"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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segunda-feira, 19 de abril de 2010

Tudo é sem sentido! - Será? Breve análise sobre o livro de Eclesiastes

Texto por
Filipe Luiz C. Machado
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Ao conversarmos com alguns cristãos, vemos que alguns livros da bíblia têm mais aceitação do que outros (que grande pecado!). Enquanto Salmos e Provérbios são amplamente lidos e aceitos pela maioria, seu vizinho Eclesiastes é deixado de lado, afinal, ele aparenta ser um livro depressivo e sem sentido. Porém está longe de ser esta a verdadeira conotação, pois Eclesiastes é um livro onde o autor discorre sobre as coisas que acontecem na vida dos seres humanos e em como ele se vê perplexo perante grandes injustiças e inutilidades debaixo do sol, quando não analisadas à luz da soberania de Deus.

O ponto de partida de Eclesiastes se encontra no versículo 2.3: "eu queria saber o que vale a pena, debaixo do céu, nos poucos dias da vida humana". O autor está intrigado por não conseguir compreender certas ações de Deus em meio à natureza humana. Ele não entende o porquê de certas coisas acontecerem a determinadas pessoas, as injustiças da vida, o trabalho árduo debaixo do sol, os absurdos da vida, a futilidade do poder... O autor aparenta estar desolado e completamente confuso quanto ao motivo da vida existir.

Os versículos 4 até 10 do capítulo 2 nos mostram que o autor não negou coisa alguma que seus olhos e mãos desejassem. Ele se lançou rm projetos e teve tudo que seu coração desejou! Porém no versículo 11 ele conclui dizendo: "Contudo, quando avaliei tudo o que as minhas mãos haviam feito e o trabalho que eu tanto me esforçara para realizar, percebi que tudo foi inútil, foi correr atrás do vento; não há nenhum proveito no que se faz debaixo do sol". Vemos então um homem completamente arrasado! Um homem que teve tudo o que desejou, mas que não conseguiu perceber a verdadeira realidade da vida. O autor prosseguirá então até o final do capítulo 7 dizendo que "nada faz sentido debaixo do sol".

Depois de uma leitura cuidadosa no livro de Eclesiastes, percebemos que muitas das indagações ali contidas, refletem as mesmas dúvidas e questionamentos que temos. Por que Deus não finda com a injustiça terrena? Qual a vantagem em ser sábio se não se poder compreender a vida? De que adianta se esmerar em prol de algum serviço se ao final da vida todos teremos o mesmo destino que é a morte? Quantas vezes nós já nos deparamos com a mesma situação do autor, onde olhamos para nossa vida e pensamos, "que coisas inúteis tenho feito! É tudo sem sentido!".

Após muitas dúvidas, questionamentos e indagações sem fim, o autor nos diz que devemos obedecer ao Rei. No capítulo 8 versículo 4 lemos: "Pois a palavra do rei é soberana, e ninguém lhe pode perguntar: 'O que estás fazendo?'". Aqui, o autor expressa algo de profundo valor para nós cristãos, que é: Obedeça ao Rei! Porém ele deixa claro que esse obedecer não é precedido de uma conversa entre o rei e o servo, onde ambos fixam um acordo que lhes parece melhor e/ou que apraz ambas as partes. Pelo contrário, ele diz que ninguém pode indagar ao Rei sobre o que ele faz ou deixa de fazer, pois o Rei é soberano e faz aquilo que sua vontade bem entender. Se cremos verdadeiramente que nosso Rei é Jesus, filho do Pai, então devemos aceitar as palavras proferidas pelo autor. Se quisermos ser sábios, devemos atentar para os grandes ensinamentos da bíblia.

Um cristão maduro é aquele que acata as decisões de seu Rei e as segue sem questionamentos quanto à veracidade - não porque ele é um cristão sem vontade de questionar, mas sim porque sabe que aquilo que o seu Rei faz é o melhor para Seu povo. Não devemos ficar como que apontando as orações para os céus e dizer: "Por que tu fizeste isso, Senhor? Existiam milhares de outras maneiras para Tu realizares o teu propósito! Por que foi dessa maneira?!" Relembremos: "O temor do Senhor é o princípio da sabedoria" (Provérbios 9.10).

