"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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quarta-feira, 30 de março de 2011

Cerimônias que Cessaram


Cerimônias que Cessaram -
por João Calvino

Texto-base: Deuteronômio XXVII, 1-10.

[...]

Embora [a] lei cerimonial não se aplique diretamente nos nossos dias, mesmo assim podemos tirar algumas lições daqui. Primeiramente, notemos que é nosso dever não nos ater àquilo que Deus ordenou somente por um certo período como se fosse algo a ser observado para sempre. Pois [no período da] lei, foi vontade de Deus que as pessoas lhe sacrificassem animais brutos, contudo, tal coisa não existe hoje. Ele também mandou que houvesse um incenso misturado, e tochas, e um fogo sempre a queimar no altar. Essas coisas agora já cessaram, e se qualquer pessoa as resgatar, serão como refugo. E nós bem vemos como elas são utilizadas no papismo. Quando os papistas vêm e perfumam o olfato de seus ídolos, eles imaginam ser isso um sacrifício aceitável a Deus. E, quando consomem muita cera com suas velas e tochas e lanternas, eles passam a imaginar que são maravilhosamente devotos. E, todavia, isso tudo não passa de uma zombaria a Deus, pois Ele quis ser servido assim [somente] sob a lei.

Mas, se formos agora tentar ‘acender’ o sol, isto é, se agora, após a vinda do nosso Senhor Jesus Cristo ao mundo, ainda fôssemos usar toda essa iluminária [como símbolo] na noite e nas trevas, isso perverteria toda a ordem natural: os pais antigos andaram por escuras sombras, e, por isso, necessitavam de tais artifícios. E, quando tinham luz, era para que soubessem que não viriam adorar a Deus por acidente ou acaso, mas que seriam guiados e direcionados pela Palavra de Deus e por seu Santo Espírito. E, por isso mesmo, foram mantidos sob vigilância, a fim de que não elaborassem coisa alguma proveniente de sua imaginação. Mas agora não temos necessidade dessas coisas. Por quê? Ora, porque o veu do Templo se rasgou, e porque Deus nos mostrou a sua face no evangelho, na própria pessoa do seu Filho, para que, assim, possamos andar [não mais em trevas, mas] sob o sol do meio-dia. Portanto, devemos discernir o que permanece daquilo que é temporário, a fim de não fazermos tamanha confusão e tolice, tal como os papistas fazem.

Pois é dali que procedem tantas superstições. Quando os papistas batizam, eles usam saliva. Por quê? Porque Jesus Cristo usou (Mc. VII, 33). Sim, mas será que, por consequência, ele ordenou que toda pessoa deveria usar isso como regra, para que zombássemos de seu milagre nos nossos batismos? Será que, ao cuspir nos lábios do bebê, eles querem que ele passe a falar?

Além disso, eles têm também a ‘cura dos enfermos’, que para eles é um sacramento. Por quê? Porque os apóstolos usavam óleo para curar os doentes (Mc. XV, 13; Tg. V, 14). Sim, mas aquele dom foi só para o início da era do evangelho e, depois, tais milagres cessaram. Será que deveríamos usar esses símbolos ainda, mesmo sabendo disso? Não seria isso um ultraje a Deus? Se for assim, então a verdade e a substância das coisas deve ser desprezada em prol dos símbolos! Que ideia brilhante!

Além disso, eles se atêm a outras coisas, como a Quaresma. Trata-se do jejum que deve ser praticado [todo ano], dizem os papistas. O motivo é que Jesus Cristo jejuou. Sim, mas será que Ele, que é a Fonte de toda perfeição e Espelho de toda santidade, jejuou todo ano? Não, ele só jejuou [por quarenta dias] uma vez. Os papistas afirmam que devemos jejuar todo ano, e que nisso tudo há grande devoção e santidade. Só que, se fosse [verdade] assim, eles superariam a Jesus Cristo. Certamente isto é uma superstição demoníaca – jejuar quarenta dias dessa forma, com a opinião de que dessa forma nós nos assemelharemos a Cristo. Pois nós bem sabemos que o nosso Senhor Jesus quis com isso mostrar que, naquele período específico, ele se afastou da condição geral dos homens, da mesma forma como foi feito com Elias por milagre, e com Moisés quando ele publicou a Lei. Ah, e será que os judeus do passado seguiram Elias e Moisés [nessa prática]? Será que um só mesmo de todos os demais profetas jejuaram aquele jejum? Não! Pois sabiam que isso não lhes tinha sido ordenado por Deus, e que ele não fez disso uma regra geral. E sabiam que ele não se agrada quando fazem lei de uma coisa ordenada para uma ocasião específica.

Então, vemos com isso que é muito proveitoso meditar sobre o que Deus ordenou somente para uma ocasião específica, a fim de que não pervertamos tudo, ou que desejemos praticar todo o conteúdo da Sagrada Escritura sem fazer qualquer distinção, sem saber primeiro se a coisa diz respeito a nós e se é falada a nós ou não.

[...]

Fonte: Monergismo

domingo, 27 de março de 2011

O que fazer com os elementos que sobram da Ceia?


O que fazer com os elementos que sobram da Ceia?
por Rev. Ewerton B. Tokashiki

Os diáconos são encarregados da preparação antecipada da Ceia do Senhor. Esta é uma honra que estes servos de Deus têm diante da igreja local. Devem zelar para que os elementos sejam apropriados tanto em qualidade, como o corte do pão e a distribuição do cálice, e ainda a disposição na mesa. Todavia, após o término do culto, eles são responsáveis pelas sobras dos elementos da Ceia. A pergunta é: o que fazer dos elementos que sobraram?

Não há uma prescrição clara quanto a este assunto. Nos Princípios de Liturgia[1] [capítulo VII - Administração da Ceia do Senhor] lemos que no art.17 “os elementos da Santa Ceia são pão e vinho, devendo o Conselho zelar pela boa qualidade desses elementos.” Isto significa apenas que o Conselho supervisiona o preparo e uso dos elementos para que sejam corretamente escolhidos com qualidade. Não há menção quanto às sobras.

É quase impossível estabelecer uma regra absoluta quanto ao assunto. Devemos nos orientar por um princípio geral, isto é, que o preparo, o manuseio, e o eliminar dos elementos devem evitar qualquer superstição, erro doutrinário, ou a prática da veneração do pão e do cálice, antes, durante ou após a celebração da Ceia do Senhor, atribuindo-lhes algum poder inerente, ou valor permanente. A Confissão de Fé de Westminster declara que

Os elementos exteriores deste sacramento, devidamente consagrados aos usos ordenados por Cristo, têm tal relação com o Cristo Crucificado, que, verdadeiramente, embora só num sentido sacramental, são às vezes chamados pelos nomes das coisas que representam, a saber, o corpo e o sangue de Cristo; se bem que, em substância e natureza, conservam-se verdadeiro e somente pão e vinho, como eram antes.[2]

Há diferentes práticas adotadas pelas igrejas evangélicas:

1. Muitos guardam as sobras, tanto do pão como do cálice, para a próxima realização da Ceia. O problema é que quando a celebração seguinte demora, ou sendo realizada mensalmente, os elementos podem não ter a mesma qualidade, por causa da fermentação, decomposição, ou até mesmo por serem inaproveitáveis por causa da sua inadequada preservação.

2. Em alguns casos há diáconos que após o culto, enterram as sobras do pão e do cálice. Mas, isto apenas aumenta a ignorância e piora o misticismo irracional que, diga-se de passagem, é uma herança do catolicismo romano.

3. Há aqueles que jogam no lixo as sobras da Ceia. O fato de se jogar fora pode ser por não querer aproveitar os elementos, porque uma vez cortados não é possível aproveita-los para uma refeição posterior. Mas, corre-se o risco fazê-lo pelo mesmo motivo daqueles que preferem enterrar.

Esta confusão é desnecessária, mas ofende a consciência de alguns amados e sinceros irmãos que não foram corretamente instruídos sobre a natureza da Ceia do Senhor. Eis alguns motivos desta comum confusão:

1. Por serem instruídos sem base nas Escrituras a divinizar o pão e o cálice inconscientes da heresia que estão praticando.

2. Por esquecerem que o pão e cálice são meros símbolos, e que não há nenhuma mutação essencial nos elementos. Apenas a presença espiritual manifesta-se durante a Ceia nos alimentando com graça (por isso, é um meio de graça). Os elementos da Ceia não se tornam (transubstanciação), nem contém (consubstanciação) o corpo físico de Cristo. Embora separados do uso comum, continuam sendo o que sempre foram, o pão e cálice; não sofrem nenhuma mutação substancial, mas apenas representam uma realidade espiritual presente durante a correta celebração da Ceia. Cristo está presente espiritual e não fisicamente.

3. Por confundirem que o importante na Ceia são as palavras, o ato, e o momento da celebração da comunhão nada acrescentando, nem permanecendo nos elementos de modo que devem ser considerados como objetos de veneração.

Algumas recomendações pastorais sobre "as sobras da Ceia":

1. Não alimente o sentimento pelos elementos como se eles fossem o próprio Cristo! Não podemos cair no sutil erro da idolatria como o fazem os romanistas.

2. No manuseio dos elementos não os vulgarize. Este é o outro extremo, também praticado por ignorância. Não devemos brincar com aquilo que é sério. O símbolo [pão e vinho] mesmo quando não usado na Ceia não deve ser banalizado, se separado para este fim.

3. Não há nenhum problema em se comer as sobras do pão e beber resto do cálice, porque após o término do culto, eles se limitam a ser apenas o que sempre foram, pão e vinho, porque após a celebração perderam o seu significado e eficácia espiritual como meio de graça.

4. Se os diáconos resolverem dar as sobras dos elementos para as crianças (o que acontece em alguns lugares), deve-se inevitavelmente, com clareza, ensiná-las que aquilo que elas estão comendo não é a Ceia do Senhor (nem permiti-las brincar de Santa Ceia), mas apenas as sobras do pão e do cálice. Isto deve ser feito, de modo que, seja evitado escândalos, uma concepção errada, e a confusão na mente dos infantes que ainda não possuem discernimento da seriedade da Ceia do Senhor.

