebraico, aramaico e geografia bíblica serão salvos, contudo, importa-nos notar que precisamos conhecer a quem temos seguido.

A Bíblia nos diz: "Na verdade, na verdade vos digo que aquele que não entra pela porta no curral das ovelhas, mas sobe por outra parte, é ladrão e salteador. Aquele, porém, que entra pela porta é o pastor das ovelhas. A este o porteiro abre, e as ovelhas ouvem a sua voz, e chama pelo nome às suas ovelhas, e as traz para fora. E, quando tira para fora as suas ovelhas, vai adiante delas, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas de modo nenhum seguirão o estranho, antes fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos" (Jo 10:1-5). Observemos que em momento algum Jesus nos diz que o pastor fica atrás das ovelhas dando-lhes chicotadas ou ferindo-as desnecessariamente - como que para infundir-lhes terror e medo - mas antes vai à frente, guiando-as e tão somente elas o seguem, "porque conhecem a sua voz". Jesus também não demonstra estar apreensivo com a possível chance de algumas delas se perderem, pois "conhecem a sua voz".

As ovelhas do Senhor sempre ouvem e para sempre ouvirão a sua voz, ainda que durante o tempo de sua peregrinação sofram assaltos, fome, sede, nudez, ventos contrários, raios, terremotos e qualquer outra coisa que possa lhes tentar a desviarem-se do único e reto caminho caminho. E para aqueles que saíram e não mais voltaram, a Bíblia nos alerta: "Saíram de nós, mas não eram de nós; porque, se fossem de nós, ficariam conosco; mas isto é para que se manifestasse que não são todos de nós" (1Jo 2:19).

O pastor puritano Richard Baxter, ao escrever sobre os sermões e como isso deveria se dar na vida da igreja, escreveu no capítulo "Orientações Sobre Como Ouvir com Proveito a Palavra Pregada, no Christian Directory: Não vinde ouvir com um coração desatento, como se viésseis ouvir uma questão que pouco vos interessa, mas vinde com um senso da indizível importância, necessidade e consequência da Santa Palavra que viestes ouvir; e quando entenderdes o quanto isso vos envolve, será de grande ajuda compreenderdes cada verdade em particular... Esforçai-vos diligentemente por aplicar a Palavra, enquanto a estiverdes ouvindo... Não deixeis tudo ao encargo do ministro, como aqueles que não irão além do que forem empurrados... Tendes um trabalho a fazer, tanto quanto o pregador, e deveríeis estar tão ocupados quanto ele... deveis abrir vossas bocas, digerindo a Palavra, pois ninguém pode digeri-la em vosso lugar... logo, trabalhai o tempo todo, abominando o coração preguiçoso no ouvir, tanto quanto um ministro preguiçoso. Ruminarei e recordai tudo ao chegardes em casa, em vossos quartos, e, mediante a meditação, pregai novamente a vós mesmo. Se a prédica for exposta friamente pelo pregador, então... pregai com maior vigor aos vossos corações..." Costumamos lamentar, hoje em dia, que os ministros não sabem pregar; mas não é igualmente verdadeira que nossas congregações não sabem ouvir? [1]

Para que uma conversão seja sólida, segundo Baxter, é indispensável o conhecimento da verdade. “Um homem pode ir para o inferno com conhecimento”, afirma ele, “mas ele certamente irá para o inferno se não o tiver”, pois como "pode amar e servir a Deus a quem não conhece?" [2]

Certamente que tais palavras nos soam um tanto ásperas, mas isso não é culpa delas mesmas, mas sim de nossos corações obscurecidos e ainda propensos para a auto satisfação. É lamentável que muitos professos da fé cristã não atentem para a exortação bíblica: "Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade" (2Tm 2:15).

Nossas igrejas estão cheias de bodes que são tratados como ovelhas e ovelhas que são tratadas como bodes. Homens e mulheres precisam urgentemente ser colocados contra a parede do evangelho e exortados: "Rogo-vos, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados" (Ef 4:1) e ainda: "Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele" (Rm 8:9).

Novamente, Baxter nos útil nessa questão: "Toda pessoa dotada de uma alma capaz de fazer questionamento, deveria conhecer o Deus que a criou e para qual finalidade deveria viver; e também deveria conhecer o caminho para a sua felicidade eterna, tanto quanto os eruditos. Vocês não têm almas a serem ganhas ou perdidas, tanto quanto os eruditos? Deus deixou clara para vocês a sua vontade em sua Palavra; Ele lhes tem dado mestres e muitos outros meios, de tal modo que vocês não terão desculpa se forem ignorantes; vocês devem saber como ser crentes, mesmo que não sejam eruditos. Vocês poderão chegar ao céu usando o inglês, embora não tenham conhecimento do hebraico ou grego, mas nas trevas da ignorância vocês jamais chegarão lá. ...Portanto, se pensam que podem justificar-se diante da sua falta de conhecimento, então poderão também pensar que podem justificar-se diante da falta de amor e de obediência, pois essas virtudes não podem existir sem o conhecimento... Se ao menos vocês estivessem dispostos a obter o conhecimento de Deus e das realidades celestes, assim como estais dispostos a conhecer as artes de seus negócios, vocês já teriam começado a muito tempo, não poupando esforços nem dores para obter esse conhecimento. Mas vocês pensam que sete anos é pouco para aprender a sua profissão e, no entanto, não querem dedicar um dia, em cada sete, para aprenderem com diligência as questões atinentes à salvação de suas almas. Se o céu é elevado demais para vocês pensarem nele e se prepararem para ele, então ele é elevado demais para vocês chegarem a possuí-lo". [3]

"Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos" (Os 6:6).

3. É necessário que o homem de Deus leve cativo a promessa da vida eterna

Por fim, Paulo podia viver e seguir em frente a sua jornada, pois vivia "segundo a promessa da vida que está em Cristo Jesus" (v.1). "Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem" (Hb 11:1).

Paulo não conseguia enxergar - literalmente - o seu fim, nem tampouco tinha uma "visão além do alcance", contudo, vivia segundo a fé e a promessa da vida que está em Cristo Jesus.

Meus amados, como temos nos esquecido de que somos forasteiros nesse mundo, que estamos apenas de passagem e que nada mais importa a não ser vivermos para proclamar e glorificar a Deus nesse mundo. É indispensável que nos lembremos diariamente do céu e de suas promessas, pois caso contrário, certamente fraquejaremos.

Assim como um jardim - na ilustração de Spurgeon - precisa de constantes cuidados para que não se introduzam sorrateiramente ervas daninhas e toda sorte de pestes, assim também é necessário que o homem de Deus examine a sim mesmo a cada dia para que veja se não cresce junto ao seu coração qualquer semente maligna que possa dissimular heresias e vontades contrárias ao evangelho de nosso Senhor e Salvador. 

Que possamos refletir sobre em quem temos crido e se de fato estamos conscientes de quem Ele é em si mesmo e o que significa isso em nossas vidas. Que o Espírito Santo de Deus nos guie junto à nossa consciência e mostre-nos se de fato temos vivido uma vida segundo o Seu propósito, e quando isso acontecer, que nos lembremos das santas e sábias palavras: "E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos" (Tg 1:22).

Amém.

Notas:
[1] Citado em: Entre os Gigantes de Deus, J. I Packer - pág. 275
[3] Citado em: Entre os Gigantes de Deus, J. I. Packer - pág. 75 e 76 - Richard Baxter viveu entre 1615 e 1691.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Suponhamos que Deus não fosse soberano



SUPONHAMOS (conjecturando) que Deus não fosse soberano, que há nada decretasse, e que o homem tivesse o tal do livre arbítrio.

Essa estória aconteceria mais ou menos assim:

Estando deus nos céus desfrutando de sua eternidade incomensurável, e, embora fosse Trino, sentiu no âmago de seu ser, em decorrência de uma irreprimida solidão a lhe consumir, a necessidade de se relacionar com alguém fora dele próprio. Assim, cogitou mentalmente (porque nada via a sua frente, que dependesse unicamente dele), na idéia e aventurou-se numa investida audaciosa de torná-la realidade. Assim começa a saga de uma série de episódios frustrados de deus com suas criaturas.

Sozinho, reclusado e contristado, isso tudo devido à solidão que desde toda a eternidade lhe acometera, deus propõe em seu coração criar seres os quais ele os chamaria de anjos, a fim de, enfim se relacionar de uma forma mais imprevisível, pois tal como ele era, assim seriam os anjos, livres de quaisquer ações externas, e livres dele próprio (deus), podendo assim lhe presentear com o inusitabilidade do inesperado.