Em fase de finalização, no capítulo 11, versículo 9 lemos: "Alegre-se, jovem, na sua mocidade! Seja feliz o seu coração nos dias da sua juventude! Siga por onde seu coração mandar, até onde a sua vista alcançar; mas saiba que por todas essas coisas Deus o trará a julgamento." Vemos, aqui, que embora o autor estivesse confuso quanto ao sentido da vida, ele não diz para deixarmos de viver e abandonarmos tudo; pelo contrário, nos exorta a irmos atrás de nossos sonhos, a vivermos por nossas ambições e desejos, indo o mais longe que pudermos! Mas ele nos salienta dizendo que por todas essas coisas Deus nos trará a julgamento.

Não há problema algum em termos grandes planos para nossa vida e desejarmos fazer grandes coisas. O problema está no porquê desejamos determinadas coisas. Não devemos viver como se nossa estadia na Terra fosse eterna! Não podemos viver achando que levaremos alguma coisa daqui da Terra para os céus! O autor também nos previne de acharmos que, independentemente daquilo que fizermos, Deus nos salvará! Ele diz que teremos julgamento por cada ato que praticarmos e se estivermos em Cristo, teremos a sentença absolutória.

Para concluir seu pensamento, no capítulo 12, versículo 13,14 ele escreve: "Agora que já se ouviu tudo, aqui está a conclusão: Tema a Deus e obedeça aos seus mandamentos, porque isso é o essencial para o homem. Pois Deus trará a julgamento tudo o que foi feito, inclusive tudo o que está escondido, seja bom, seja mau." O autor finaliza dizendo que não devemos tentar entender tudo que acontece debaixo do sol, pois isso é inútil, é correr atrás do vento. Ele nos anima a obedecermos a Deus mesmo quando não entendemos aquilo que Ele faz ou deixa de fazer!

O cristão não deve obedecer a Deus porque conseguiu compreender Sua mente, mas, sim, porque confia que as ações de seu Rei são as melhores para seu povo, mesmo quando estas lhe causem grande e profunda tristeza.

Longe de ser um livro depressivo e sem sentido, o Eclesiastes nos mostra que podemos confiar em nosso Rei Jesus mesmo quando as situações nos parecem confusas e tudo parece ser sem sentido!

Deus nos abençoe!

terça-feira, 13 de abril de 2010

O que é viver pela fé?

Texto por
Filipe Luiz C. Machado
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O que é viver pela fé? Uma simples pergunta, mas que se respondida e entendida de maneira errada, pode acarretar em grandes problemas.
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Se pararmos e perguntarmos para um grande número de crentes o que eles entendem por fé, certamente a grande maioria responderá que fé é a certeza das coisas que não se vêem. Em Hb 11.1 lemos que "ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem". Seria então natural entendermos que pela fé podemos esperar e ter certeza daquilo que não podemos ver; sejam milagres, curas, pedidos ou qualquer outra coisa. Fé seria a plena certeza de que receberíamos tudo aquilo que ainda não podemos ver.

Agora, é mister notarmos que embora o texto diga-nos que fé é a certeza de coisas que se esperam e a convicção de fatos que se não vêem, ele não nos fala que coisas são essas, nem tão pouco quais são os fatos que não vemos. Por isso é importante atentarmos e analisarmos melhor essa questão.

O que é viver pela fé? Para respondermos essa pergunta é necessário que entendamos que nosso Deus é um Deus soberano e por ele ser soberano, não estamos livres para exercitarmos a fé que ele nos deu conforme nosso próprio beneplácito. A fé que ele nos deu serve para podermos confiar em seu poder capaz de nos livrar das mãos do inimigo e nos conduzir seguramente à vida eterna. A fé que recebemos não serve para barganharmos com Deus ou comprarmos o seu favor. Esta fé que nos foi concedida tem como propósito nos unir a Ele, caso contrário estaríamos destituídos da capacidade de usufruirmos de sua comunhão.