A minha real preocupação com este artigo não é com as sobras dos elementos da Ceia, mas com o pressuposto teológico. A crença modela o comportamento. Então, não é apenas durante a Ceia que manifestamos a nossa convicção de fé, mas após o seu término quando vamos nos desfazer das sobras dos elementos. Infelizmente, um expressivo número de igrejas locais são absurdamente incoerentes quanto a este assunto! Mesmo aqueles que durante a Ceia confessam que ela é apenas um mero memorial (zwinglianos), ou, ainda outros que crêem que embora sendo um símbolo representa o corpo e o sangue, a presença de Cristo é somente espiritual, e não física (calvinistas); entretanto, após a Ceia acabam por negar o seu credo com ransos do romanismo. Com isto, não somente negamos a nossa doutrina na prática, mas desonramos o ensino do nosso Senhor.

[1] Princípios de Liturgia in: Manual Presbiteriano (São Paulo, Ed. Cultura Cristã, 1999).
[2] Confissão de Fé de Westminster, XXIX. 5.

Fonte: Biblioteca Reformada em Português

sábado, 26 de março de 2011

O que vem primeiro: fé ou arrependimento?

O que vem primeiro: fé ou arrependimento? -
por John Murray

O que vem primeiro: o arrependimento ou a fé? Essa é uma pergunta desnecessária; e fútil, a insistência de que um é anterior ao outro. Não há qualquer anterioridade. A fé para a salvação é uma fé de arrependimento; e o arrependimento para a salvação é um arrependimento de fé… A interdependência entre a fé e o arrependimento pode ser vista quando lembramos que a fé é a fé em Cristo para a salvação do pecado. Mas, se a fé é direcionada à salvação do pecado, tem de haver ódio do pecado e desejo de ser salvo do pecado. Esse ódio do pecado envolve arrependimento, que consiste essencialmente em converter-se do pecado para Deus. Ora, se lembramos que o arrependimento é o volver-se do pecado para Deus, esse volver-se para Deus implica fé na sua misericórdia revelada em Cristo. É impossível separar a fé do arrependimento. A fé salvadora é permeada de arrependimento, e este é permeada de fé. A regeneração se torna expressiva em nossa mente por meio do exercício da fé e do arrependimento.

O arrependimento consiste essencialmente em mudança de coração, mente e vontade. Essa mudança de coração, mente e vontade diz respeito, em especial, a quatro coisas: é uma mudança que diz respeito a Deus, a nós mesmos, ao pecado e à justiça. Sem a regeneração, os nossos pensamentos sobre Deus, nós mesmos, o pecado e a justiça são drasticamente pervertidos. A regeneração muda a mente e o coração. Ela os renova por completo. Há uma mudança radical em nossa maneira de pensar e sentir. As coisas velhas passaram, e todas as coisas se tornaram novas. É importante observar que a fé para a salvação é a fé acompanhada por mudança de pensamento e atitude. Com muita freqüência, nos círculos evangélicos e, em particular, no evangelismo popular, a relevância da mudança que a fé sinaliza não é entendida nem apreciada. Há dois erros. Um destes é excluir a fé do contexto que lhe dá significado. O outro é pensar na fé em termos de decisão e, com isso, baratear a decisão. Esses erros estão relacionados e condicionam um ao outro. Enfatizar o arrependimento e a mudança profunda de sentimento e de pensamento envolvida no arrependimento é o elemento necessário para corrigir esse conceito distorcido da fé, o qual destrói a alma. A natureza do arrependimento serve para acentuar a urgência dos assuntos que estão em jogo nas exigências do evangelho, enfatizar a separação do pecado incluída na aceitação do evangelho e ressaltar a perspectiva totalmente nova que a fé no evangelho transmite.

Não devemos pensar no arrependimento como que constituído meramente de uma mudança genérica da mente. O arrependimento é bem especifico e concreto. E, visto que é uma mudança da mente em referência ao pecado, é uma mudança da mente em referência a pecados específicos, pecados em toda a particularidade e individualidade peculiares dos nossos pecados. É muito fácil falarmos sobre o pecado, sermos denunciatórios em relação ao pecado e aos pecados específicos de outras pessoas e não nos mostrarmos arrependidos quanto aos nossos próprios pecados. A prova do arrependimento é a genuinidade e a resolução de nosso arrependimento em referência aos nossos próprios pecados, pecados caracterizados pelos agravamentos peculiares a nós mesmos. O arrependimento, no caso dos tessalonicenses, manifestou-se em que eles se converteram dos ídolos para servirem o Deus vivo. A idolatria dos tessalonicenses evidenciava, de modo específico, a sua alienação de Deus; e foi o arrependimento dessa idolatria que provou a genuinidade da fé e da esperança deles (1 Ts 1.9-10).

O evangelho é não somente a mensagem de que pela graça somos salvos, mas também a mensagem de arrependimento. Quando Jesus, após a ressurreição, abriu o entendimento dos discípulos, para que entendessem as Escrituras, Ele lhes disse: “Assim está escrito que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém” (Lc 24.46-47). Quando Pedro pregou à multidão, no Dia de Pentecostes, os ouvintes foram constrangidos a perguntar: “Que faremos, irmãos?” Pedro respondeu: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados” (At 2.37-38). Posteriormente, Pedro interpretou a exaltação de Cristo como uma exaltação à função de “Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão de pecados” (At 5.31). Alguma outra coisa poderia assegurar mais claramente que o evangelho é o evangelho do arrependimento do que o fato de que o ministério celestial de Jesus como Salvador é um ministério de outorgar arrependimento para o perdão dos pecados?

Quando Paulo apresentou aos presbíteros de Éfeso um relato de seu próprio ministério, ele disse que testificara “tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus [Cristo]” (At 20.21). O autor da Epístola aos Hebreus indicou que “o arrependimento de obras mortas” é um dos princípios elementares da doutrina de Cristo (Hb 6.1). Não poderia ser diferente. A nova vida em Cristo Jesus implica que os laços que nos prendiam ao domínio do pecado foram destruídos. O crente está morto para o pecado por meio do sangue de Cristo. O velho homem foi crucificado para que o corpo do pecado seja desfeito e o crente não sirva mais o pecado (Rm 6.2, 6). Esse rompimento com o passado se registra na consciência por meio do converter-se do pecado para Deus, “com pleno propósito e empenho por uma nova obediência”…

O arrependimento é aquilo que descreve a resposta de converter-se do pecado para Deus. Este é o caráter específico do arrependimento, assim como o caráter específico da fé é receber a Cristo e confiar somente nEle para a salvação. O arrependimento nos recorda que, se a fé que professamos é uma fé que nos permite andar nos caminhos deste mundo mau, na concupiscência da carne, na concupiscência dos olhos, na soberba da vida e na comunhão das obras das trevas, a nossa fé é apenas zombaria e engano. A verdadeira fé é permeada de arrependimento. Assim como a fé é um ato momentâneo e uma atitude permanente de confiança e descanso direcionada ao Salvador, assim também o arrependimento resulta em contrição constante. O espírito contrito e o coração quebrantado são marcas permanentes da alma que crê… O sangue de Cristo é o instrumento da purificação inicial, mas é também a fonte à qual o crente pode recorrer continuamente. É na cruz de Cristo que o arrependimento começa; é ali que ele tem de continuar derramando seu coração, em lágrimas de confissão e contrição.

Fonte: Voltemos ao Evangelho

quinta-feira, 24 de março de 2011

O Filho Pródigo (parte 1) - Sermão pregado dia 13.03.2011


O filho pródigo (parte 1) -
Sermão pregado dia dia 13.03.2011


Nosso texto: Lucas 15.11-16

Queridos, semana passada havíamos falado acerca de faraó e sua confissão de pecados (clique aqui para ler). Vimos que aquele tirano, embora aparentasse um início de mudança de conduta, nada fez além de enganar a si mesmo.

A parábola de hoje certamente é uma das mais conhecidas entre os cristãos e também entre os não crentes. Por ser uma das mais conhecidas, corre também o risco de ser uma das mais mal interpretadas. Dr. David Martyn Lloyd Jones comenta que "não é porque a parábola deixa de dizer alguma coisa, que esta coisa não exista". Para ilustrar seu ponto de vista, ele cita 2 (dois) exemplos:

1. A parábola não fala da ira ou da justiça do pai ao receber o filho, mas descreve seu amor. Logo, poderíamos concluir que o Pai não tem ira nem justiça, mas tão somente amor e aceitação.

2. A parábola não fala de um intermediador entre o pródigo e o pai, apenas fala do filho indo ao pai. Logo, poderíamos deduzir que Jesus não é necessário para nos conciliar com o Pai.
Por estas e outras razões é que se faz necessário olharmos para as parábolas (e também para a Bíblia) a partir de uma visão geral e ampla, sempre considerando o todo de sua verdade infalível. Quando começamos a relativizar o ensino bíblico, caímos nos laços liberais, partimos para a heresia e anulamos a sã doutrina.

Em nossa parábola, Jesus responde a declarão que os fariseus e seus mestres fizeram a ele quando disseram: "Este homem recebe pecadores e come com eles". (15.2) Lucas já havia registrado no capítulo 5, versículo 31 quando Jesus dissera: "Não são os que tem saúde que precisam de médico, mas os doentes. Eu não vim chamar justos, mas pecadores ao arrependimento". É mister notarmos que Jesus não estava dizendo a eles que existem pessoas que são naturalmente justas e outras que são pecadoras, mas sim, fazia uma distinção entre os fariseus (que se achavam justos) e os "pecadores" (o restante do povo que à vista dos fariseus não cumpria todas as ordenanças impostas por eles).

Alguns versículos antes, Jesus havia dito: "Se alguém vem a mim e ama... até sua própria vida mais do que a mim, não pode ser meu discípulo". 14.26 Temos neste versículo o retrato perfeito do que aconteceu ao filho pródigo. Ele havia pedido sua herança ao seu pai, saiu de casa para desperdiçar seus bens e acabou por desperdiçar boa parte de sua vida.

A Bíblia de Estudos de Genebra comenta que não era comum o pai entregar o patrimônio aos filhos. Nos informa também que o filho mais velho tinha direito a 2/3 da herança, logo, o filho mais moço (o pródigo) recebera 1/3 dela. Quando o pai entregava o patrimônio aos filhos, ele retinha o usufruto da renda, ou seja, o pai não podia se desfazer do patrimônio (pois já era de seus filhos), mas os filhos podiam vendê-lo. Contudo, caso os filhos vendessem a parte que lhes era devida, o comprador não podia tomar posse antes da morte do pai. Tal feito era muito incomum durante aqueles dias.