Dentre os anjos que lhe devotavam piedade, houve alguns que ousaram deixar sua própria habitação. A Condescendência de deus é surrupiada por uma frustração inusitada. Não acreditava no infortúnio em que o destino e suas criaturas lhes reservavam. As suas criaturas insurgem contra os seus domínios, e amotinam-se contra sua “Soberania”, levando-o, forçosamente, a tomar uma decisão da qual não previa, precipitando seus anjos traidores de sua moradia, destituindo-os de sua beleza, transformando-os em famigerados demônios. Por conta deste veredicto do qual deus jamais antevia, isso devido à liberdade dos anjos, o Eterno enluta-se demasiadamente, e, no recôndito de sua moradia, introspecta-se e se pergunta, em qual momento teria errado, e de contínuo, pensa em qual seria a melhor saída para retomar o caminho e continuá-lo de onde o mal havia o impedido de levar a termo o seu plano cogitado.

A tristeza agora estonteia-lhe o coração, e meio que sem surtida, é forçado a tentar, por mais  uma vez, seguir caminhos cujos quais não têm plena certeza quanto aos seus desfechos, pois, diante  da possibilidade de um novo relacionamento, análogo a natureza do primeiro, que enclausurava-o como refém de sua própria história, Ele incorria na triste possibilidade de ver-se num suposto fracasso outra vez. Mas não havia outro jeito, era um risco que estava disposto a correr, e de fato Ele correu. Assim, como possível solução ao problema instaurado nos seus desígnios primeiros, impedindo-o de seguir pelos caminhos que desenhara, deus cria o homem, e junto ao fôlego de vida que lhe concede, dá-lhe a plena e independente liberdade de “ser”. Este que está à sua frente é o sinete de sua perfeição, a mais elevada de suas criaturas, esta que, no desenrolar dos próximos dias, reservar-lhe-ia uma relação de amor e ódio, alegrias e tristezas, fidelidade e traições o que desembocaria numa frenética e custosa tentativa de resolver problemas não concebidos previamente, marcados pela improbabilidade de sucesso sempre a circundar esse relacionamento, fruto de uma relação de dois agentes plenamente livres e imprevisíveis.

Assim, como nem tudo na vida é perfeito, com deus também não seria diferente. Em decorrência da liberdade recíproca de relação entre deus e o homem, tudo que aquele havia concebido para a sua relação com sua criatura parece vir por água a baixo, quando, pela primeira vez de muitas outras, o homem decide não obedecer aos seus estatutos, frustrando-lhe bem diante dos seus olhos os planos por meio dos quais acreditava deus, que poderia mudar a história do seu mundo caído e destruído a contragosto de sua vontade. Mais um acidente esbofeteia-lhe a face, e mais uma de suas criaturas rebela-se contra o seu “perfeito” plano arquitetado. O homem era perfeito, o jardim que deus lhe dera para sua vida e habitação parecia perfeito, o que, no entanto, não parecia ser tão perfeito eram os planos desse deus, que a essa altura parece a nossos olhos, mais sugestões de vitória, feitas por alguém que de fato não detêm o curso da história, diante de uma história que se rege pela plena liberdade do homem, fruto de uma ambiente convenientemente indeterminista.

deus é forçado a relevar a sua confiança dispensada ao homem que ele criara, por conta da sublevação de seu plano, agora frustrado. Assim, se pôs a pensar, e a arquitetar, por mais uma vez, no plano que se constituiria no melhor caminho a seguir, uma melhor alternativa, frente ao adverso, e isso seria levado a cabo, por meio da desconstrução do seu primeiro plano, que seria uma espécie de plano A, preterido por um novo plano, de natureza corretiva, que seria um espécie de plano B, no empenho de tentar recompor tal relação, destruída pelo homem que com seu ato livre de escolha, havia lhe confinado a um incontido sentimento de ira baralhada com tristeza; isso porque tudo dera errado, novamente.

deus agora pune o homem, imputa-lhe as consequencias de seu pecado, lança-o para fora de sua presença, e agora por sucessivas vezes no curso de toda história, se valerá de homem livres e agora inerentemente pecadores, que, volitivamente se prontificarão a mudar essa história marcada por tristezas que também são frutos de escolhas de homens livres. É sempre de crucial importância, visando o êxito dos primeiros planos, que o homem se revista da parte que lhe cabe nesses planos, do contrário, ver-ser-á deus, em um ciclo ininterrupto a recriar um ambiente propício, sempre com base nessa resposta livre do homem, que sempre é capaz de mudar, quando bate o pé teimoso, e resistir em colaborar com os planos do seu criador. Alguns delinearão coincidentemente a vontade de deus, proporcionando assim, um quadro perfeito no afã de que deus oportunamente tente levar a conclusão de seus intentos, ainda abstratos. Dentre eles, destaque para Abrão, Isaque, Jacó, José, Moisés (esse foi incrível, pois aquilo que parecia mais trivial, ou seja, estar dentro de um cesto dentro do rio à deriva, coincidentemente, contribuiu para que deus usasse Moisés, poxa que sortudo!), Josué, Elias, Eliseu, etc.

Sintetizando a estória, Davi também foi um desses pelos quais deus se vira presenteado pela história. Ele achou Davi, literalmente. Agradeceu não a si próprio, mas ao próprio Davi, pelo fato de que, na sua liberdade, tenha desejado agradar ao deus que não lhe chamou, mas que em decorrência do “sim” de Davi, com lágrimas nos olhos, disse um tremendo “SIM” para este Davi. Não é pra menos. Não foram e nem são muitas dessas oportunidades que se concretizam ante aos olhos de deus, convidando-o para uma batalha com grandes chances de vitória. Como conseqüência da pureza estritamente originada de Davi para com deus, o eterno se vê reescrevendo uma história onde Davi tornar-se-ia, a princípio, no seu principal protagonista. Decide que da descendência deste viria um que pudesse “resgatar” a humanidade de seus muitos pecados. Para tanto, deus criaria meios no transcurso da história, atinando seu senso de oportunidade, e por meio desses meios, procuraria se valer de homens bons aqui e ali, a fim de favorecer oportunamente seus anseios futuros, ainda incertos. Lembre-se, o homem precisa “fazer por onde”. Por mais que homens bons apareçam em meio ao caminho, o homem de fato precisa Ser redimido, ou ao menos, uma luz no fim do túnel precisa ser-lhe mostrada. Esse plano é antigo, e chegou a hora de concretizá-lo. Agora o plano é vir sobre a terra e apresentar aos homens uma possibilidade de salvação.

Resumindo a história, e omitindo o tempo dos reis que não contribuíram com quase nada em seus planos, levando-os a quase utopia, deus encontra uma mulher, que desde a tenra idade fora fiel, pelo seu próprio logro, esforço e mérito. Uma mulher judia, de nobre estirpe, limpa, pura e virgem. deus não acredita! Em meio a um mundo onde a paz e pureza é quimera, tal como uma bela flor a surgir em meio à aridez do deserto, assim viu deus a incólume santidade dessa mulher imergindo-se no mundo, irrepreensivelmente à parte de toda impureza e pecado. Uma mulher que, por fim, co-participaria nos desejos de deus, tirando-o do campo da impossibilidade, e materializando-o no mundo dos viventes. Por meio dela, deus viria habitar entre os homens, isso, se Maria estivesse disposta a participar.

Se valendo da produção da história particularmente humana, da qual deus não tem nenhuma responsabilidade e controle, o Eterno, se alegra por poder levar a frente um desejo antigo (não tão antigo), o de tentar restaurar a humanidade por meio de sua vinda a terra.

É certo que desde o Gênesis tal vinda fora predita, como a consecução dos planos de deus, por meio dos quais derrotaria o seu inimigo e o pecado. Porém, mesmo tendo em vista a conclusão desse “decreto”, a sua efetivação realização sempre esteve condicionada a voluntariedade humana, a corresponder a contento, munindo-se da parte que lhe foi, e sempre será foi pertinente. Mas enfim, deus se faz carne, e por meio das mãos dos homens maus, morre e ressuscita, facultando aos homens a salvação por meio da aceitação de seu sacrifício, aceitação essa plena e decisioriamente circunscrita a alçada humana. Assim, diante dessa forma de ver e conceber deus, o mundo a seu redor, seu desejo de salvar o homem, e a possibilidade de se consumar essa salvação, conclui-se que a salvação é uma daquelas questões onde se menos pode acreditar que de fato acontecerá. deus deseja que todos os homens sejam salvos, mas seu desejo não corresponde ao seu intento. Ele quer aquilo que não é seu. Sob essa compreensão, deus não só não verá todos os que Ele deseja se converterem, bem como pode ter a inóspita experiência de que nenhuns dos homens se converterão, pois mesmo que alguns o sirvam hoje, podem olvidá-lo um dia e abandoná-lo, posto que são total e plenamente livres. Mesmo que nos pareça remota essa possibilidade de pleno fracasso ao alvo pretendido, vendo sua esse prisma, isso é inteiramente possível de acontecer, ao menos em tese. Portanto, nada está decretado, os homens pode simplesmente pela força de sua decisão, não querer ter a cristo, incorrendo à deus de não ver no futuro, o fruto de seu trabalho e nele ficar satisfeito. 