Viver pela fé é crer nas promessas que nos foram concedidas. É ter a total confiança de que "aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus." Fp 1.6. Viver pela fé é viver confiando naquilo que o Senhor já nos revelou. É compartilhar do mesmo sentimento que Paulo, quando disse que: "Estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor". Rm 8.38,39

O cristão que verdadeiramente vive pela fé, sabe que esta fé que ele tem não provém dele mesmo, "porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus" Ef 2.8. A bíblia deixa claro que não temos fé por nós mesmos. Não adianta clamarmos em alta voz para que o mundo inteiro tenha fé em Deus, sendo que eles só poderão ter a fé salvífica se Deus assim os conceder. O homem por si mesmo é incapaz de criar fé em Deus.

Estar aliançado em Deus é estar vivendo pela fé transformadora de vidas. O homem que vive pela fé sabe em quem está confiando e pode ter a certeza que será transformado. Não uma transformação de casa, carros, bênçãos e prosperidade se fim, mas a única e verdadeira transformação: a de seu ser! Ele não tem dúvidas de que o seu Senhor é soberano e está controlando a situação. Ele pode até titubear perante o aparente abandono de Deus, mas assim como Jó, ele também poderá dizer: "Porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra." Jó 19.25

Viver pela fé é ler com expectativa e paixão as palavras do anjo que disse: "Varões galileus, por que estais olhando para as alturas? Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu virá do modo como o vistes subir." At 1.11

Vivamos pela fé!

terça-feira, 6 de abril de 2010

Falar em línguas é auto-edificante?

por John Stott
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Ainda paira um ponto de interrogação sobre o fenômeno contemporâneo conhecido como falar em línguas, quanto a ele ser idêntico ao dom do Novo Testamento. Está claro que no dia de Pentecostes os crentes cheios do Espírito estavam falando "em outros línguas", isto é, em línguas estranhas, e "segundo o Espírito lhes concedia que falasse", e que todas estas línguas era compreensíveis a grupos da multidão (At 2.4-11).

A suposição teológica e linguistica é forte no sentido de que o fenômeno mencionado em 1Coríntios é o mesmo. Primeiro, porque as expressões no grego são praticamente as mesmas, e uma das primeiras regras da interpretação da Bíblia é que expressões idênticas têm o significado idêntico.

Em segundo lugar, porque o substantivo glōssa tem somente dois significados conhecidos, que são o órgão, ou seja, a língua e o idioma. A tradução "lhes concedia que falassem em êxtase" não tem base linguistica. Isto não é uma tradução, mas uma interpretação. De modo análogo, a expressão "interpretação de línguas" significa tradução de idiomas.

Em terceiro lugar, todo o empenho de 1Coríntios 14 é no sentido de desencorajar o culto de caráter ininteligível, como coisa de criança: "Irmãos, não sejais meninos no juízo; (...) sede homens amadurecidos" (v.20). O Deus da bíblia é um Deus racional, que não tem prazer em irracionalidade ou em ininteligibilidade.

A interpretação levanta algumas dificuldade exegéticas, que levaram algumas pessoas a distinguirem radicalmente entre "línguas" em Atos e "línguas" em 1Coríntios. Mas as dificuldades são pequenas em comparação com a força do argumento de que o fenômeno é o mesmo, não uma expressão extática ininteligível, mas um idioma inteligível - compreensível, é claro, a alguns poucos presentes (como no Dia de Pentecostes). Obviamente ela precisaria ser "interpretada" ou "traduzida" em um porto de Corinto, em que se falavam muitos idiomas, para benefício daqueles que falavam alguma língua estrangeira. (...) porque todos os dons de Deus são bons e desejáveis, mas o dom de línguas em si (isto é, à parte do conteúdo falado) não tem capacidade para edificar.