Nosso quadro então está pintado com um filho que acabara de receber sua herança, que acabara de ter recebido a parte que lhe era devida. A Bíblia nos diz que esse jovem "foi para uma região distante; e lá desperdiçou os seus bens vivendo irresponsavelmente". (v.13) Este filho que tinha a herança em suas mãos, que tinha a oportunidade de fazer bons negócios e de ampliar sua riqueza, agora resolve sair e desperdiçar sua preciosa herança. Não bastasse tê-la desperdiçado e tê-la empregado em situações que não lhe convinham, este filho sequer matutou na possibilidade de poupar um pouco de seus bens, para o caso de lhe sobrevir alguma necessidade. Eis então que depois "de ter gasto tudo, houve uma grande fome em toda aquela região, e ele começou a passar necessidade". (v. 14 - grifo meu)

Amados, aqui temos o exemplo de um péssimo de filho. O exemplo de alguém descuidado, o exemplo de alguém que achava que suas riquezas durariam para sempre, o exemplo de um filho que pensou que nunca iria ter falta de coisa alguma! Este filho tinha tudo para se dar bem na vida, mas se deixou levar pelas suas paixões e não reconheceu o devido valor da casa de seu pai. Atentemos para que o texto nos diz claramente que este pródigo "foi para uma região distante". Provavelmente ele se dirigiu a alguma cidade maior, a algum lugar onde pudesse extravasar e saciar os seus desejos mais íntimos, um lugar longe da casa de seu pai, um lugar onde ele achava que poderia ser dono de si mesmo!

Em seu desprezo vivencial, em sua necessidade pelas coisas mais básicas da vida, pela simples comida que sustenta diariamente o homem, ele agora resolve ser empregado como todos os outros daquela região. Este jovem que é filho de um homem que tem propriedades, que de nada sentia falta, que morava na casa de seu pai e era sustentado por ele e seus criados, agora encontra-se à beira da amargura. Sua situação não melhora, como talvez ele imaginasse, mas piora drasticamente quando seu empregador lhe designa para cuidar de porcos (v.15).
Lembremos novamente que Jesus está contando esta parábola para os fariseus. Para o judeu, comer carne de porco era comer um animal imundo. A lei de Deus em Levítico 11.7 havia classificado o porco como criatura imunda, imprópria para o consumo; quanto mais sua criação! A Bíblia de Estudos de Genebra comenta que os rabinos (líderes da congregação judaica) consideravam as pessoas que criavam porcos como amaldiçoados. A narrativa bíblica não nos diz para qual "região distante" este pródigo havia ido, mas podemos deduzir duas possibilidades: A primeira é de que essa região distante fosse uma região judaica, mas que havia se apartado das leis do Senhor (pois criavam porcos, algo contrário à lei). A segunda diz respeito a uma região gentia (não-judaica), cujo modo de vida não era regido pelas leis do Senhor.

Seja como for, os fariseus estão diante do pai terrível relato que poderiam ouvir. Sabemos que tais fariseus eram judeus, zelosos pela lei do Senhor, acreditavam que seriam para sempre o único povo escolhido, tratavam com desprezo as pessoas de outras nações e esperavam um messias de cunho político. Não bastasse estarem diante do suposto messias, agora ouvem-lhe falar coisas totalmente contrárias àquilo que sempre pensaram! Estes homens não podiam se dobrar diante de tal parábola "absurda"! Ora, o jovem pródigo havia se rebelado contra seu pai, havia feito mal uso de sua herança, estava falido e procurava por migalhas. Era visto também como um amaldiçoado! De igual modo os fariseus viam que Jesus arrebanhava pessoas de "outros apriscos" e ainda por fim ouvem-o dizer que o pai recebeu o pródigo de volta em sua casa! Era demais para estes homens suportarem.

A narrativa nos conta que o pródigo estava padecendo das necessidades mais básicas da vida. "Ele desejava encher o estômago com as vagens de alfarrobeira que os porcos comiam". (v.16) O filho do dono de propriedades agora suplica para que fosse sustentado tal qual um porco, mas nem isso ele consegue.

Amado, você tem visto semelhança entre este jovem e a sua própria conduta? Ao olhar para ele, você tem se encaixado em tal descrição? Tal qual esse filho mais moço, você já experimentou a fartura de bênçãos espirituais e hoje se encontra afastado da casa do Pai? A narrativa nos trouxe até aqui e nos tem mostrado que falta muito pouco para que este pródigo venha a falecer e nunca mais possa ter comunhão com seu pai.

Provérbios 16.18 diz: "O orgulho precede a ruína". O jovem pródigo se orgulhou, achou que poderia viver longe da casa de seu pai e longe de seus cuidados. Mas ele caiu, "e foi grande a sua queda".

O relato de hoje nos leva a refletir acerca do que temos feito com nossas vidas. Alguns de nós nasceram em meio à igrejas, famílias cristãs e foram rodeados de amigos cristãos. Outros talvez não tiveram tal regalia, mas já experimentaram a "boa, perfeita e agradável vontade de Deus" (Rm 12.2).

Veremos mais adiante que foi pela graça de Deus que este pródigo foi levado de volta à sua casa. Mas é mister notarmos que até o momento ele se encontra em total estado de perdição. Sua vida logo se irá e nos braços do Pai, não irá mais ficar. Oremos e não deixemos para amanhã a volta para a casa do Pai.

Amém.

domingo, 20 de março de 2011

Onde está Deus quando os desastres naturais acontecem?


Onde está Deus quando os desastres naturais acontecem?
por Heitor Alves


Em tempos de desastres naturais tais como terremotos, tsunamis, enchentes e tornados, surgem debates a respeito da relação que Deus tem com esses acontecimentos. Lembro-me dos terremotos no Haiti onde a blogosfera foi tomada por vários “porquês” disso, “porquês” daquilo. E o terremoto do Chile? A mesma ladainha: “onde está Deus que não vê isso?”, “onde está Deus que não vê aquilo?”. Sem falar nos desastres naturais que ocorrem em terras brasileiras como as enchentes no Nordeste, em Santa Catarina e no Rio de Janeiro. Deus é sempre questionado, gerando dúvidas com respeito a seu controle sobre a criação.

Agora a discussão ressurge com os recentes desastres de terremotos e tsunamis no Japão. Além disso, declarações do teísta aberto Ricardo Gondim abalaram a blogosfera com suas declarações antibíblicas e caóticas. Antibíblicas porque vai de encontro ao que a Bíblia fala a respeito do relacionamento de Deus com sua criação, que é uma relação íntima e que mantém controle sobre tudo. Caótica porque suas declarações pregam um conceito de um mundo desordenado, sem controle e desesperançoso a respeito de desastres naturais.

É desesperador saber que nós não temos nenhuma garantia de que o mundo não sucumba numa confusão geral dos elementos da matéria. A desordem é a única e terrível expectativa daqueles que acreditam em um Deus distante da sua criação, ou no mínimo, presente porém incapaz e impotente (ou pelo menos se nega a ser onipotente) em garantir o equilíbrio das ações da natureza.

Qual é mesmo a relação de Deus com sua criação? Existe mesmo um relacionamento ou Ele está divorciado dela? E se há um relacionamento, até que ponto vai esse relacionamento? Há algum controle? São essas as perguntas que irei tentar responder à luz da Bíblia.

A Bíblia desconhece o deus dos teólogos relacionais, cuja teologia nega a onipresença, a onipotência e a onisciência de Deus. A Bíblia fala exaustivamente na existência de um Deus presente em todos os lugares ao mesmo tempo, Poderoso sobre tudo e todos e que tem um conhecimento infinito de todas as suas criações. Deixaremos de lado, por hora, o assunto sobre a Onisciência e a Onipresença e trataremos apenas do ensinamento bíblico do controle que Deus tem sobre sua criação, mas especificamente sobre a matéria inanimada.

Deus tem o controle sobre a matéria inanimada

Respondendo à pergunta do título deste artigo, Deus está bem presente quando os desastres naturais acontecem. Ele não somente está presente, mas administra todos os eventos da matéria inanimada. A matéria, mesmo sendo inanimada (objeto sem vida, sem ânimo), existe para obedecer aos mandamentos e ordens de Deus. Isso é evidenciado já nos primeiros registros bíblicos da revelação divina:

Disse Deus: Haja luz; e houve luz. (...) Disse também Deus: Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num só lugar, e apareça a porção seca. E assim se fez. (...) E disse: Produza a terra relva, ervas que dêem semente e árvores frutíferas que dêem fruto segundo a sua espécie, cuja semente esteja nele, sobre a terra. E assim se fez. (Gn 1.3,9,11).

O que se afirma nos primeiros capítulos de Gênesis é confirmado por toda a Bíblia. Veja a declaração do salmista: “Pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo passou a existir” (Sl 33.9).

Quando Deus diz que vai usar dos elementos da natureza para executar sua vontade, Ele está afirmando que tem controle sobre eles e que eles são agentes de Deus na execução da sua vontade. Veja, por exemplo, a autoridade de Deus sobre as águas:

Porque estou para derramar águas em dilúvio sobre a terra para consumir toda carne em que há fôlego de vida debaixo dos céus; tudo o que há na terra perecerá (Gn 6.17).

Se tudo o que Ele fala, se faz, então...

No ano seiscentos da vida de Noé, aos dezessete dias do segundo mês, nesse dia romperam-se todas as fontes do grande abismo, e as comportas dos céus se abriram, e houve copiosa chuva sobre a terra durante quarenta dias e quarenta noites (Gn 7.11,12).

Deus disse que derramaria água sobre a terra. Ele não apenas ameaçou, mas cumpriu o que disse mostrando que Ele tem o controle sobre a água que só cai em forma de chuva quando e onde Ele quiser.

E o que dizer do controle de Deus sobre as pragas no Egito? Bastou uma única ordem dEle para a luz se transformar em trevas, o rio em sangue, chover granizo, a ação dos gafanhotos, a morte por todo o Egito. Cada detalhe, cada ação da natureza meticulosamente calculada, agindo exatamente numa região delimitada pelo próprio Deus para que essas pragas não chegassem na região onde estava o seu povo. Sim, até mesmo o local da ação das pragas foi claramente delimitada por Deus! Tudo isso demonstra o absoluto controle de Deus sobre os elementos da natureza:

E Moisés estendeu o seu bordão para o céu; o SENHOR deu trovões e chuva de pedras, e fogo desceu sobre a terra; e fez o SENHOR cair chuva de pedras sobre a terra do Egito. De maneira que havia chuva de pedras e fogo misturado com a chuva de pedras tão grave, qual nunca houve em toda a terra do Egito, desde que veio a ser uma nação. Por toda a terra do Egito a chuva de pedras feriu tudo quanto havia no campo, tanto homens como animais; feriu também a chuva de pedras toda planta do campo e quebrou todas as árvores do campo. Somente na terra de Gósen, onde estavam os filhos de Israel, não havia chuva de pedras. (Êx 9.23-26).