Conclusão: O mundo foi feito por deus, destruído pelo diabo, que por sua vez contaminou o homem, tornando-o num aliado, que luta vorazmente contra os planos de deus. O homem desde o princípio resiste em aliar-se aos desígnios de Deus, forçando-o a sempre remeter-se a um plano B ou ainda um plano C, para possibilitar a probabilidade de vencer na ocasião. A despeito dessa rebelião do homem, Deus em sua misericórdia, não salvou ninguém, antes morre a fim de simplesmente facultar a salvação a todos os que podem rejeitá-la. A salvação não é substitutiva e sim facultativa; ele não levou pecados, e sim pode levar pecados, caso o pecador queira que ele os leve; A salvação é universalmente oferecida, e não efetivamente realizada. Assim, deus e o diabo são forças proporcional ou igualmente fortes, pondo-se a lutar no ringue do mundo, onde o grande controlador da batalha, que detém nas mãos a capacidade nata de coordenar a história, manipulando-a por meio da ajuda de uma dos dois lutadores é o homem, bastando-lhe apenas, apoiar aquele que no momento quer que seja o vencedor, e isso temporariamente.

Falando sério, seria assim, se Deus não fosse Soberano e se o homem, ao lado de Deus, fosse um outro deus. Se o seu Deus tem no mínimo, uma característica desse embusteiro, descrito acima, utopicamente nesse texto, desculpe-me, esse deus não é o Eterno Deus das Escrituras. O Deus da Igreja não está vendido nessa história, não está chorando copiosamente nos céus, devido ao fracasso de seus primeiros decretos abortados ou pelo "leite derramado". Ele controla todas as coisas, para que essas coisas contribuam, soberanamente, para os seus planos irredutíveis, insubstituíveis, e eternamente decretados.

“Porque o SENHOR dos Exércitos o determinou; quem o invalidará? E a sua mão está estendida; quem pois a fará voltar atrás?” (Is 14.27)

“Só tu és SENHOR; tu fizeste o céu, o céu dos céus, e todo o seu exército, a terra e tudo quanto nela há, os mares e tudo quanto neles há, e tu os guardas com vida a todos; e o exército dos céus te adora.”(Nm 9.6)

Soli Deo Gloria

Graça e Paz
Mizael Reis

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Existem Brechas na Bíblia?

Existem Brechas na Bíblia? -
por Filipe Luiz C. Machado

Costuma-se dizer - no Direito - que a lei tem brecha, ou lacunas a serem preenchidas, contudo, não o ordenamento jurídico. Isso quer dizer que, embora determinadas - ou muitas - leis possam ser incertas quanto à sua aplicação, o conjunto de todas as leis e princípios que regem o Direito asseguram que todo o conjunto da obra - isto é, tudo o que envolve o Direito - dará e terá alguma solução para qualquer caso que lhe vier, não ficando coisa alguma sem solução.

De forma muitíssimo semelhante, se dá também com a Bíblia.

Muito embora a Bíblia contenha versículos de difícil entendimento e ainda outros que não fazemos muita noção do que significaram e significam, ainda assim quando olhamos a partir de uma visão geral e mais ampla para ela, vemos que outros versículos mais claros lançam luz sobre esses versículos de difícil compreensão. Esse é um dos três pilares da interpretação bíblica [a) a Bíblia se auto-explica (ou, a Bíblia não pode se contradizer), b) partes mais claras das Escrituras iluminam as mais escuras e c) a analogia da fé (isto é, conectamos as partes da Escritura por meio da fé de que elas de fato são a palavra de Deus).

É lamentável olharmos para inúmeros liberais que - praticamente - orgulham-se de enxergarem contradições na palavra de Deus. Conforme vimos, embora certos versículos nos sejam de difícil compreensão - ou ainda podem ter mais de uma interpretação plausível - isso jamais significou - para a igreja histórica e fiel aos princípios bíblicos - que a Bíblia não nos dê subsídios - isto é, bases concretas para a interpretarmos - a fim de que entendamos os propósitos e palavra do Senhor.

Muitos cristãos se veem perdidos quando deparam-se com algum ponto obscuro na doutrina bíblica, contudo, não deve haver motivo para desespero, pois ainda que esse ou aquele versículo ou contexto histórico pouca coisa forneça para nos iluminar - em nossa pequenez - certamente que alguma outra parte da Escritura descortinará novos horizontes para todos os Seus, a fim de os levar a uma melhor compreensão da Sua revelação.

Se pessoas defendem autores controvertidos e ideias contraditórias, não deveríamos nós - os cristãos - lutarmos com muito mais afinco em prol da palavra de Deus, a única capaz de nos salvar?

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Falando entre vós em Salmos - 12



1 Salva-nos, Senhor, porque faltam os homens bons; porque são poucos os fiéis entre os filhos dos homens.
2 Cada um fala com falsidade ao seu próximo; falam com lábios lisonjeiros e coração dobrado.

Davi talvez se sentisse oprimido, visto estar em minoria. Também vivemos assim; em um mundo ímpio – seremos sempre a minoria. A igreja não é relevante, ela é confrontante – em relação ao mundo; pois este odeia tanto a Deus quanto Seus filhos que estão sendo santificados, por Ele. Davi nos ensina uma grande lição. Estamos sozinhos? Clamemos ao Senhor. Estamos com o Senhor? Nunca sozinhos – e sempre em maioria.
“Porque os olhos do Senhor estão sobre os justos e os seus ouvidos estão atentos à sua oração, mas o rosto do Senhor volta-se contra os que praticam o mal” (2Pe 3.12).

Os inimigos são descritos de forma sistemática por Davi. Eles falam com “falsidade”. “Falsidade, aqui, é mais precisamente, ‘vaidade’ – literal ‘coisa vazia’” (1). O que é mais vazio do que esquecer que estamos sempre perante Aquele que um dia nos julgará retamente? Se tudo é vaidade, agir falsamente em proveito próprio – contrariando o mandamento de amar ao próximo como a si mesmo; é vaidade das vaidades! 

Os inimigos falam com “lábios lisonjeiros”. Esta lisonja, este “rasgar seda” - como no dito popular, tem apenas o interesse de ludibriar ao próximo em proveito próprio. “Em geral, o propósito é malévolo ou egoísta” (2); tem o intuito de destruir. Lembremos que o Faraó também usou de malícia: “Usemos de astúcia para com eles” (Êx 1.10). Seja na maldosa lisonja, seja na astúcia, o crescimento da Igreja de Deus e sua glorificação futura nunca serão ameaçados. Pelo contrário, assim como o povo multiplicou no Egito, Deus reverte à ação do inimigo para Sua glória.

A expressão “coração dobrado” significa literalmente: um coração e um coração. Ou seja, Davi expressa a falsidade do ímpio como se este tivesse dois corações. Duas faces; pois mostra maleabilidade pela frente e apunhala pelas costas. Mas poderia uma figueira gerar maçãs? Assim, uma fonte má só pode gerar más obras. E uma árvore inútil só tem um destino – fogo!

Ou seja, nossos inimigos – e antes de tudo inimigos de Deus; trabalham e se dedicam com um único grande objetivo: enganar. Que possamos aprender a nos diferenciar do ímpios, dando frutos do Espírito, fazendo mais firmes nosso chamado e eleição (2Pe 1.10). “Nossa linguagem, portanto, deve ser sincera a fim de que seja semelhante a um espelho, no qual seja contemplada a integridade de nosso coração” (3). Oh Pai, peço-Te: não nos abandones. Sozinhos não podemos nada. Sozinhos acabamos sendo piores que nossos inimigos. Vem com o Teu socorro e com o Teu Espírito nos ensinar a permanecer fiéis e humildes, santos e puros – para a glória do Teu nome; seja a situação que estivermos! Lembra-nos de Tua Palavra: “quem quiser amar a vida e ver dias felizes, guarde a sua língua do mal e os seus lábios da falsidade. Afaste-se do mal e faça o bem; busque a paz com perseverança” (2Pe  3.10-11).

3 O Senhor cortará todos os lábios lisonjeiros e a língua que fala soberbamente.
4 Pois dizem: Com a nossa língua prevaleceremos; são nossos os lábios; quem é senhor sobre nós?