O que dizer, então, da prática atual e particular do falar em línguas, como ajuda à devoção pessoal? Muitos dizem estar descobrindo através disto um novo grau de fluência quando se achegam a Deus. Outros falam de um tipo de "liberação psíquica" que experimentam, e que ninguém quer lhes negar. Por outro lado, precisa ser dito (1Co 14) que Paulo, além de proibir completamente o falar em línguas em público sem interpretação, também desencoraja com insistência que se fale em línguas em particular, se a pessoa não entende o que está dizendo. Muitas vezes, as pessoas se esquecem do versículo 13: "O que fala em outra língua, ore para que a possa interpretar". De outra forma sua mente fica "infrutífera ou improdutiva. Mas, então, que ele deverá fazer? O próprio Paula faz a pergunta. E responde dizendo que irá orar e cantar "com o espírito", mas também "com a mente". Está claro que ele simplesmente não consegue imaginar oração e louvor dos cristãos em que a mente não esteja envolvida de modo ativo.

Alguns leitores, sem dúvida, responderão que nos primeiros versículos de 1Coríntios 14 o apóstolo contrasta a profecia e o falar em línguas, afirma que o profeta "edifica a igreja", enquanto quem fala em línguas "edifica a si mesmo" e, portanto, está incentivando ativamente a prática de falar em línguas em particular. Questiono se podemos tirar esta conclusão legitimamente, devo confessar. Duas razões fazem-me hesitar.

A primeira é que, no Novo Testamento, a "edificação" invariavelmente é um ministério voltado para as outras pessoas. A palavra grega oikodomeō significa literalmente "construir" - cidades, casas, sinagogas etc. É aplicada figuradamente à igreja. Jesus disse: "Edificarei a minha igreja (Mt 16.18). O apóstolo Paulo escreveu: "Edifício de Deus sois vós" (1Co 3.9; v. Ef 2.20-21), e Pedro acrescentou: "Vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual" (1Pe 2.5). A partir deste significado básico, a palavra passou a ser usada no sentido de "fortalecer, estabelecer, fazer crescer em número e maturidade" cristãos e igrejas. Lucas escreve que a igreja na Palestina estava "edificando-se", e Paulo escreve que sua autoridade apostólica tinha-lhe sido dada "para edificação" (At 9.31; 2Co 10.8, 12.19, 13.10).

Além disso, os cristãos têm um ministério de "edificação de uns para com os outros" (Rm 14.19), também expresso na ordem: "Edificai-vos reciprocamente" (1Ts 5.11; v. Rm 15.2, Ef 4.29, Jd 20). E, se alguém perguntar o que mais edifica a igreja, Paulo responderia "a verdade" (At 20.32; v. Cl 2.7) e o "amor" (1Co 9.1; cf. também 10.23). A mesma ênfase em edificar os outros transparece em 1Coríntios 14: o profeta "edifica" com sua mensagem "(v. 3-4), e, no culto público, "tudo" deve ser feito "para edificação" (v. 26; veja também 17), e os cristãos devem procurar "progredir, para a edificação da igreja" (v. 12; v. também 5).

Agora, à luz desta ênfase consistente do Novo Testamento na edificação como ministério aos outros na igreja, o que faremos com a única exceção, que diz que quem fala em línguas "edifica a si mesmo"? Certamente deve existir pelo menos uma ponto de ironia no que Paulo escreve, porque a frase praticamente se contradiz em seus termos. A auto-edificação está completamente fora de cogitação quando o Novo Testamento fala de edificação.

Em segundo lugar, devemos entender a expressão à luz do ensino que já estudamos "para a utilidade de todos", para o serviço aos outros. Então como seria possível inverter este dom e usá-lo para proveito próprio, e não mais para o proveito de todos? Não devemos concluir que isto é um abuso do dom? O que pensar de um crente que recebeu um dom de ensino e que o usa somente para dar-se instrução particular, ou de alguém que recebeu um dom de curar e o usa somente para curar a si, e mais ninguém? É difícil justificar o uso egoísta de um dom concedido especificamente para o benefício dos outros.

Fonte: Stott, John. Batismo e Plenitude do Espírito Santo. Ed. Vida Nova. Páginas 117-120.

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