Veja também a maravilhosa descrição do total controle de Deus na nona praga:

Então, disse o SENHOR a Moisés: Estende a mão para o céu, e virão trevas sobre a terra do Egito, trevas que se possam apalpar. Estendeu, pois, Moisés a mão para o céu, e houve trevas espessas sobre toda a terra do Egito por três dias; não viram uns aos outros, e ninguém se levantou do seu lugar por três dias; porém todos os filhos de Israel tinham luz nas suas habitações. (Êx 10.21-23).

Temos também a descrição do controle divino sobre o fogo:

Então, fez o SENHOR chover enxofre e fogo, da parte do SENHOR, sobre Sodoma e Gomorra. (Gn 19.24).

Deus ordenou e as águas do mar Vermelho se dividiram ao meio, de modo que os israelitas o atravessaram em terra seca. De novo, Ele ordenou e as águas retrocederam, destruindo os egípcios que perseguiam os israelitas. Com uma palavra da parte dEle, a terra abriu-se e Coré e sua companhia de rebeldes foram engolidos. A fornalha de Nabucodonosor foi aquecida "sete vezes" além de sua temperatura normal, e três dos filhos de Deus foram lançados ali; mas o fogo nem sequer lhes chamuscou as roupas, apesar de ter morto os soldados que os lançaram naquele temível lugar.

O Novo Testamento também testifica do poder de Deus sobre os elementos da criação. Vemos Jesus Cristo acalmando uma tempestade dando ordens ao vento e ao mar:

E ele, despertando, repreendeu o vento e disse ao mar: Acalma-te, emudece! O vento se aquietou, e fez-se grande bonança. (Mc 4.39).

Jesus ainda andou sobre o mar. Bastou uma palavra de Jesus e a figueira murchou e ao seu toque as enfermidades fugiam instantaneamente. Jesus demonstrou uma infinita habilidade com os elementos da natureza provando o seu absoluto controle sobre a criação inanimada.

E o que dizer dos corpos celestes? O governo divino sobre eles é igualmente soberano. Hoje sabemos que a terra gira em torno do sol, nos dando as quatro estações e determinando os dias dos anos. Sabemos também que há um movimento que faz a terra girar sobre o seu próprio eixo, nos dando as vinte e quatro horas do dia. Por que estou dizendo isso? Por que há um relato em 2 Reis de Deus retrocedendo a rotação da terra, fazendo com que a sombra no relógio de sol de Acaz retroceda dez graus para trás:

Ezequias disse a Isaías: Qual será o sinal de que o SENHOR me curará e de que, ao terceiro dia, subirei à Casa do SENHOR? Respondeu Isaías: Ser-te-á isto da parte do SENHOR como sinal de que ele cumprirá a palavra que disse: Adiantar-se-á a sombra dez graus ou os retrocederá? Então, disse Ezequias: É fácil que a sombra adiante dez graus; tal, porém, não aconteça; antes, retroceda dez graus. Então, o profeta Isaías clamou ao SENHOR; e fez retroceder dez graus a sombra lançada pelo sol declinante no relógio de Acaz. (2Rs 20.8-11).

Isaías pergunta a Ezequias se ele quer como sinal o adiantamento da sombra do sol. Ezequias responde que esse adiantamento da sombra já era um curso normal. Daí ele pede o mais difícil: que a sombra volte para trás. Que absurdo! O que Ezequias pede é que a terra gire para trás fazendo um movimento ao contrário do que ele já faz. Mas Deus como sendo Soberano sobre os astros celestes que Ele mesmo criou, fez exatamente isso. Pelo seu poder ordenou que a terra girasse no sentido contrário, provocando o retrocesso da sombra no relógio de Acaz.

Esse relato de Deus ordenando um movimento improvável da terra não é único na Bíblia. Há um outro relato onde Deus ordena a terra que simplesmente pare de girar. É isso mesmo. A terra parou de girar por uma ordem de Deus. Veja:

Então, Josué falou ao SENHOR, no dia em que o SENHOR entregou os amorreus nas mãos dos filhos de Israel; e disse na presença dos israelitas: Sol, detém-te em Gibeão, e tu, lua, no vale de Aijalom. E o sol se deteve, e a lua parou até que o povo se vingou de seus inimigos. Não está isto escrito no Livro dos Justos? O sol, pois, se deteve no meio do céu e não se apressou a pôr-se, quase um dia inteiro. Não houve dia semelhante a este, nem antes nem depois dele, tendo o SENHOR, assim, atendido à voz de um homem; porque o SENHOR pelejava por Israel (Js 10.12-14).

Josué suplicou ajuda divina no combate contra os amorreus. Provavelmente Josué percebeu que a batalha entraria para a noite, o que dificultaria bastante nessa batalha. Poderíamos achar algo absurdo o que Josué pediu, mas para Deus que controla os astros celestes nada é impossível. O sol e a lua pararam de girar. De acordo com o conhecimento que temos hoje, foi a terra que parou de girar juntamente com a lua.

Há ainda mais um relato impressionante de Deus agindo e controlando os elementos da natureza. Trata-se do seguinte texto:

Disse Gideão a Deus: Se hás de livrar a Israel por meu intermédio, como disseste, eis que eu porei uma porção de lã na eira; se o orvalho estiver somente nela, e seca a terra ao redor, então, conhecerei que hás de livrar Israel por meu intermédio, como disseste. E assim sucedeu, porque, ao outro dia, se levantou de madrugada e, apertando a lã, do orvalho dela espremeu uma taça cheia de água. Disse mais Gideão: Não se acenda contra mim a tua ira, se ainda falar só esta vez; rogo-te que mais esta vez faça eu a prova com a lã; que só a lã esteja seca, e na terra ao redor haja orvalho. E Deus assim o fez naquela noite, pois só a lã estava seca, e sobre a terra ao redor havia orvalho. (Jz 6.36-40).

Gideão queria uma “prova” de que Deus realmente livraria Israel dos midianitas. Gideão teve uma idéia: colocar um pedaço de lã no chão e pedir a Deus que o orvalho da noite caia somente em cima da lã e a terra fique seca. Deus, como tendo o controle da natureza, inclusive do orvalho, fez exatamente isso. Achando pouco, Gideão agora pede para que o orvalho caia por toda a terra e a lã fique seca. E vemos que Deus fez exatamente isso. Isso prova que Deus tem o total controle sobre os elementos da natureza, até mesmo controle do sereno!

Ele envia as suas ordens à terra, e sua palavra corre velozmente; dá a neve como lã e espalha a geada como cinza. Ele arroja o seu gelo em migalhas; quem resiste ao seu frio? Manda a sua palavra e o derrete; faz soprar o vento, e as águas correm. (Sl 147.15-18).

As mudanças nos elementos da natureza estão sujeitas ao controle soberano de Deus. É Deus quem retém a chuva e quem a dá, quando, onde, conforme e sobre quem Lhe apraz. Até mesmo os distúrbios atmosféricos são controlados pelo dedo de Deus.

Além disso, retive de vós a chuva, três meses ainda antes da ceifa; e fiz chover sobre uma cidade e sobre a outra, não; um campo teve chuva, mas o outro, que ficou sem chuva, se secou. Andaram duas ou três cidades, indo a outra cidade para beberem água, mas não se saciaram; contudo, não vos convertestes a mim, disse o SENHOR. Feri-vos com o crestamento e a ferrugem; a multidão das vossas hortas, e das vossas vinhas, e das vossas figueiras, e das vossas oliveiras, devorou-a o gafanhoto; contudo, não vos convertestes a mim, disse o SENHOR. Enviei a peste contra vós outros à maneira do Egito; os vossos jovens, matei-os à espada, e os vossos cavalos, deixei-os levar presos, e o mau cheiro dos vossos arraiais fiz subir aos vossos narizes; contudo, não vos convertestes a mim, disse o SENHOR. (Am 4.7-10).

Diante de tudo isso que vemos nas Escrituras Sagradas, a única conclusão que extraio é: Não! Deus não está ausente da criação. Deus não está longe! Ele está perto. Mas do que isso, Ele tem o controle total e soberano sobre a sua criação, administrando as ações de cada elemento da natureza desde o orvalho até o sol.

Deus governa a matéria inanimada. A terra, o ar, o fogo, a água, o granizo, a neve, os ventos, os mares, todos cumprem a palavra do seu poder e executam a sua soberana vontade.

Todo aquele que intentar imaginar que Deus não possui ou que se absteve de possuir controle total das ações da natureza, incorrerá num seríssimo desvio doutrinário e isso tem consequências desastrosas, pois se na teologia de uma pessoa não há espaço para um controle providencial de Deus sobre tudo, sua vida sofrerá as devidas consequências que são a falta de confiança e de esperança em situações de desastres naturais como temos visto no Japão e em tantos outros lugares.

Mesmo em meio de tantas tragédias, o meu coração ainda se acalma no Senhor sabendo que Ele está no controle de tudo e que nada fugirá ao seu controle. Que o deus de Gondim e de tantos outros seja destruído por causa da insuficiência do seu poder e pela inabilidade e impotência de suas mãos, por que o meu Deus, o Deus da Bíblia, esse sim é Poderoso para manejar com suas mãos toda a Sua criação nos dando esperança e confiança de um mundo organizado e controlado.

Soli Deo Gloria

quarta-feira, 16 de março de 2011

Confissão de pecados - Sermão pregado dia 08.03.2011


Confissão de pecados -
Sermão pregado dia 08.03.2011


Nosso texto: "Então o faraó mandou chamar Moisés e Arão e disse-lhes: Desta vez eu pequei. O Senhor é justo; eu e meu povo é que somos culpados". Êx 9.27

Meus amados, a maioria dos cristãos sabem da necessidade de se confessar pecados. Sabem também que é primordial para suas vidas o arrependimento sincero. Algumas passagens dão peso a essa convicção:

"Confessei-te o meu pecado, e a minha maldade não encobri. Dizia eu: Confessarei ao Senhor as minhas trangressões; e tu perdoaste a maldade do meu pecado". Salmo 32.5 "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda injustiça". 1João 1.9

Tais versículos nos mostram que de fato a confissão de pecados é eficaz para "nos purificar de toda injustiça". Davi de igual modo sabia que todo o pecado, em última instância é uma afronta contra a santidade de Deus. Ele expressou isso quando disse: "Contra ti, somente contra ti pequei, e fiz o que é mal à tua vista". Salmos 51.4

Tenho minhas convicções de que se tal faraó estivesse vivo em nossos dias, muitas "igrejas" aceitariam sua confissão de pecados como verdadeira. Ora, ele não havia dito: "Desta vez pequei. O SENHOR É JUSTO" (grifo meu)?