A NVI traduz o verso 4 desta forma: “Venceremos graças à nossa língua; somos donos dos nossos lábios! Quem é senhor sobre nós?”. O ser dono dos lábios tem o significado de “‘os nossos lábios são nosso meio de sucesso’... O poder das palavras para explorar, controlar e destruir é reconhecido em toda a Bíblia” (4). “É indubitável que a falsidade e as calúnias são mais letais do que espadas e todo gênero de armas” (5). 

O salmista utiliza um sinédoque (artifício literário onde uma parte representa o todo) para embelezar o poema; mas, a verdade é dura. Estamos falando da totalidade da vida do ímpio, que será destruída pelo Senhor (mesmo que estejam dentro da Igreja – não pertencem a ela), e estes não recebem uma disciplina em partes, antes, recebem todo o cálice da ira divina – acumulada por seus anos de afrontas e desobediência. Toda palavra vã será julgada (Mt 12.36). Em contraste, você cristão, deve confiar nas “palavras puras, como prata refinada em fornalha de barro, purificada sete vezes” (verso 6) que o Senhor proferiu: “O Senhor cortará todos os lábios lisonjeiros e a língua que fala soberbamente.” (verso 3).

O que o ímpio altivo em suas palavras esquece é que: “Toda a carne é como a erva, E toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor; Mas a palavra do Senhor permanece para sempre” (1Pe 1.24-25).

5 Pela opressão dos pobres, pelo gemido dos necessitados me levantarei agora, diz o Senhor; porei a salvo aquele para quem eles assopram.
6 As palavras do Senhor são palavras puras, como prata refinada em fornalha de barro, purificada sete vezes.
7 Tu os guardarás, Senhor; desta geração os livrarás para sempre.

Davi, na função de profeta, proclama a reação de Deus perante a ação dos altivos e a dor dos inocentes. A NVI traz o final do verso 5 da seguinte forma: “Eu lhes darei a segurança que tanto anseiam”. Deus tende a ficar sempre ao lado do fraco. O cristão, aos olhos do mundo sempre será um fraco, um derrotado; assim como Cristo foi reputado. Parece estar só, mas: “por menor que seja o número dos bons, que esta persuasão esteja profundamente fixada em nossas mentes: que Deus será o seu protetor, e isso para sempre” (6).

Calvino brilhantemente diz que: “Devemos convencer-nos do seguinte: quanto mais estão confusas as coisas neste mundo, mais pronto está Deus em ajudar e socorrer a seu povo, e que então é esse o tempo oportuno para inferir com sua assistência” (7).
Em épocas anteriores e remotas, a prata já teve seu valor mais elevado que o ouro – e sua pureza obviamente contribuía para o aumento de seu valor. Deveríamos ficar descontentes se através da ofensa do inimigo, o Senhor nos purifica mais? O reformador diz: “Quando pois, as injúrias, as extorsões e as devastações de nossos inimigos nos deixarem desprovidos de tudo, menos de lágrimas e gemidos, lembremo-nos de que agora chegou o tempo quando Deus pretende erguer-se e executar juízo” (8).

Oh Senhor, lembra-Te de nós! Guarda-nos do mal, do homem maligno e de nós mesmos. Não permita que diante de problemas venhamos a blasfemar Teu santo nome; ou questionar o Teu cuidado e plano. Faz-nos fiéis a Ti! Glorifica Teu nome em nossa vida. Recebe-nos em Tua glória eterna. Seja o Juiz em nossas causas; porém, pedimos misericórdia de nós primeiramente. Lembra-Te da oração de Teu doce Filho; ainda que não nos tires do mundo, guarda-nos em Teu nome (Jo 17).

8 Os ímpios andam por toda parte, quando os mais vis dos filhos dos homens são exaltados.

O mundo jaz no maligno correto? O que mais podemos esperar do que estarmos cercados por inimigos de Deus? Seja Seu santo nome glorificado, pois Ele já governa todas as coisas (e nunca deixou de governar), estando Satanás preso e com seu poder – e de seus asseclas, limitados pela Providência. Mas não se engane, pois, no dia a dia e nos corredores de nossas igrejas há muitos inimigos. “Há uma geração que é pura aos seus próprios olhos, mas que nunca foi lavada da sua imundícia” (Provérbios 30,12).

A palavra traduzida por “andam no verso 8 sugere um modo bem público de ir perambulando” (9), ou seja, estão por toda a parte. Nossa luta tem um campo de batalha definido – este mundo; uma torre a ser defendida – nosso coração; um tempo de luta – nossa vida neste mundo; e um Rei a ser glorificado – nosso Senhor. Por todos os lados, os paroleiros levantarão suas vozes altivas contra tudo o que lembra Deus. “Que pensais vós contra o Senhor?” (Na 1.9). Suas ações serão para destruir o Seu nome santo. Descanse em Deus. A luta principal é dEle. “A Tua mão alcançara todos os Teus inimigos, a tua mão direita alcançará aqueles que te odeiam” (Sl 21.8).

Corrupção pode ser traduzido por “inutilidade” (10). Ora, ainda que estas pessoas vis andem por todos os lados espalhando sua corrupção astuciosamente, o que poderia ser mais inútil do que guerrear contra o poderoso Deus? “Não temereis a mim? – Diz o Senhor; não tremereis diante de mim? (Jr 5.22). “Ele apanha o sábio em sua própria astúcia” (Jó 5.13). Seu aparente sucesso gera maior condenação. Sua imoralidade contrasta com a santidade infundida por Deus em seus filhos. Todo seu esforço é nulo; já está julgado e receberá sua paga no devido tempo. “Quem conhece o poder da Tua ira? (Sl 90.11). “Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo (Hb 10.31). 

Andemos com esta esperança de salvação e livramento – ainda que contristados por pouco tempo (ou mesmo um longo tempo), a eternidade glorificada nos aguarda. Louvemos: “Àquele que se lembrou de nós quando fomos humilhados O seu amor dura para sempre! (Sl 136.23). Há pouco tempo nosso ex-presidente disse que quer as coisas agora e esse papo de “herdar o céu” é bobagem. Que ele e os que assim imaginam aproveitem os poucos anos que lhe restam. Se aprouver a Deus os salvar, que o faça; “dei-lhe tempo para que se arrependesse... da sua prostituição (Ap 2.21). Prefiro ficar com a esperança eterna, baseada na promessa dAquele que eterno é e não mente. Louvemos Aquele que “Com amor eterno” nos amou (Jr 31.3). Andemos com Aquele que prometeu: “De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei” (Hb 13.5). Temos uma herança que o ímpio não tem nem como cobiçar – pois desconhece: Deus – “que é a fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre” (Sl 73.26). Ergamos nossa cabeça, pois receberemos a indestrutível coroa de glória (1Pe 5.4). Não porque mereçamos, mas, porque o Fiel prometeu!

Pai, dá-nos força e paciência quando atormentados pelo mal. Dá-nos confiança em Tuas promessas, quando vemos nossa vida se esvair. Dá-nos amor pelo próximo, mesmo quando este nos fustiga. Nas dificuldades, dá-nos humildade para sempre nos auto-avaliarmos e ver se estamos em falta Contigo. “Os pecados dos filhos de Deus provocam mais do que os dos ímpios” (11); por isso, livra-nos do mal e não nos deixe cair em tentação, Senhor! Tua seja a glória, Amém!

Referências:
(1) KIDNER, Derek – Salmos 1-72 - Introdução e Comentário – Edições Vida Nova, p. 91;
(2) MACDONALD, William – Comentário Bíblico Popular Antigo Testamento  – Editora Mundo Cristão, p. 380;
(3) CALVINO, John – Salmos - comentários; volume 1 – Editora Fiel, p. 226;
(4) BAIGENT, John W. in BRUCE, Frederick Fyvie - Comentário Bíblico NVI - Antigo e Novo Testamento - Vida Acadêmica, p.774;
(5) CALVINO, op. cit., p. 226;
(6) Idem;
(7) CALVINO, op. cit., p. 225;
(8) Idem, p. 228;
(9) KIDNER, op. cit., p. 93;
(10) BAIGENT, in BRUCE, op. cit., p.774;
(11) WATSON, Thomas – A Fé Cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster – Editora Cultura Cristã, p. 114.

Por: Alberto Oliveira

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

"Porém, além da voz, não vistes figura alguma" - Sermão pregado dia 21.08.2011




"Porém, além da voz, não vistes figura alguma" - 
Sermão pregado dia 21.08.2011

Nosso texto: "Então o SENHOR vos falou do meio do fogo; a voz das palavras ouvistes; porém, além da voz, não vistes figura alguma" (Dt 4.12).