Vocês se lembram que a duas semanas atrás falamos acerca de "Confessar ou Negar a Deus" (clique aqui para ler). Hoje temos o exemplo de faraó, um homem que aparentemente se encaixa no primeiro grupo que havíamos estipulado anteriormente, a saber, o que confessou o Senhor. A partir deste breve (e falho) raciocínio, poderíamos deduzir que faraó foi salvo, não é mesmo? Ele não estava vivendo uma vida de pecados e confessou ao Senhor? Não é a própria palavra de Deus que diz que "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda injustiça"? Por que ainda nos restaria dúvidas quanto a tal conversão?

Não devemos nos deixar enganar por falsas lógicas, também chamadas de sofismas. Na pequena dedução que tivemos, temos o seguinte raciocínio:

verdade: Aquele que confessa seus pecados é salvo;
verdade: Faraó confessou seus pecados;
verdade: Faraó foi salvo.

Observemos que a 3ª verdade (também podendo ser chamada de conclusão) é aparentemente verdadeira, mas ao olharmos em uma visão macro, percebemos que a bíblia nunca nos disse que o mero expressar de palavras dirigidas ao Senhor salvaria alguém. Vemos que muitas vezes Jesus não concordou com a confissão dos fariseus, pois em sua maioria não eram acompanhadas de mudança de vida.

Passemos agora a nos aprofundar em nossa passagem. Para entendermos o porquê de faraó não ter sido salvo, primeiramente leiamos os versículos 22 até 25: "Então o Senhor disse a Moisés: 'Estenda a mão para o céu, e cairá granizo sobre toda a terra do Egito: sobre homens, sobre animais e sobre toda a vegetação do Egito'. Quando Moisés estendeu a vara para o céu, o Senhor fez vir trovões e granizo, e raios caíam sobre a terra. Assim o Senhor fez chover granizo sobre a terra do Egito. Caiu granizo, e raios cortavam o céu em todas as direções. Nunca houve uma tempestade de granizo como aquela em todo o Egito, desde que este se tornou uma nação. Em todo o Egito o granizo atingiu tudo o que havia nos campos, tanto homens como animais; destruiu toda a vegetação, além de quebrar todas as árvores".

Esta não era nada mais que a 7ª praga que assolava o Egito. Faraó já havia testemunhado o rio sendo transformado em sangue, as rãs invadindo todos os lugares, piolhos por toda parte, moscas, a morte dos rebanhos, as feridas que afligiam seus corpos e agora presenciava a mais terrível tempestade que já houvera naquela nação. É diante de tal calamidade pública que ele diz: "Desta vez eu pequei".

Quantos homens e mulheres fazem confissões parecidas com a deste tirano. Quantos "crentes" que ficam por semanas, meses e até mesmo anos, sentados na mesma cadeira, no mesma banco, na mesma igreja e NUNCA mudam de vida! Quando a tempestade atinge suas casas, quando o granizo despedaça suas vidas, quando os ventos dão de encontro à sua alma, eles agem exatamente como faraó e dizem: "Eu pequei".

Em Mateus 7.26,27 lemos: "Mas quem ouve estas minhas palavras e não as pratica é como um insensato que construiu a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela caiu. E foi grande a sua queda" (grifo meu). Falando a partir do prisma humano, tal versículo não nos remete às desgraças acontecidas a pouco tempo no Rio de Janeiro? Quantas "confissões" ao Senhor você ouviu de pessoas que haviam perdido tudo, mas Deus havia-lhes poupado algum parente e amigo chegado? Quantos agradecimentos aparentemente sinceros foram feitos a Deus? Quantas vezes você se recorda de ter ouvido alguém dizer: "Foi a mão de Deus que me salvou!"? Certo estou de que não podemos sondar tais corações e afirmarmos quais destas confissões foram verdadeiras e quais não foram. Mas de uma coisa podemos ter certeza: A maioria dessas pessoas que "confessaram" ao Senhor, voltarão a construir suas casas, comprarão novos carros, conseguirão um novo emprego, e tão logo como a desgraça lhes sobreveio, esquecerão a Deus e suas confissões de nada terão valor.

Charles Haddon Spurgeon falando sobre confissões em face da morte, disse certa vez que um médico catalogou 1000 (mil) pacientes que estavam destinados a morte, que haviam confessado ao Senhor e que não morreram vítimas daquela doença ou acidente. Para nosso estarrecimento, tal médico disse que não foi possível contar sequer 6 (seis) pessoas que continuaram a viver e que passaram a dedicar suas vidas ao Senhor, conforme haviam dito em suas confissões.

Moisés também já havia se deparado com tal situação quando ao descer do monte Sinai viu que o povo havia se corrompido e estavam adorando ao bezerro de metal. Diante de tal circunstância ele disse: "Bem depressa vocês se desviaram do caminho que o Senhor, o Deus de vocês, lhes tinha ordenado". Dt 9.16 É esse mesmo homem que também não se deixou enganar por faraó. No versículo 30 de nosso texto ele diz: "Mas eu bem sei que tu e os teus conselheiros ainda não sabem o que é tremer diante do Senhor Deus".

Poderíamos pensar que Moisés era alguém insensível, sem coração, que não amava e desejava que as pessoas fossem salvas. Muitos em nossos dias achariam tal atitude totalmente desnecessária, afinal, faraó fez uma espécie de oração do pecador! Confessou seus pecados! Alguém de nossos dias já providenciaria um cargo para ele na igreja! Diriam para faraó que de agora em diante ele era um crente! Ele estava salvo! Graças a Deus que Moisés tinha discernimento vindo da parte de Deus e não agiu contrário aos Seus firmes propósitos.

Ao olharmos para nosso texto, lemos que Moisés sabia o porquê de faraó ter dito: "Eu pequei". Vemos que mal havia saído ele da cidade e orado ao Senhor para que cessasse a chuva de granizo e a tempestade, faraó já havia negado ao Senhor. "Assim Moisés deixou o faraó, saiu da cidade, e ergueu as mãos ao Senhor. Os trovões e o granizo cessaram, e a chuva parou. Quando o faraó viu que a chuva, o granizo e os trovões haviam cessado, pecou novamente e obstinou-se em seu coração, ele e os seus conselheiros" (grifo meu). (v. 33, 34)

Queridos, quantas vezes você já se pareceu com faraó e sua estúpida confissão de pecados? Quando o mal, a doença, a falta de dinheiro ou qualquer outra assolação física que lhe sobrevêm, você se assemelha a este tirano e diz: "Eu pequei"? Talvez você esteja tentando se esquivar da pergunta pensando: "Mas não foi Deus quem endureceu o coração de faraó? Logo, ele não tem culpa alguma!". Se você tem pensado de tal maneira, se tem tentado achar rotas de fuga para sua responsabilidade, certamente você ainda não compreendeu o que é o verdadeiro arrependimento; você ainda não entendeu que Deus o considera responsável por suas ações, mesmo em meio à sua soberania.

Dizem por aí que até mesmo os ateus quando estão em perigo exclamam: "Ai meu Deus!". Que Deus possa lhe conceder graça e misericórdia e transforme sua confissão de pecados em mudança de vida.

Amém.

terça-feira, 15 de março de 2011

Verdade portátil, Penduricalho religioso ou Identidade falsa?


Verdade portátil, Penduricalho religioso ou Identidade falsa?
por Por Avelar Jr.

A moda muda constantemente, por isso há gente que tem verdadeiro vício de se informar sobre as últimas tendências – desde o que existe de novo em termos de “conceito” aos últimos apetrechos e penduricalhos que servem de acessórios. Há quem viva disso. A moda é relevante porque a aparência é importante.

Apesar do entra e sai de tendências e das reviravoltas do mundo “fashion”, há algo que está sempre em evidência como “acessório” – pasme: a Bíblia!

Lembro-me de que, quando me converti, eu não tinha uma Bíblia. Mas eu carregava as dos meus colegas, que tinham vergonha de andar com elas quando saíamos da igreja. Perguntava-me por que alguém teria vergonha de deixar à mostra aquilo que considerava, pelo menos em tese, de fundamental importância na vida cristã.

Enfim, parece que a vergonha de andar com um livro preto com letras douradas era uma constante nos adolescentes dos anos 90. Eu não tinha esse problema, como disse. Eu até dizia que mesmo que a Bíblia fosse um livro dourado com letras pretas eu não me acanharia de levá-la comigo. E assim tem sido até hoje.

Agora o negócio é mais moderno (para não dizer “capitalista”): existem Bíblias de todos os modelos e cores – dá para combinar até com roupa, sapato e maquiagem de palhaço, acredite-me. Sempre tem uma para o seu estilo, seja ele um estilo “mulambento”, “mais ou menos” ou “nos panos”.

Enquanto alguns crentes sentem vergonha de andar com suas Bíblias na rua, outros sentem orgulho – demais. Orgulho da aparência mas não da essência. Pessoas que usam a Bíblia como uma espécie de “passaporte” que lhes garanta confiabilidade e recepção por parte de pessoas de bom coração e que precisam de consolo, ou como um preço de suborno para cativar a religiosidade alheia para seus propósitos egoístas, uma falsa “identidade”.

O papo está ficando complicado? Serei mais claro.

Como sou da área de Direito, estou farto de ver advogados, promotores e juízes que manuseiam a Bíblia de alguma forma. Se a tal lei que abole dos prédios públicos os símbolos religiosos entrar em vigor, duvido muito que contagie a tal ponto que se retirem das mesinhas dos fóruns as Bíblias que vivem bolando por cima delas; ou que intimide os militantes dos processos para que não usem e não tragam as suas.

Nos julgamentos, é comum vermos versículos disparados e passagens bíblicas aludidas em defesa de uma tese. Já vi defensores de réus claramente culpáveis os compararem a Jesus Cristo, a quem foi negada justiça, quando, na verdade, deveriam ter sido comparados a Barrabás: na inútil tentativa de persuadir os jurados a aderirem à sua versão dos fatos. Já vi advogados e promotores abrirem a Bíblia para citarem versículos que não existiam [Provérbios 26.9] ou para repreender quem os usa. E sabem vocês que às vezes as distorções da palavra de Deus passam por verdade, já que se presume que a maioria esmagadora da população não a conhece? E pior ainda: isso inclui os “evangélicos”.

Falhamos muito em não conhecer as Escrituras e o que elas ensinam. E, assim, nos tornamos alvo fácil para sermos manobrados por pessoas que costumam utilizá-la de forma torcida, com versículos e ensinos fora dos seus contextos. É assim que surge e se propaga boa parte das heresias.

Você já se perguntou por que as seitas usam a Bíblia na sua casa, quando não crêem no que ela realmente ensina? Para pegar você da mesma forma como eles foram pegos no engano: com decorebas, técnicas de persuasão, mentiras e obscuridades. Alguns adeptos de seita nem enxergam isso; outros apenas disfarçam por algum motivo egoísta, tais como: fazer dinheiro, construir uma reputação ou vender cacarecos.

Enfim... Certa vez, adeptos de uma seita vieram à minha casa e usaram a Bíblia para tentar me fazer acreditar em um outro suposto livro sagrado "revelado por Deus" a um "profeta" falecido estadunidense (pra variar...). Eles diziam ser "a religião certa", que as outras igrejas estavam “erradas” e eram do Diabo etc. Ou seja, aquela mesma ladainha de sempre.

Depois de ver que sua mensagem não tinha base bíblica (porque eu tinha derrubado as bases que me mostraram, provando-lhes o que as Escrituras realmente ensinavam), os "missionários" começaram a atacar a própria veracidade da Bíblia.

Ora, mas se eles não criam na Bíblia e não achavam que ela era um livro importante, respeitoso e confiável, por que tentavam sustentar sua mensagem nela? Simples: para atrair os incautos que crêem na Bíblia, têm uma, mas não a conhecem!

Atenção: Se você não tem a Bíblia como alimento espiritual, como a palavra de Deus e como a Espada do Espírito; e se não a conhece e nem lhe dá a devida importância e cuidado; ela vai ser, para os outros, um passaporte, um veículo, um pretexto para uma mensagem errada chegar ao seu coração. Porque, se você não atenta para o que ela realmente ensina, demonstra que apenas se preocupa com a aparência do ensino, e paira na superficialidade. E precavenha-se: pessoas mal-intencionadas ou enganadas vão utilizá-la como cartão de visita e passaporte e para atacar a sua fé. E se você não tem competência e habilidade para defendê-la:

a) você poderá ser enganado; [1 João 2.21]
b) você não saberá quando está sendo enganado; [Atos 17.11]
c) você não poderá ajudar quem está enganado; [Judas 22,23]
d) você não poderá defender sua fé decentemente; [1 Pedro 3.15]
e) você está desobedecendo as Escrituras; [2 Timóteo 2.15]
f) e está pecando! [Mateus 22.29]

A palavra de Deus não é moda. A palavra de Deus nao é aparência. A palavra de Deus é a verdade e não passará, porém, a moda e as coisas deste mundo passarão. Portanto, não trate as Escrituras como “acessório” evangélico, pois ela deve fazer parte de seu coração, da sua vida, e é dela que vivemos! [Marcos 13.31]

Fico imaginando os fariseus com seus filactérios longos pendurados nas vestes. Para eles, a Bíblia era algo que ensorbebecia, algo a ser mostrado, “penduricalho religioso”. Será que nós somos diferentes deles? Será que andamos com algo que apenas atesta diante de nós, de Deus e do mundo o quão nossas vidas estão distantes Deus? [Mateus 23.3,5]

Imagino, ainda, como Satanás, os falsos profetas e os anticristos sabem manejá-la bem para alcançar seus intentos. [João 8.44; 1 João 1.7; 2 Pedro 2.1; 1João 4.1] E oro a Deus que nos prepare e nos ajude para que sejamos melhores espadachins e servos fiéis na luta pela verdade!

"Jesus, porém, respondeu: Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus." - Mateus 4.4

Fonte: Púlpito Cristão

sábado, 12 de março de 2011

Por que Calvinistas não orariam?


Por que Calvinistas não orariam?

Pensar que a soberania e a fidelidade de Deus à nosso favor dispensa a oração, seria uma errônea conclusão que alguém facilmente chegaria se não entendesse as doutrinas da graça. Os reformados são conhecidos por crerem num sistema que ensina o soberano decreto de Deus como a expressão da sua perfeita vontade, ou as determinações eternas de tudo o que é, do que foi, e do que será na criação, na história, e na salvação. É uma doutrina consistente em que vê o decreto e a oração não como forças contrárias, mas como causa e efeito, numa perfeita relação entre o Senhor e os seus servos.

A Escritura Sagrada ensina que Deus predeterminou tudo e, Ele mesmo nos estimula a orar por vários motivos. Nele esperamos o nascimento (Sl 139 15-16), o curso da vida (Jr 10:23), o controle sobre cada pensamento e palavra (Pv 16:1), o poder e a autoridade dos homens, bem como a sua incredulidade (Êx 9:16) e o desenfreio da impiedade (1 Pe 2:8). Ao evangelizar podemos orar por cada parte da salvação, incluindo o chamado (Rm 8:28), a fé daqueles que crêem (At 13:48), as boas obras de santificação (Ef 1:3-4; 2:10), e a herança da glória (Ef 1:11). Também é possível orarmos por todas as coisas no céu e na terra (Sl 135:6-12).[1] Deste modo, confessamos pela oração que “o nosso Deus está nos céus; tudo faz segundo a Sua boa vontade” (Sl 115:3).

A oração não funciona como um instrumento de manipulação dos caprichos ou necessidades humanas. Não somos nós que mudamos o eterno propósito de Deus com a nossa oração, mas Ele nos aperfeiçoa no cumprimento diário de Sua vontade em nós. R.C. Sproul esclarece que

o mais importante, é que a oração é que nos transforma. Podemos envolver mais profundamente nesta comunhão com Deus e conhecer Aquele com quem estamos falando mais intimamente, e um crescente conhecimento de Deus é revelado ainda mais brilhante, e o que somos e a nossa necessidade é transformada, conforme Ele quer. A oração nos altera profundamente.[2]

Então, ao aplicar a sua graça, Deus desenvolve a sua salvação em todo um processo aperfeiçoando-nos por meio da sua providência. A nossa oração se relaciona diretamente com o governo de Deus e o desdobramento de sua vontade eterna. Não há o que questionar, pois sabemos que “é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele” (Fp 2:13, NVI).

Deus nos prepara para conceder àquilo que Ele quer nos dar. Ele cria a necessidade, nos dá percepção da nossa carência, concede-nos a fé necessária e confirma o seu amor providencial ao manifestar a sua vontade à nosso favor. Em tudo descobrimos a sua glória nos envolvendo numa ininterrupta dependência dEle. Calvinistas oram porque estão convencidos da riqueza da graça de Deus. O puritano John Owen percebeu que

a principal finalidade da oração é estimular e despertar o princípio da graça, da fé e do amor no coração devido aos santos pensamentos de Deus. Aqueles que não têm este propósito na oração, realmente não sabem o que é orar. Uma constante assistência sobre este dever preservará a alma de uma estrutura onde o pecado não pode habitualmente prevalecer nela.[3]

Somente podemos orar capacitados pelo Espírito Santo. Paulo nos revela que “da mesma forma o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (Rm 8:26, NVI). Isto significa que o Espírito Santo “garante a disposição e desejos, concede as palavras na boca, segue adiante delas, e causa-as para orar depois delas.”[4] O aspecto prático desta doutrina é que o exercício da oração sempre é surpreendente! Se entendêssemos e vivêssemos esta dinâmica não teríamos como desanimar de orar. Edwin H. Palmer nos afirma que

se a nossa vida de oração é monótona e enfadonha, se é pesada, se sentimos que não estamos em contato com Deus, como se as nossas orações não chegassem a Ele, se não sabemos para que orar, se a oração não é um meio poderoso em nossa vida, então podemos recorrer ao Espírito da oração e pedir-lhe que venha a nossa vida, de forma mais plena, para ajudar-nos nesta debilidade. Se assim fizermos, com fé e esperança, Ele virá a nós e revolucionará a nossa vida de oração. Porque Ele é o segredo da oração, do mesmo modo que é o segredo de toda a vida santa. Sem Ele nada podemos fazer. Mas, com Ele podemos ser transformados e viver vidas que sejam espiritualmente ricas, ativas e alegres.[5]

Um calvinista vive a sua oração. Isto não significa que ele está constantemente de olhos fechados, mas que a disposição de sua alma continuamente está na dependência do soberano Deus. Nathaniel S. McFetridge observa que

muitos homens possuem um compartimento onde está esta atitude em sua oração, e ela é desligada de suas vidas com o seu Amém, e quando se levantam de sobre os seus joelhos assumem uma atitude totalmente diferente, se não do coração, mas pelo menos da mente. Eles oram como se dependessem somente da misericórdia de Deus; entretanto, eles pensam – como se fosse possível enquanto viverem – como se Deus, em algumas de suas atividades menores, fosse dependente deles. O calvinista é o homem que está determinado a preservar o que ele recebeu em oração em todos os seus pensamentos, em todos os seus sentimentos, em tudo o que faz. Isto quer dizer que, ele é o homem que está determinado a fazer que a religião em sua pureza venha a sua plena retidão em seus pensamentos, sentimentos e vida. Este é o fundamento de seu especial modo de pensar, a razão pela qual ele é chamado um calvinista; e de igual modo especial age no mundo, a razão pela qual ele se torna a maior força regeneradora no mundo. Outros homens são calvinistas sobre os seus joelhos; o calvinista é o homem que está determinado que o seu intelecto, coração e vontade permanecerão sobre os seus joelhos continuamente, e a pensar, sentir e agir somente a partir deste fundamento. Calvinismo é, antes de tudo, aquela espécie de pensamento no qual vem a sua verdadeira atitude religiosa de dependência interna de Deus e humilde confiança somente em sua misericórdia para a salvação.[6]

Concluindo, podemos pensar que toda oração é essencialmente feita em três aspectos. Benjamin Palmer afirma que a oração

é o apelo da criatura dependente; é o lamento do culpado pecador; e ainda, é a articulada adoração de uma alma inteligente. Sob o primeiro aspecto, Deus é considerado em sua relação natural como o criador e preservador de todas as suas criaturas. Sob o segundo, ele é contemplado em sua graciosa relação como o redentor e salvador dos pecadores. E por último, ele é adorado em sua consumada santidade e glória.[7]

É na busca da benção do Pai, pela mediação do Filho e testemunho do Espírito Santo que oramos. O Catecismo Maior de Westminster questiona - O que é oração? E a sua resposta é: oração é um oferecimento de nossos desejos a Deus, em nome de Cristo e com o auxílio de seu Espírito, e com a confissão de nossos pecados e um grato reconhecimento de suas misericórdias.[8] Não existe relação trinitária mais completa do que desfrutamos da oração como meio de intimidade com Deus. Por que calvinistas não orariam?