Moisés, servo do Senhor, havia iniciado uma proclamação ao povo de Israel relembrando-os de onde haviam vindo e o quê o Senhor já lhes havia feito até o presente momento. Moisés também lhes expõe uma série de desobediências em que haviam incorrido e que, contudo, Deus ainda os preservava vivos e os sustentava grandemente.

Então, Moisés proclama o versículo chave do conhecido lema da Reforma Protestante - Sola Scriptura - "Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do SENHOR vosso Deus, que eu vos mando" (Dt 4.2). Moisés estava mostrando ao povo que a forma como Deus deve ser recebido, adorado, reverenciado e glorificado em nossas vidas foi prescrito por Ele mesmo, não devendo homem algum acrescentar ou diminuir qualquer elemento da vida aos pés da cruz por qualquer coisa feita por mão humanas, simplesmente por não concordar com tal afirmação bíblica.

Moisés também exorta o povo sobre a grandiosa bênção que pairava sobre eles, haja vista o próprio Senhor criador dos céus e da terra, ter iniciado um relacionamento com eles e lhes vir ao auxílio todas as vezes que precisavam. "Pois, que nação há tão grande, que tenha deuses tão chegados como o SENHOR nosso Deus, todas as vezes que o invocamos?" (Dt 4.7). Mas não somente isso. Moisés conclama ao povo a perceber que a lei, os estatutos, os mandamentos e as revelações vindas da parte d'Ele eram a única justiça verdadeira, devendo o homem rejeitar qualquer juízo de valor baseado na vã sabedoria humana - "E que nação há tão grande, que tenha estatutos e juízos tão justos como toda esta lei que hoje ponho perante vós?" (Dt 4.8).

Antes de chegar no versículo dessa manhã, vemos que Moisés lhes esclarece dizendo que não precisavam de qualquer revelação extra da parte do Senhor, de que eles não necessitariam ir a povos vizinhos em busca de conhecimento, mas tão somente que deveriam guardar em seus corações e ensinar aos seus descendentes àquilo que haviam ouvido e visto até o momento: "Tão-somente guarda-te a ti mesmo, e guarda bem a tua alma, que não te esqueças daquelas coisas que os teus olhos têm visto, e não se apartem do teu coração todos os dias da tua vida; e as farás saber a teus filhos, e aos filhos de teus filhos" (Dt 4.9)

Depois dessas palavras, Moisés declara ao povo qual foi o objetivo de Deus em reuni-los anteriormente aos pés do monte Sinai: "O dia em que estiveste perante o SENHOR teu Deus em Horebe, quando o SENHOR me disse: Ajunta-me este povo, e os farei ouvir as minhas palavras, e aprendê-las-ão, para me temerem todos os dias que na terra viverem, e as ensinarão a seus filhos" (Dt 4.10). O propósito de Deus ter se revelado àquele povo era para que eles soubessem o que o Senhor requeria deles, para que soubessem quem era o Senhor e passassem a temê-lo.

Moisés também relembra-os que quando o Senhor lhes apareceu, não foi como homem qualquer ou à semelhança de algum ser vivente, mas Sua presença divina trazia consigo um alto nível de fenômenos que conferiam àquele momento uma requerida reverência por parte de seu povo: "E vós vos chegastes, e vos pusestes ao pé do monte; e o monte ardia em fogo até ao meio dos céus, e havia trevas, e nuvens e escuridão" (Dt 4.11).

Finalmente, Moisés proclama ao povo: "Então o SENHOR vos falou do meio do fogo; a voz das palavras ouvistes; porém, além da voz, não vistes figura alguma" (Dt 4.12).

Certamente que esse último versículo tem muitas coisas a nos dizer e veremos três aplicações nessa manhã.

1. Qual a fonte de nossa revelação? Deus em sua soberania.

Moisés disse ao povo que quando o Senhor se manifestou diante deles, eles não viram "figura alguma", ensinando-lhes o caráter da transcendência de Deus. Aquele povo israelita precisava a cada dia ser lembrado que eles viviam diante de um Deus soberano e que Ele outorgava (decretava) aquilo que lhe bem aprazia (vide Paulo em Romanos). O povo de Israel ouviria e faria tão somente aquilo que Deus lhes havia ordenado.

Deus estava no alto do monte, sua presença acompanhava fogo, nuvens e escuridão. O povo, por sua vez, não estava nem sequer no meio do monte, mas em baixo, aguardando e esperando para fazer tão somente aquilo que o Senhor lhes ordenasse. Diante de fogo, nuvens e escuridão vindas da parte de Deus, homem algum deveria ficar brincando de ser povo do Senhor. 

De forma semelhante, somos nós diante de Deus. Ele não está mais naquele monte físico, nem em tabernáculo feito por mãos humanas, nem tampouco acompanha o seu povo com uma nuvem durante o dia e com fogo durante a noite, contudo, está nos céus, reina de modo soberano e nos comunica através de Sua palavra e de Seu santo Espírito. 

Vemos que tal qual àquele povo de Israel, os cristãos de hoje precisam urgentemente aprender a viver sabendo que Deus é soberano. Digo aprender a viver pois uma boa parte sabe - em teoria - que Deus é soberano, porém, vive de maneira desordeira e cria novas regras de adoração e formas "alternativas" de obedecer a sua palavra. Por vezes, até mesmo os mais ortodoxos caem nessa armadilha.

A grande distinção entre os reformados e o restante dos professos da fé cristã, é que esses tentam viver norteados pela seguinte pergunta: "Tenho base bíblica para isso?". Os reformados e seu "Somente a Escritura", nos ensinam que a forma correta de adoração e louvor a Deus foi instituído por Ele mesmo e não pelo homem. O homem não deve conjecturar novas formas de adoração e louvor, mas deve-se submeter humildemente às Escrituras.

Quando Deus estava acima do monte, Ele não desceu e fez um plebiscito para saber o que o povo queria que Ele escrevesse nas duas tábuas da lei - e ainda bem que Ele não fez isso. Deus também não perguntou ao representante do povo, isto é, Moisés, sobre o que ele achava mais interessante para o povo naquele momento. Não houve uma mesa redonda com Deus, Moisés e o povo, mas tão somente uma voz ativa que ditava as regras.

O escritor de Eclesiastes também escreveu acerca de nossa posição diante de Deus: "Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu estás sobre a terra; assim sejam poucas as tuas palavras" (Ec 5.2).

Receio que muitos hoje, muitos vivam diante de Deus como se estivessem diante de um atirador de elite que está pronto para atirar e que nunca errou um tiro sequer e mesmo assim tais homens vivem a fazer gracinhas, piadas e levam a vida de qualquer maneira, crendo que aquele atirador certamente nunca os acertará.

2. Qual nossa posição diante da revelação? Atenção e reverência.

O povo não deveria subir ao monte e isso eles sabiam muito bem. Não deveriam sugerir novas ideias ao Senhor, nem tampouco lhes dar conselhos acerca do que deveria ser feito. O povo de Deus deveria permanecer aguardando a volta de Moisés, não devendo sequer cogitar a possibilidade de dar "espiada" no acontecimento: "E marcarás limites ao povo em redor, dizendo: Guardai-vos, não subais ao monte, nem toqueis o seu termo; todo aquele que tocar o monte, certamente morrerá" (Êx 19.12).

O povo de Israel foi instruído a não passar dos limites da palavra de Deus. De forma igualmente verdadeira, nós também não devemos nos apressar para "subir no monte", mas sim permanecermos firmes diante da manifestação do Senhor através de Sua palavra.

É com tristeza que olhamos para os arraiais evangélicos e percebemos como o povo - que se diz do Senhor - tem se prostituído e ultrapassado todos os limites estabelecidos pela lei de Deus. Homens e mulheres perderam a reverência devida ao santo e sumo sacerdote Jesus Cristo. Ele que está sentado à destra do pai (At 2.33) reina de forma magnífica e altíssima, de sorte que ser vivo algum deveria viver a vida com menor temor e tremor do que àqueles israelitas.

Infelizmente, assim como aquele povo israelita se corrompeu tão facilmente - "Mas vendo o povo que Moisés tardava em descer do monte, acercou-se de Arão, e disse-lhe: Levanta-te, faze-nos deuses, que vão adiante de nós; porque quanto a este Moisés, o homem que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que lhe sucedeu" (Êx 32.1) - também nós muitas vezes não agimos com o devido respeito ao nosso Senhor.