NOTAS:
[1] Ronald Hanko, Doctrine according to Godliness - A Primer of Reformed Doctrine (Grandville, RFPA, 2004), p. 73.
[2] R.C. Sproul, The Prayer of the Lord (Orlando, Reformation Trust Publishing, 2009), pág. 14
[3] Extraído de Roderick MacLeod, The Puritans on Prayer em http://www.fpchurch.org.uk/magazines/fpm/2002/May/article6.php acessado em 12 de Março de 2011.
[4] Wilhelmus à Brakel, The Christian’s Reasonable Service (Pittsburgh, Soli Deo Gloria Publications, 1994), vol. 3, pág. 452.
[5] Edwin H. Palmer, El Espíritu Santo (Edinburgh, The Banner of Truth, 1995), págs. 194-195.
[6] Nathaniel S. McFetridge, Calvinism in History – A political, moral and evangelizing force (Birmingham, Solid Ground Christian Books, 2004), pág. 2.
[7] Benjamin M. Palmer, Theology of Prayer (Hess Publications, 1998), pág. 15.
[8] Pergunta e resposta – 178.

Fonte: E a Bíblia com isso?

terça-feira, 8 de março de 2011

Bendize, ó minha alma, ao SENHOR - Sermão pregado dia 27.02.2011


Bendize, ó minha alma, ao SENHOR -
Sermão pregado dia 27.02.2011

Nosso texto: "Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nenhum de seus benefícios". Salmos 103.2

Amados, confesso-lhes que constantemente fico estupefato com a magnificência dos salmos. São escritos do mais alto calibre, da mais bela e rica literatura que podemos encontrar. Os salmos nos mostram a humanidade dos salmistas, que embora fossem grandes homens de Deus, ainda assim eram seres humanos e com os respectivos desejos de sua natureza. Outro ponto que também me deixa extasiado é o grande desejo pela lei de Deus que moveu esses escritores.

É importante notarmos a discrepância que há entre o desejo dos salmistas e os desejos que norteiam nossa sociedade e que infelizmente acabam atingindo alguns crentes. Não precisamos de muita análise para verificar que estamos embrenhados à uma cultura meritória (baseada no mérito), onde tudo o que fazemos e conquistamos é devido às "qualidades próprias". Observemos que os concursos são baseados no mérito (estudou, se dedicou, passou), a promoção de um emprego é apenas para funcionários qualificados, passa-se de ano na escola e na faculdade apenas aqueles que estudaram e se dedicaram. Quase tudo ao nosso ao redor é baseado no mérito.

Mas graças a Deus que a bíblia não nos trata da mesma forma. Nosso texto de hoje é enfático ao dizer: "Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nenhum de seus benefícios". A palavra que o salmista escolheu para começar esse verso é completamente esquecida e alheia ao nosso vocabulário social. Digo isso pois não está na "moda" louvar alguém, nem elogiar alguém, tampouco dizer bem de alguém. A regra atual é: faça por merecer.

Sendo antagônico a tal pensamento, Davi deseja que sua alma (como que falando consigo mesmo) louve e bendiga a Deus em todas as coisas. Ele é desejoso de que seu coração jamais de aparte dos preceitos de Deus! O salmista deseja para si que ele não se esqueça de nenhum dos benefícios recebidos de Deus. Quão distante muitas vezes nos encontramos de tal desejo! Como constantemente temos nossos desejos enegrecidos pela falsa sensação de auto-controle, como se pudéssemos praticar algo de bom por nós mesmos sem a presença do Espírito Santo em nós.

Surge-nos então a pergunta: O que são os benefícios de Deus? Jonathan Edwards dizia que até mesmo os ímpios se alegram com algo que recebem, por isso é necessário que a alegria do cristão vá muito além disso. Edwards continua dizendo que enquanto o ímpio se alegra apenas com aquilo que ganha, o cristão deve ser feliz por aquilo que Deus é em si mesmo. Salienta também a importância do cristão verificar junto à sua alma se não tem andado por caminhos tortuosos, desviando-se da graça e caindo na autojustificação. Como é triste nos depararmos com pessoas que ficam barganhando com Deus, tentando comprá-Lo, fazendo d'Ele seu mordomo ou agindo como se fosse seu gênio da lâmpada mágica.

Em Tiago 4.3,4 lemos: "Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites. Adúlteros e adúlteras, não sabeis vós que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus". Diante de tal passagem, Edwards pergunta e já responde: "Por que Tiago chama de adúlteros e adúlteras aqueles que oravam ao Senhor? Porque embora elas orassem, elas estavam abandonando seu esposo que era Deus para se juntarem aos seus amantes, e pior que isso, estavam pedindo que Ele lhes financiasse o seu adultério". São duras palavras que devem penetrar nosso coração.

Meus irmãos, Deus é constantemente traído em muitas orações proferidas aos domingos e no restante de nossas semanas. Neste mundo de busca por nossos próprio prazeres, Deus tem se tornado apenas um meio de conseguirmos aquilo que desejamos. Edwards dizia que esse tipo de oração ofende a Deus. Ele o chamava de a oração dos hipócritas.

Devemos estar cônscios de que quando buscamos o Senhor em oração para que eles satisfaça nossos desejos e nos providencie recursos para gastarmos com nosso amante (o mundo), O traímos e fazemos de nosso estágio atual pior que o primeiro. Quem de nós teria coragem de pedir dinheiro ao cônjuge para sair com seus amantes? Há alguém que em sã consciência peça à sua família o dinheiro do pão de cada dia para gastar com prostitutas e parceiros sexuais? Qual de nós cometeria tal loucura? Mas infelizmente é isso que muitas vezes fazemos.

Temos observado a terrível tendência do homem moderno em elevar sua moral a cada dia. Diariamente homens e mulheres buscam conferir status social aos seus currículos. Estes mesmos tem labutado com todas as forças para serem aceitáveis no mercado de trabalho, para terem prestígio em meio a algum negócio ou transação comercial. Não que a bíblia proíba tal feito, mas o problema reside em que muitos trocaram a carreira espiritual pela profissional. Pessoas que professam o cristianismo estão começando a ter uma estima muito elevada de si mesmos, a ponto de acharem que Cristo por morreu por elas porque havia algo que lhes era digno de morte. Tais pessoas constantemente oram ao Pai e O agradecem pela morte de Seu filho, mas não reconhecem o quão imundos e destituídos de graça estão.

Paulo em 1Co 10.31 escreve: "Portanto, quer comais, quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para a glória de Deus". Temos então os seguintes conselhos:

1. "não te esqueças de nenhum de seus benefícios";
2. "fazei tudo para a glória de Deus".

Essas palavras deveriam estar cravadas em letras garrafais em nossos corações! Já não nos bastasse a inutilidade que este mundo nos oferece, não tivéssemos tentações suficientes, fossemos levados a satisfazermos nossos desejos pecaminosos em nossa carne, ainda queremos acrescentar algum mérito próprio! Oh! Quão insensatos somos quando assim procedemos!

Que possamos gravar em nosso entendimento as palavras de Davi. Que jamais nos apartemos da graça salvadora. Que reconheçamos nosso adultério e recorramos ao único capaz de nos perdoar.

Oro para que assim como Davi, nós também possamos dizer: "Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nenhum de seus benefícios".

Amém.

sábado, 5 de março de 2011

A Bíblia não é autoajuda


A Bíblia não é autoajuda -

por David Wells


A atitude certa

Ok. Você quer saber como ler a Bíblia? Aí vai:

Há duas partes para isso. A segunda parte é o estudo real da passagem bíblica, mas, antes que você mesmo pense em fazer isso, você deve tomar o primeiro passo. E qual é? É preparar a si mesmo para fazer o estudo. Pode soar estranho para você, mas se não você tiver a atitude certa, vai perder tempo na passagem.

Então, qual é a atitude certa? É dizer a si mesmo que você está ali para ouvir de Deus, não para ouvir a si mesmo. Você está ali para ser tratado, desafiado, e, sim, mesmo repreendido por Deus, através da verdade de sua Palavra.

Escritura não é terapia

Se você é como eu, isso pode não ser o que você tem como primeira prioridade. Você pode estar pensando em suas dores, seu vazio, seus sentimentos de estar desconectado, em relações destruídas, e decepções. Eles são reais. Mas a questão é que estudar as Escrituras não é terapia. Estudar a Bíblia não é autoajuda. Nós não estamos ali para ouvir nossa própria voz chorando interiormente. Estamos ali para ouvir sua voz, que vem de fora de nossas experiências. E sua Palavra não é uma de muitas. É a única Palavra que tem existido desde toda a eternidade, porque vem do Deus eterno.

Deus, portanto, não está lá para nosso uso quando precisamos dele; estamos aqui na Terra para que ele nos use. Ele não está lá para nosso benefício como se ele fosse um produto; nós estamos aqui para seu serviço.

E você já percebeu que aqueles na Escritura que mais o serviram, mais sofreram fielmente, foram mais atribulados, e foram mortos? Querer conhecer a Deus é um negócio arriscado, portanto esqueça a leitura da Escrita de maneira que você possa se sentir melhor sobre você mesmo. Cristo, como aprendemos em As Crônicas de Nárnia, não é um leão domesticado. No entanto, ele é bom.

Não estamos aqui para nós mesmos

Portanto, prepare-se! Deus pode ser perturbador, inconveniente, e estar em desacordo com tudo que estamos pensando. Mas estamos diante da Escritura para ouvir isso dele. E a razão para estarmos aqui na terra é procurar sua glória, ao torná-lo central em nossas vidas; não estamos aqui pra cuidar dos nossos negócios.

Todos os dias que leio a Escritura, lembro a mim mesmo disto, porque todo dia eu me esqueço disto. Eu lembro a mim mesmo quando abro a página que lerei. Se me esquecer quem eu sou e porque eu sou, esqueço-me de me humilhar diante de Deus. A partir do momento em que me esqueço disso, o que ouço é apenas minha voz interna. Isso irá abafar sua voz, e não estarei melhor por ter lido sua Palavra.