Como vimos semana passada (clique aqui para ler), muitas vezes nos assemelhamos a Davi e somos extremamente rápidos em julgar e proferir veredictos acerca do próximo. Mas não somente isso; somos por demais rápidos em querer "melhorar" o culto ao Senhor. Não que esse desejo não possa ser legítimo, contudo, deve ser sempre baseado naquilo que o Senhor nos revelou. Se por "melhorar" o culto ao Senhor signifique investigar de forma mais profunda os Seus preceitos, então devemos lutar por essa finalidade. Porém, se por "melhorar" queremos dizer que o culto prescrito por Deus está ultrapassado e que precisa e pode ser segundo nossa vontade e nosso querer - ainda que falsamente baseado nas Escrituras – então devemos nos prostrar diante do Senhor e clamarmos por misericórdia, pois estamos perdidos.

O salmista escreveu acerca de nossa vida diante do Senhor, dizendo: "Servi ao SENHOR com temor, e alegrai-vos com tremor" (Sl 2.11). De igual maneira, Paulo também escreveu aos filipenses dizendo: "Operai a vossa salvação com temor e tremor" (Fp 2.12).

A posição do homem pecador diante de Deus resume-se em duas maneiras. A primeira é que ele deve se portar e viver com extrema cautela em tudo o que faz, pois vive diante do Deus todo poderoso, o único a quem devemos temer (já preguei sobre isso, clique aqui para ler). A segunda diz respeito à grandiosa alegria que deve pulsar em seu coração, pois estava morto em seus delitos e pecados (Ef 2.1), mas agora foi feito justiça de Deus (2Co 5.21) e está prestes a receber a vida eterna.

Muitas vezes podemos nos perguntar: "Por que é que Deus determinou e exigiu tantas coisas para os sacrifícios do Antigo Testamento?". O próprio Moisés nos dá a resposta: "Porque o SENHOR teu Deus é um fogo que consome, um Deus zeloso" (Dt 4.24). Ou ainda: "Por que o Novo Testamento não nos é mais claro quanto ao que devemos fazer no culto público?". Nesse ponto, o próprio Jesus nos dá a resposta: "O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar" (Mt 24.35).

Ou seja, se o Senhor é um fogo que consume e um Deus zeloso e se a Sua palavra permanecerá - ou seja, desde sempre ela é - para sempre, concluímos que devemos buscar conhecer todo o conselho de Deus, pois somente assim poderemos adorá-lo e vivermos dignos de nossa vocação.

3. Como se dá essa revelação até nós? Por meio de sua palavra.

O povo apenas ouviu a voz de Deus. Nosso texto nos diz que "a voz das palavras ouvistes; porém, além da voz, não vistes figura alguma" (Dt 4.12).

O povo não havia visto o Senhor, o povo não havia sido tocado fisicamente pelo Senhor, o povo não havia visto algum vulto semelhante ao Senhor, o povo não havia estado no monte enquanto Moisés recebia as tábuas da lei e por esse mesmo motivo é que eles não deveriam fazer "[nenhuma] imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra" (Êx 20.4). O povo não sabia como era "fisicamente" o Senhor e por isso mesmo não deveriam tentar humanizá-lo.

Quem sabe, muitas vezes acusamos os católicos romanos de venerarem imagens e santos sem fins, mas não nos apercebemos com que falta de cuidado estamos vivendo para com a palavra de Deus.

Deus, em seu santo monte, revelou-se a Moisés e veio a exigir que ele ensinasse todas aquelas coisas ao seu povo. O povo, por sua vez, deveria apenas executar àquilo que Moisés havia lhes dito. Nós não temos mais um monte onde Deus se revela, nem temos alguém que media nossa relação com o Soberano - exceto o Jesus Cristo - contudo, temos onde buscar as palavras do próprio Deus, a saber, na Bíblia.

O Espírito Santo nos guia em toda a verdade, assim como Jesus havia prometido: "Mas, quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir" (Jo 16.13). Porém, algo que muitas vezes nos passa despercebido é o fato de que o Espírito Santo - do próprio Deus trino - revela-se e guia-nos tão somente nos trilhos estabelecidos pelas Sagradas Escrituras. Ele jamais não guiará para longe dos mandamentos e ordenanças de Deus e caso alguém alegue que isso por ser feito, que seja anátema, conforme Paulo escrevera aos gálatas.

Os puritanos tinham algo magnífico com relação à revelação de Deus ao homem: uma imensa alegria em poder ouvir a palavra de Deus. Para eles, dois cultos por domingo não eram demais - lembrando que eles não tinham carros, ônibus nem coisa semelhante - ou enfadonhos, mas eram duas oportunidades de escutar Deus lhes falando ao coração.

Para esses santos no mundo, a revelação de Deus dava-se tão somente através daquilo que viam e liam a partir das Escrituras. Não havia questionamento quanto à praticas contrárias àquilo que estava revelado. Eles simplesmente liam, meditavam e buscavam aplicar as doutrinas às suas vidas, mesmo que lhes fosse extremamente doloroso - conforme disse Jesus: "Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno" (Mt 5.29).

Tal qual os israelitas no Antigo Testamento, nós não vimos "figura alguma". Diferentemente dos crentes dos tempos de Jesus, nós não o vimos - "E quem me vê a mim, vê aquele que me enviou" (Jo 12.45). Contudo, temos muito mais revelação do Senhor do que todos esses, pois temos todos os registros de Deus ao seu povo, de sorte que "Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra" (2Tm 3.16,17).

Que nessa manhã possamos atentar para quem somos diante do Altíssimo. Que Deus nos liberte de todo misticismo e de "boas intenções" que estão maculadas pelo pecado. Que tenhamos somente o Senhor como fonte de nossa revelação - e que o busquemos com afinco! Que sejamos reverentes diante de sua revelação - vivendo com temor, tremor e alegria. E por fim, que tenhamos Sua revelação no mais alto apreço, de forma a nos tornarmos atentos à Sua palavra.

Amém. 

domingo, 21 de agosto de 2011

Dê sua opinião: É possível fazer pacto com o Diabo?


É possível fazer pacto com o Diabo? -
por Filipe Luiz C. Machado

Diante do fato de que os ímpios estão sob a ira de Deus e que consequentemente estão afastados da aliança com Cristo, seria possível alguém fazer pacto com o Diabo? Não seria uma redundância (ou seja, afirmar aquilo que na verdade já é fato), haja vista tal pessoa já estar desligada de sua união salvífica com Cristo?

sábado, 20 de agosto de 2011

Nosso Encontro com o Deus do Pacto



Nosso Encontro com o Deus do Pacto -
Por Daniel Hyde

Êxodo 29: 38-46
Para nós, cristãos, o adorarmos a Deus segundo a sua Palavra é de grande importância para a glória do Senhor e para as nossas almas. Porque quando adoramos segundo Sua Palavra, estamos nos submetendo à sua vontade. Fazer isso é trazer glória a Ele, mas é também um bem para nossas próprias almas, pois existem muitos benefícios que podemos tirar da adoração pública. Nós, como seus “pequeninos”, nos achegamos a Ele para receber sua graça. Nos achegamos para sermos recebido por Deus e receber a obra do Santo Espírito em nós. Nesta passagem podemos ver a glória de Deus na adoração.

Podemos ver no capítulo 28 de Êxodo as ordenanças Deus com respeito às vestimentas dos sacerdotes e quando entramos no capítulo 29 vemos uma cerimônia longa e elaborada de ordenação ou consagração. Nos vv. 38 a 42 deste capítulo 29 vemos as ordenanças de Deus para as ofertas contínuas dos sacerdotes, para todos os dias. Entre outras coisas vemos aqui que Deus está preocupado com sua adoração. Não queremos discorrer sobre o Princípio Regulador do Culto propriamente dito, mas ele está presente por detrás do que iremos falar.

Propósito e Benefícios da adoração
Quero destacar que nos versículos 43-46 podemos ver o propósito e os benefícios da adoração a Deus. Vemos como a glória de Deus e Sua preocupação com nossas almas se unem. No v. 43 lemos que, “Ali, virei aos filhos de Israel”. Ou seja, à porta da tenda da Congregação Deus encontra-se com seu povo e lhes mostra sua glória.

Vejamos três benefícios que nós podemos tirar desta glória:

I) Em primeiro lugar, na adoração existe um encontro com Deus.

II) Em segundo lugar, existe uma santificação que nos vem de Deus.

III) Em terceiro lugar, recebemos conhecimento de Deus.

Deus, pelo seu Espírito, nos ensina estas coisas.

I) O primeiro benefício é que Deus se encontra com seu povo. Vemos isso no v. 42 e 43: “... onde vos encontrarei... Ali, virei aos filhos de Israel...”. Que benefício maravilhoso é que Deus se encontra com seu povo! Isto é muito instrutivo, pois enquanto outras tradições cristãs colocam o foco da adoração no líder do culto, podendo ser um sacerdote ou um evangelista ou um líder de louvor, na adoração bíblica o foco é o nosso encontro com Deus e que nós nos achegamos diante da “face de Deus”. Nós entramos na presença de Deus! É verdade que nos encontramos uns com os outros e com eles mantemos comunhão, mas em primeiro lugar e o mais importante, é que nos achegamos para ter comunhão com Deus. Veja a profundidade que existe nisso: “Ali, me encontrarei com vocês”.

Vejamos isso no contexto da queda dos nossos primeiros pais. Depois do pecado de Adão e Eva, Deus os afastou de sua presença expulsando-os do Jardim do Éden. A partir deste momento a vida do homem fica “à leste do Éden”. Até então a humanidade vive num deserto. Então Deus se achega ao seu povo e diz: “Eu vou me encontrar com vocês novamente”. E, assim como no jardim Deus andava com Adão, Ele diz novamente que virá andar com seu povo. O Tabernáculo era para ser uma expressão vívida do Jardim do Éden. Todo o colorido do Tabernáculo, suas cortinas e o que nelas havia sido bordado, como árvores... um anjo bordado no próprio véu como sendo um símbolo do anjo que guardava o Jardim do Éden, tudo isso era Deus falando: “Meu povo, eu vou me encontrar com vocês!”. Aqui Deus nos dá, a nós pecadores, uma prévia do que será nossa vida com Ele no céu. A adoração na terra é como se fosse uma prévia da vida no céu. Este é um grande benefício para a Igreja, porque o próprio Deus se encontra com seu povo. O grande Criador se encontra com sua criação. O Deus infinito se abaixa para o que é finito. Ao fazer isso, Deus nos mostra sua própria natureza.

O Catecismo de Hidelberg nos diz o seguinte com respeito ao AMÉM, na oração do Senhor:

“Pois é mais certo e verdadeiro que Deus ouviu a minha oração, do que o sentimento que tenho em meu coração de desejar isso dEle”.

Ou seja, Deus está mais pronto a nos ouvir do que nós estamos de falar com Ele. Deus está mais disposto a se encontrar com pecadores do que os pecadores estão de se encontrar com Ele. Assim vemos sua maravilhosa graça, sua infinita misericórdia, seu coração voltado para o seu povo, porque Deus em sua graça irresistível atraiu para si uma Congregação. Na verdade isto é uma figura para nós da nossa própria adoração. Porque, no culto nós adentramos ao tabernáculo celestial. Os israelitas adentraram a um tabernáculo terreno, mas o Novo Testamento diz em Hebreus 12 que nós não chegamos mais a um monte terreno que pode ser tocado, mas que nós chegamos à nova Jerusalém celestial, nos achegamos a Deus, o juiz de todos, a Jesus Cristo e já fazemos isso pela fé.

Então, nós não nos achegamos à adoração para sermos passivos, nem para sermos meros expectadores ou para sermos entretidos, mas nos achegamos para ter um encontro face a face com o Deus vivo. Observe como isto é expresso aqui, observe onde Deus diz que irá se encontrar conosco. Dos vv. 38 a 42 o escritor diz que é no local onde acontece o sacrifício ― é lá que Deus se encontra com seu povo. É lá, onde os pecados são perdoados e que Deus abençoa com graça. Agora Deus está conosco em Cristo, porque Jesus, pelo seu sacrifício, abriu novo caminho para nos encontramos com Ele pela fé. É em nossa adoração que chegamos a uma comunhão mais plena, mais próxima com Deus. Assim como Moisés adentrava à tenda da Congregação e orava a Deus (e ouvimos que ele se encontrava com Deus face a face como a um amigo), agora quando o véu foi rasgado em duas partes, todo crente em Cristo se encontra com Deus como se fosse seu amigo.

Embora isso seja tão importante para nós crentes — o orarmos particularmente como indivíduos, como casais, como famílias ― existe algo distinto no culto público. Existe algo a mais quando nos reunimos como um povo para adorá-lo. Isso levou certo puritano, David Clarkson (1621-1686), a dizer: “A adoração pública deveria estar em primeiro lugar em relação à adoração privada”. Não que a adoração particular seja sem sentido, não que tudo seja culto público, mas temos que adorar a Deus tanto em particular como em público. No entanto, é na adoração pública que Deus faz uma promessa explícita de nos encontrar e onde Ele diz que se aproxima de nós. Este encontro não é simplesmente um vislumbre, um momento fortuito, que passa rapidamente, mas nos ajuntamos para nos tornar um lugar da habitação de Deus. Paulo nos diz que somos criados para nos tornar o lugar da habitação de Deus. Por isso ele diz que devemos nos preocupar com o que fazemos no culto.

Em I C0 11:10 Paulo diz que devemos ser respeitosos na adoração quando nos relacionamento com Deus por causa dos anjos, porque eles estão no nosso meio. O nosso meio — o povo de Deus reunido em adoração com a presença de Deus e os anjos ― é céu, porque Deus está presente. Pedro diz que o Espírito de Deus paira sobre nós. Adoração é um encontro com Deus. Espero que isso mude a forma como você adora a Deus e lhe ajude a se preparar para o momento de adoração. Oro para que você veja a grande importância do culto público e que o leve a participar dele. Quando nos encontramos com Deus existe um segundo benefício.

II) O segundo benefício é que Deus nos santifica.
Vemos isso nos vv. 43 e 44. Deus santifica o lugar da habitação e os sacerdotes.

Ali, virei aos filhos de Israel, para que, por minha glória, sejam santificados, e consagrarei a tenda da congregação e o altar; também santificarei Arão e seus filhos, para que me oficiem como sacerdotes.

A raiz desta palavra santificação nos fala de algo que é separado. Então podemos ver que Deus nos tira do mundo e nos leva para diante de sua presença. Não devemos ser conformados ao mundo, mas conformados a Cristo. É como um escultor que tem uma bela escultura de madeira em sua casa e encontra outro grande pedaço de madeira e começa a lapidar e tirar os seus excessos e as pontas ásperas e deixá-la lisa e bonita. Mas todo tempo em que faz isso, ele olha para a peça original. É isso que Deus faz conosco na adoração. Ele tem o seu Filho Jesus Cristo e ele é a exata imagem de Deus e nós estamos sendo conformados a Ele. Nós estamos cada vez mais sendo conformados a Deus. Mas isso acontece pelo poder do Espírito Santo que faz isso em nós durante todo curso de nossa vida. Porém, de uma forma mais intensa e pessoal, essa obra está acontecendo no culto público.

No v. 44 você vê que apenas os sacerdotes estão sendo santificados. E o restante da congregação? Por que é algo tão restrito aos sacerdotes? Temos de ver o lugar em que estamos no plano de Deus. Na velha aliança a adoração era bastante restrita. Havia um véu que separava as pessoas do sacerdote e outro véu que separava o sacerdote do Sumo Sacerdote. Deus estava sendo muito restrito para que causasse em todas as pessoas o anseio de que um dia eles se encontrassem com Deus e para que não apenas um dia por ano o Sumo Sacerdote entrasse no Santíssimo lugar, mas um dia chegaria em que todos os crentes se tornariam sacerdotes e assim todos adentrariam àquele lugar.

Então, o benefício é para todos nós e que todos estamos sendo santificados pelo poder do Espírito Santo. Vejamos dois textos que nos mostram isso:

Pedro nos diz em 1Pe 2:4 e 5

“Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo”.

Pedro nos diz que nós somos como pedras vivas e nos achegamos a Cristo que é A pedra viva. No v. 5 ele diz que somos edificados. Cada um de nós é uma pedra específica e Deus está nos colocando todos juntos para edificar uma casa. Veja como Pedro descreve a esta casa. A casa edificada é uma casa espiritual. Ele diz que dentro da casa existem sacerdotes — um sacerdócio santo. O que os sacerdotes fazem lá dentro da casa? Eles estão oferecendo sacrifícios. Mas temos de atentar para como eles fazem o sacrifício ― são sacrifícios espirituais. Será que eram sacrifícios invisíveis? Será que eram coisas que nós não poderíamos ver nem tocar? Ou será que eles significam “espirituais” no sentido de que são o nosso próprio sacrifício humano? O contexto responde à questão. Sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo. Isso nos soa familiar? Espírito, Deus e Cristo? Aqui temos o Deus triúno. E o próprio Espírito está nos fazendo de uma casa cheia do Espírito para que sejamos oferecidos como sacrifícios santos cheios do Espírito Santo. E estes são oferecidos a Deus por intermédio de Jesus Cristo. Veja ainda o v. 9:

Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;

Esta é uma citação do Velho Testamento que nos chama de raça aleita, sacerdócio real, nação santa, um povo de propriedade exclusiva, para que? Para que proclamemos as virtudes daquele que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz. Nós somos esta casa espiritual; somos aqueles sacerdotes que se encontravam com Deus à porta da congregação.