Fonte: IPródigo

quinta-feira, 3 de março de 2011

A Cabana - O fim do discernimento evangélico


A Cabana - O fim do discernimento evangélico
por Albert Mohler

O mundo editorial vê poucos livros alcançarem o status de blockbuster, mas A Cabana, de William Paul Young já ultrapassou esse ponto. O livro, originalmente auto-publicado por Young e mais dois amigos, já vendeu mais de 10 milhões de cópias e foi traduzido para em mais de trinta línguas. Já é um dos livros mais vendidos dois últimos tempos, e seus leitores são muito entusiasmados.

De acordo com Young, o livro foi escrito originalmente para seus filhos. Essencialmente, a história pode ser descrita como uma teodicéia narrativa – uma tentativa de responder às questões sobre o mal e o caráter de Deus por meio de uma história. Nessa história, o personagem principal está enfrentando grande sofrimento após o seqüestro e homicídio brutal de sua filha de sete anos, quando recebe um convite que se torna um chamado de Deus para encontrá-lo na mesma cabana onde sua filha foi assassinada.

Na cabana, “Mack” se encontra com a divina Trindade: “Papa”, uma mulher afro-americana; Jesus, um carpinteiro judeu; e “Sarayu”, uma mulher asiática revelada como sendo o Espírito Santo. O livro é na maior parte uma série de diálogos entre Mack, Papa, Jesus e Sarayu. Essas conversas revelam um Deus bem diferente do Deus da Bíblia. “Papa” é alguém que nunca faz algum julgamento e parece muito determinado em afirmar que toda a humanidade já foi redimida.

A teologia de A Cabana não é incidental na história. De fato, em muitos pontos a narrativa parece servir apenas como estrutura para os diálogos. E os diálogos revelam uma teologia que é, no mínimo, inconvencional e indubitavelmente herética sob alguns aspectos.

Enquanto o dispositivo literário de uma “trindade” incomum das pessoas divinas é em si mesmo sub-bíblico e perigoso, as explicações teológicas são piores. “Papa” fala a Mack sobre o momento em que as três pessoas da Trindade “se manifestaram à existência humana como o Filho de Deus”. Em lugar algum da Bíblia se fala sobre o Pai ou o Espírito vindo à existência humana. A Cristologia do livro é semelhantemente confusa. “Papa” diz a Mack que, mesmo Jesus sendo completamente Deus, “ele nunca dependeu de sua natureza divina para fazer alguma coisa. Ele apenas viveu em relacionamento comigo, vivendo da mesma maneira que eu desejo viver em relacionamento com todos os seres humanos”. Quando Jesus curou cegos, “Ele o fez apenas como um ser humano dependente e limitado, confiando em minha vida e meu poder trabalhando nele e através dele. Jesus, como ser humano, não tinha poder algum em si para curar qualquer pessoa”.

Há uma extensa confusão teológica para desbaratar aí, mas é suficiente dizer que a igreja cristã tem lutado por séculos para ter um entendimento fiel da Trindade para evitar exatamente esse tipo de confusão – um entendimento que põe em risco a própria fé cristã.

Jesus diz a Mack que é “a melhor forma para qualquer humano se relacionar com Papa ou Sarayu”. Não o único caminho, mas apenas o melhor caminho.

Em outro capítulo, “Papa” corrige a teologia de Mack ao afirmar “Eu não preciso punir as pessoas pelo pecado. O pecado é a própria punição, te devorando por dentro. Não é meu propósito puni-lo; minha alegria é curá-lo”. Sem dúvida alguma, o prazer de Deus está na expiação alcançada pelo Filho. Entretanto, a Bíblia revela consistentemente que Deus é o santo e correto Juiz, que irá de fato punir pecadores. A idéia de que o pecado é meramente “a própria punição” se encaixa no conceito oriental de karma, não no evangelho cristão.

O relacionamento do Pai com o Filho, revelado em textos como João 17, é rejeitado em favor de uma igualdade absoluta de autoridade entre as pessoas da Trindade. “Papa” explica que “nós não temos nenhum conceito de autoridade final entre nós, apenas unidade”. Em um dos parágrafos mais bizarros do livro, Jesus fala para Mack: “Para está tão submisso a mim como eu estou a ele, ou Sarayu a mim, ou Para a ela. Submissão não tem a ver com autoridade e não é obediência; tem a ver com relacionamentos de amor e respeito. Na verdade, somos submissos a você da mesma forma”.

A submissão da trindade a um ser humano – ou a todos os seres humanos – teorizada aqui é uma inovação teológica do tipo mais extremo e perigoso. A essência da idolatria é a auto-adoração, e a idéia de que a Trindade é submissa (de qualquer forma) à humanidade é indiscutivelmente idólatra.

Os aspectos mais controversos da mensagem do livro envolvem as questões de universalismo, redenção universal e reconciliação total. Jesus diz a Mack: “Aqueles que me amam vêm de todos os sistemas existentes. São Budistas ou Mórmons, Batistas ou Muçulmanos, Democratas, Republicanos e muitos que não votam ou não fazem parte de qualquer reunião dominical ou instituição religiosa”. Jesus acrescenta, “Eu não tenho nenhum desejo de torná-los cristãos, mas apenas acompanhá-los em sua transformação em filhos e filhas do meu Papa, em meus irmãos e irmãs, meus Amados”.

Mack faz então a pergunta óbvia – todos os caminhos levam a Cristo? Jesus responde “muitos caminhos não levam a lugar algum. O que significa que eu vou caminhar por qualquer caminho para te achar”.

Dado o contexto, é impossível não tirar conclusões essencialmente universalistas ou inclusivistas sobre o pensamento de William Young. “Papa” diz a Mack que ele está reconciliado com todo o mundo. Mack questiona: “Todo o mundo? Você quer dizer aqueles que acreditam em você, certo?”. “Para” responde “O mundo inteiro, Mack”.

Tudo isso junto leva a algo muito parecido com a doutrina da reconciliação proposta por Karl Barth. E mesmo que Wayne Jacobson, colaborador de William Young, tenha lamentado que a “auto intitulada polícia doutrinária” tenha acusado o livro de ensinar a reconciliação total, ele reconhece que as primeiras versões dos manuscritos eram muito influenciadas pelas convicções “parciais, na época” de Young na reconciliação total – o ensino de que a cruz e a ressurreição de Cristo alcançaram uma reconciliação unilateral de todos os pecadores (e toda a criação) com Deus.

James B. DeYoung, do Western Theological Seminary, especialista em Novo Testamento que conhece William Young há anos, afirma que Young aceita uma forma de “universalismo cristão”. A Cabana, ele afirma, “está fundamentado na reconciliação universal”.

Mesmo quando Wayne Jacobson e outros reclamam daqueles que identificam heresias em A Cabana, o fato é que a igreja Cristã identificou explicitamente esses ensinamentos exatamente como são – heresia. A questão óbvia é: Como é que tantos cristãos evangélicos parecem não apenas serem atraídos para essa história, mas para a teologia apresentada na narrativa – uma teologia que em muitos pontos conflita com as convicções evangélicas?

Observadores evangélicos não estão sozinhos nessa questão. Escrevendo em The Chronicle of Higher Education (A Crônica da Alta Educação N. T.), o professor Timothy Beal da Case Western University argumenta que a popularidade de A Cabana sugere que os evangélicos talvez estejam mudando sua teologia. Ele cita os “modelos metafóricos não bíblicos de Deus” do livro, assim como o “não hierárquico” modelo da Trindade e, mais importante, “a teologia da salvação universal”.

Beal afirma que nada dessa teologia é parte da “teologia evangélica tradicional”, e então explica: “De fato, todas as três estão enraizadas no discurso acadêmico radical e liberal dos anos 70 e 80 – trabalho que influenciou profundamente a teologia da libertação e o feminismo contemporâneo, mas, até agora, teve pouco impacto nas conjecturas teológicas não acadêmicas, especialmente dentro do meio religioso tradicional”.

Ele então pergunta: “O que essas idéias teológicas progressivas estão fazendo dentro desse fenômeno evangélico pop?”. Resposta: “Poucos de nós sabemos, mas elas têm sido presentes nas margens liberais do pensamento evangélico por décadas”. Agora, continua, A Cabana tem introduzido e popularizado esses conceitos liberais mesmo em meio aos evangélicos tradicionais.

Timothy Beal não pode ser considerado apenas um “caçador de heresias” conservador. Ele está empolgado com a forma que essas “idéias teológicas progressivas” estão “se infiltrando na cultura popular por meio dA Cabana”.

De forma similar, escrevendo em Books & Culture (Livros & Cultura N.T.), Katherine Jeffrey conclui que A Cabana “oferece uma teodicéia pós-moderna e pós-bíblica”. Enquanto sua maior preocupação é o lugar do livro “em um cenário literário cristão”, ela não pode evitar o debate dessa mensagem teológica.

Ao avaliar o livro, deve manter-se em mente que A Cabana é uma obra de ficção. Mas é também um argumento teológico, e isso não pode ser negado. Um grande número de romances e obras de literatura notáveis contém aberrações teológicas e até heresias. A questão crucial é se a aberração doutrinária é apenas parte da história, ou é a mensagem da obra propriamente dita. Quando se fala em A Cabana, o fato mais perturbante é que muitos leitores são atraídos pela mensagem teológica do livro, e não enxergam como ela é conflitante com a Bíblia em tantos pontos cruciais.

Tudo isso revela um fracasso desastroso do discernimento evangélico. É difícil não concluir que o discernimento teológico é agora uma arte perdida entre os evangélicos – e essa perda só pode levar à catástrofe teológica.

A resposta não é banir A Cabana ou tirá-lo das mãos dos leitores. Não devemos temer livros – devemos lê-los para respondê-los. Precisamos desesperadamente de uma restauração teológica que só pode vir através da prática do discernimento bíblico. Isso requer de nós identificarmos os perigos doutrinários de A Cabana, para termos certeza. Mas nossa tarefa verdadeira é reaproximar os evangélicos dos ensinos da Bíblia sobre essas questões e cultivar um rearmamento doutrinário dos cristãos.

A Cabana é um alarme para o cristianismo evangélico. É o que dizem afirmações como as de Timothy Beal. A popularidade desse livro entre os evangélicos só pode ser explicada pela falta de conhecimento teológico básico entre nós – uma falha no próprio entendimento do Evangelho de Cristo. A perda trágica da arte do discernimento bíblico deve ser assumida como uma perda desastrosa de conhecimento bíblico. Discernimento não consegue sobreviver sem doutrina.

Fonte: IProdigo

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