Vemos outra passagem em Hb 10:19

“Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus”.

Aqui o autor está resumindo o grande argumento de que Jesus Cristo é o nosso sacerdote. Por causa de Cristo nós temos confiança para adentrar ao Santo dos Santos e fazer isso pelo sacrifício de Cristo, porque Ele é o nosso grande sacerdote. E veja a exortação do v. 22: “...aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura”. Chegamos com nossa consciência purificada e nos achegamos com nosso corpo lavado com água. O autor está falando aqui de todos os sacrifícios do Antigo Testamento; todas as ofertas, todas as purificações cerimoniais que são todas cumpridas em Jesus Cristo. Podemos ver que estamos sendo santificados porque já fomos lavados e limpos. É por isso que o autor diz no v. 23 ― “Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel” — que nós vamos continuar a ser santificados.

Você vê a conexão entre o que Cristo já fez e o que está fazendo e como nós respondemos à Sua obra? Mais uma vez, quando nos achegamos juntos, como seu povo sacerdotal, devemos guardar firmes nossa confissão, devemos nos estimular uns aos outros para o amor e as boas obras — devemos nos ajuntar e nos reunir para nos encorajar uns aos outros, porque a segunda volta de Cristo está próxima. Percebe o que o autor está dizendo? Ele diz que quando nos achegamos juntos para nos encontrar com Deus, devemos ser mudados de tal forma que sejamos lançados de volta ao mundo para juntos confessarmos o nome de Cristo. Para guardarmos firme esta confissão mesmo com toda a descrença existente no mundo e a despeito de toda a pressão da sociedade mundana; a despeito de todas as tentações existentes ao redor do mundo; apesar da pressão da família, amigos e vizinhos que zombam de nós por causa da nossa fé. O autor diz: “Guarde firme esta confissão”. Somos lançados de volta ao mundo para que amemos ao próximo como a nós mesmos. Achegamos-nos como povo de Deus para sermos testemunhas da vinda de Cristo que breve voltará. Imagine!

Que impacto a Igreja exerceria no mundo, se realmente crêssemos que quando nos ajuntarmos como seu povo, estamos nos encontrando com Deus e se crêssemos que na adoração corporativa o próprio Deus está nos santificando. Que impacto a Igreja exerceria no mundo se, de fato, crêssemos que realmente somos o lugar da habitação de Deus e que nos encontramos face a face com Ele; se crêssemos que o que estamos fazendo é recebendo algo de Deus! Imagine o impacto que levaríamos ao mundo quando a ele fôssemos enviados com nossas mentes transformadas, dando respostas a todos que nos perguntam a respeito de nossa fé. Imagine nossos corações sendo transformados para nos sensibilizarmos com nossos vizinhos que sofrem; com nossos lábios e palavras sendo transformadas para falarmos a verdade em amor; com nossos desejos transformados para pensarmos seriamente o que fazer e o que não fazer. Imagine que impacto levaríamos ao mundo se fosse isso o que fazemos na Igreja e se fosse exatamente isso que faríamos se fôssemos enviados ao mundo para fazer.

Você crê que a adoração pode ter este poder? Você crê que a adoração faz esta transformação? Ou será que é apenas um encontro de amigos para lancharem juntos, ou apenas uma rotina a ser cumprida, ou bater um papo para saber como viver a vida de uma forma melhor? Você acha que na adoração, no culto, Deus realmente transforma? Eu peço a Deus que você creia nisso. Oro para que quando nos ajuntarmos para um encontro com Deus, face a face, nossa face brilhe assim como aconteceu com Moisés quando esteve diante de Deus (Ex 34:29). Eu oro para que quando você entrar diante da presença de Deus no Dia do Senhor saia de lá com a face brilhando e o mundo veja a glória de Deus em você. Que você seja aquilo que Paulo diz: uma carta viva, sal e luz. Deus pode fazer isso! Deus fará isso! Acheguemos-nos a Deus com esta expectativa. Ele vai mudar a nós e ao mundo até a volta do Senhor Jesus Cristo.

III) Em terceiro lugar vemos, no texto, que quando nos achegamos a Deus é também para receber conhecimento.
No v. 46 vemos que os Israelitas saberiam que Deus é o Senhor ― “... saberão que eu sou o Senhor...”. Mas como eles viriam a saber isso? Veja a conexão entre os vv. 42 e 46. No final do v. 42 lemos que Deus se encontraria com os sacerdotes enquanto eles ofereciam aqueles sacrifícios contínuos e o verso conclui dizendo: “... para falar contigo ali”. Então, vemos que os sacerdotes não se achegavam ali apenas para sacrificar, mas para receber a Palavra viva e ativa de Deus para que eles soubessem que Ele é o Senhor. Deus falaria com ele. Mas os sacerdotes não ocultavam aquelas palavras apenas para si, nos seus próprios corações, pois o ofício sacerdotal era também para ensinar. Então, quando Deus se encontrava com os israelitas no tabernáculo e, tendo falado a todos os sacerdotes, o povo iria saber “que eu sou o Senhor” (v. 46). O que o autor nos coloca aqui? Ele está dizendo que os sacerdotes são pregadores. Os sacerdotes conduziam o povo no conhecimento de Deus. Mas, conhecimento de Deus, não é apenas informação à nossa mente, mas é conhecê-lo experimentalmente. É conhecer com a certeza e a convicção de que ele é Deus. Estes sacerdotes-pregadores conduziam o povo a conhecê-Lo e este conhecimento era repassado ao restante deles. Veja aqui o que o texto diz sobre pregação. Consegue ver as implicações de tudo isso para os pastores? Nós pastores temos de nos encontrar com Deus individualmente. Quando estudamos a Palavra de Deus, nós nos encontramos com Ele para receber a sua Palavra, seu Evangelho. Isso tem que afetar nossos corações para podermos conduzir outros ao conhecimento dEle. Se sua pregação, pastor, não lhe afeta o coração ela é inútil. Se a pregação não afeta minha própria vida como pastor, então eu serei um mero hipócrita! Precisamos nos achegar à presença de Deus e estudar sua Palavra e ter nossas faces como a de Moisés, brilhantes. Precisamos entrar na presença de Deus e ser transformado por ele.

Paulo nos diz que os ministros da nova aliança não têm um véu (Êx 34:33-35), mas eles chegam com poder, com confiança. Nós pastores sairemos da presença de Deus sabendo que nos encontramos com ELE. Nós nos achegamos com sabor de morte e sabor de vida (2 Co 2:16); nos achegamos tanto com a Lei quanto com o Evangelho; pregamos a cruz de Cristo que condena o mundo e seus pecados e os homens incrédulos, mas é a fonte de toda a vida para aqueles que creem. Nós precisamos ser estes pregadores que conduzem outros aos pés da cruz. Precisamos sair do nosso gabinete de estudo sabendo que nos encontramos com Deus. Não apenas com um amontoado de informações, não apenas para mostrar fatos interessantes da Palavra, mas sair e falar em nome de Deus. O poder deste tipo de pregação vem do próprio Espírito Santo. É aquela unção da qual Lloyd-Jones falou. Entreguemo-nos como instrumentos, mas sem preocupação em aparecer, para que diminuamos e Cristo cresça.

Deus ordenou que homens pecadores conheçam a Deus através de homens pecadores. Isso parece tão tolo, não? As palavras de um mero homem podem transformar corações? Isso de fato parece muito tolo. Mas é a sabedoria de Deus. Ela é sem poder, é fraca, mas Paulo diz que é o poder de Deus. Ele ordenou a pregação e tudo para trazer glória para si mesmo e que ninguém se orgulhe na sua própria sabedoria ou em seu próprio poder. Mas nos orgulhemos unicamente no Senhor.

Concluo onde iniciei. Você está preocupado e desejoso da adoração a Deus? Tem desejado estar em Sua presença? Quando adoramos a Deus de acordo com sua Palavra, nós temos a seguinte confiança: Nos encontramos com Deus, Ele transforma nossos corações e o próprio Senhor nos leva a conhecê-lo mais.

Este é o desejo de Deus para nós na adoração pública. John Owen disse: “O amor de Deus não descansará até que este amor nos conduza a si mesmo. Nós fomos feito para Ele e não descansamos até que nos achegarmos a Deus”.

Que privilégio é nos aproximamos do trono de graça.

Amém

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